As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Quinta-feira, 09 de Agosto de 2012

O que se passa é que há duas semanas descobri que tinha uma metástase no cérebro. O que sempre foi o meu maior pânico, terror mesmo, materializou-se na realidade de umas imagens de uma TAC. Tão claras, que até eu consegui ver logo o pontinho branco no meu cérebro.

 

Depois a duvida: dado que fiz este exame fora do âmbito do ensaio clínico, será que devo abrir o jogo e ser sincera em relação ao resultado, mesmo correndo o risco (mínimo) de ser rejeitada do dito ensaio? Li a papelada toda, verifiquei na net, em lado nenhum estava marcado "metástase cerebral" como critério de exclusão. Resolvi dizer a verdade, porque é assim que eu sou. Não tenho feitio para grandes embrulhadas e mentiras a este nível. No dia em que ia começar o ensaio pedi para falar com um médico antes. Disse-lhe que tinha uma metástase de cerca de 1cm, sem sintomas. E fui imediatamente expulsa do ensaio. Sai de lá cheia de raiva. Cabrões dos investigadores, puta de metodologia, caralho mais para os laboratórios e as regras (pouco) estritas, que permitem que se jogue assim com a vida das pessoas. A velha de 70 anos com cancro do cólon e metástases no fígado deitada na cama ao meu lado foi aceite. Eu fui para casa de rabinho entre as pernas. A barafustar para dentro "porque que raio é que eu tenho que ser tão honesta?! Devia ter mentido."

 

O meu médico chéri estava de férias. Fiquei só, a ter que lidar com o meu maior medo, com uma rejeição deste tamanho, com a perspectiva de um tratamento de plano B que não me agradava nada, nadinha.

 

Estive quase a explodir. Como diz uma amiga minha, quase a dar o tilt. Fugi para Marrocos, para respirar. Resolvi esperar mais uma semana que o meu médico voltasse para poder decidir as coisas com calma. E ter tempo para aceitar.

 

Comecei ontem a quimio, mas ainda não aceitei. 

 

 

 

Estava um dia bonito, o sol aquecia-me as costas e eu caminhava pelos jardins do Hospital. "Ainda posso fugir. Ainda vou a tempo de fugir deste pesadelo...", pensei. Ao mesmo tempo ia caminhando para o café, pedi um café com leite e um donuts com chocolate (a minha ração de combate e ao mesmo tempo um ritual que forjei cada vez que estou num hospital e o momento é delicado). Cabisbaixa caminhei pelo parque outra vez, em direcção ao serviço de oncologia. Não fugi. Não sei porquê, mas não fugi.

publicado por Silvina às 16:17

Silvina, o meu coração mirrou ao ler este texto... senti a tua raiva e a tua angústia e tua recusa em aceitar... foge se sentes que deves fugir, fica se sentes que deves ficar!

E que a quimio extermine esse maldito &$($$/&%$/&$&%#%&# do teu cérebro! E o mande com o rabinho entre as pernas para nunca mais aparecer!
Naná a 9 de Agosto de 2012 às 17:28

Obrigada Naná, um grande beijinho*
Silvina a 18 de Agosto de 2012 às 12:01

Silvina Chérie.

Disseste a verdade, porque és verdadeira.
E não fugiste porque não és gaja para fugir a uma boa luta, o que (a meu ver) te dá todas e mais algumas hipóteses de exterminar esse gajo.

Vai ficar tudo bem, Silvuna chérie. Acredita que vai.

Como reagiste à quimio?

PS

Quando é que agarras o Lambard e lhe dás um daqueles beijos.

A malta anda ansiosa :)

Um beijinho
Susana Neves a 9 de Agosto de 2012 às 17:36

Neves chérie,
Acho que até reagi benzinho à quimio, estive sozinha, arrumei a casa, cozinhei, lavei loiça, lavei roupa, andei de bicicleta, nunca fiquei nenhum dia de cama, não vomitei e não tive febre. Ja não foi mau... ;)
Tu não me provoques, que o sr Dr é casado... E eu sou pessoa respeitadora (a maior parte das vezes aahahahah)!
Bisous*
Silvina a 18 de Agosto de 2012 às 12:04

Já tinha percebido o que se passava num comentário teu, salvo erro brincaste com o assunto, mas eu percebi. Vai enfrente, segue o teu caminho, forte, verdadeira e segura... Eu acredito, como sempre acreditei com o Mário. A minha sogra há 30 anos tinha uma metastese no cerebro do tamanho de uma laranja... Ainda cá está... Bem dispostinha nos seus lindos 87 anos...portanto o caminho é para a frente de cabeça bem levantada.
Maria a 9 de Agosto de 2012 às 19:07

Maria, foste perspicaz! Brinquei com o assunto sim ;)
Essa historia da tua sogra é maravilhosa. Vou pensar muito nela.
Um grande beijinho*
Silvina a 18 de Agosto de 2012 às 12:05

Olá,
Acredito em ti e nas tuas escolhas.
Luta.
Desistir não é opção, sendo uma frase quase banal, é constantemente usada por um pai que perdeu um filho, mas é forte, é poderosa e é seguramente uma motivação para a abraçar a vida.
Porra para quem te expulsou do ensaio, e viva para ti que estás e estarás na luta para vencer a guerra - batalha a batalha.
Bem sei que preferias ñ ter q o fazer mas (porque existe) é para que a vida te saiba mesmo bem quando fores livre (pode ser da treta mas eu acredito mesmo nisso).
Abraço mesmo mesmo mesmo apertado, sem palavras nem juízos, apenas uma grande grande abraço meu.
Fica bem,
Flora
Flora a 10 de Agosto de 2012 às 10:05

Olá Flora, muito obrigada pelo comentário, pela força, pelo abraço... Chegou cá tudo.
Um beijinho*
Silvina a 18 de Agosto de 2012 às 12:06

Não fujas, não fujas nunca... a melhor maneira de combateres a fera é enfrentar la e fazer peito... força miúda ou graúda vence essa fera...

Beijinho


(vim até ao teu blog pela mão de "ser mãe é tramado" essa grande mulher)
Felina a 10 de Agosto de 2012 às 12:34

Olá Felina, bem vinda ao blog e obrigada por me deixares um comentário :)
Um beijinho*
Silvina a 18 de Agosto de 2012 às 12:07

tu és como eu - HONESTA, com grandes dificuldades em usar a mentira e com a certeza de que a mentira tem perna curta!
epah, se não foste aceite, é porque se calhar não seria o melhor para ti. que s'a lixe! importante é não desistires. atenta ao exemplo da sogra da Maria (que te escreveu um dos comentários acima). tu também vais conseguir!
és linda, és forte, és lutadora, merecedora... VAIS CONSEGUIR! como tens conseguido até agora... vais dar mais uma vez a volta por cima!
força querida Silvina, estamos contigo! (o teu postal continua a acompanhar-me nas minhas leituras...)
Monóloga a 11 de Agosto de 2012 às 02:17

Um obrigada não chega Monologa, mas obrigada*
Quando eu balanço e enfraqueço a crença venho aqui e leio como tanta gente acredita que ainda há esperança para mim, que ainda me posso safar desta, e sei que as palavras que me deixam aqui são VERDADEIRAS. Isso faz-me sorrir nos dias bons e nos dias maus.
Um grande beijinho*
Silvina a 18 de Agosto de 2012 às 12:10

beijinho e um sorriso*
Monóloga a 11 de Agosto de 2012 às 02:19

Acredito que o mais difícil é mantermo-nos fiéis a nós mesmos, sobretudo em momentos como este, e não eras tu se não fosses honesta, não é! Continua a acreditar e não desistas, Silvina. Não desistas!***
Ana a 11 de Agosto de 2012 às 19:09

Obrigada Ana, é isso que tento pensar... "Não desistir", continuar a acreditar que apesar de todas as más noticias ainda é possível dar cabo deste cancro.
Um beijinho*
Silvina a 18 de Agosto de 2012 às 12:11

Tenho estado de férias e ausente da blogosfera, mas nunca me esqueci de ti. Hoje liguei o portátil e vim espreitar como estavas... E só me apetece praguejar contra a situação em que estás.

Junto as minhas palavras ao coro dos teus apoiantes. Força. Fugir é bom nos intervalos da luta, mas não deixes de lutar.

Um grande abraço,

Eu.
eu a 12 de Agosto de 2012 às 16:35

Obrigada EU! Vou praguejar contigo! ;)
Um grande beijinho*
Silvina a 18 de Agosto de 2012 às 12:12



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