As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Sábado, 08 de Setembro de 2012

Estava no hospital e li este post da Ana. Não acreditei, não queria acreditar. Tinha passado o dia a chorar, mas ainda tinha algumas lágrimas para a Cá. Esta bonequinha, que me tornou alerta da importância de doar medula óssea. Que lutava e vivia com todas as suas forças.

A Cá partiu, mas fica a sua mensagem, que importa relembrar. E transcrevo aqui um dos meus posts preferidos do seu blog. Depois disto, quem vier argumentar que doar medula custa muito é um ogre sem coração.

 

Sejam DADORES DE MEDULA e deixem-se de tretas!!!

Tenho 7 anos e desde os 4 que conheço este hospital.
Desde a primeira vez, fiz tratamentos de quimioterapia, muitas vezes, tantas que nem sei.
Vivi grande parte destes anos num quarto 4x4 onde ao longe, consoante o quarto que me destinam, posso ver bem lá ao fundo um bocadinho de mar.
Outras vezes nem isso.
Da primeira vez, sempre que fui a casa, era como se tivesse que aproveitar o tempo todo duma assentada. O tempo que lá estava era curto, muito curto.
Depois de muitos meses, quase um ano, fiz um transplante. Um dador que nem sei o nome deu-me esperanças de vida.
Passei pela queda do cabelo, pelas dores de barriga, pelas febres, pelas diarreias, pela falta de apetite.
Dessa primeira vez, lembro-me que tive muitas aftas na língua.
Mesmo quando em alguns momentos a fome me vinha, não conseguia comer, tantas eram as dores que sentia.
O dia que voltei a casa foi duma alegria muito alegre, duma felicidade muito feliz, dum contentamento muito contente.
.
Aos poucos fui ganhando forças, mas nos entretantos, tive que ser internada: um bichinho no cateter que não me deixava descansada.
Consegui ainda assim, sempre com consultas periódicas, ter uma vida minimamente normal. Passei fins de semana fora de casa e até consegui estar de férias. Apesar de não poder ir à escola, tive uma professora que me ensinou as primeiras letras e os primeiros números. Brinquei com os meus amigos. 
Senti a minha alegria na alegria que via na família.
Quando nada o fazia prever, depois de um mais um ano em que tudo parecia seguir o melhor caminho, aqui estou eu de volta outra vez a repetir toda esta parte menos boa que já conhecia.
Felizmente as células malignas foram detectadas logo no inicio. Felizmente o meu dador inicial, tinha-me dado muitas células e muitas delas estavam ainda bem guardadinhas.
Assim voltei a fazer mais um transplante.
Mais quimioterapia, queda de cabelo, febres altas, comichões insuportáveis, o corpo inchado e a melancolia de querer voltar a casa.
Aprendi palavras e frases que a maioria dos meus amigos da mesma idade que eu, desconhecem: cateter, mielograma, tirar sangue, ver as tensões, seringas. Tenho-me tornado grande mesmo continuando pequenina.
Agora os valores de sangue estão bons, a medula começou a dar sinais de vida, mas a doença do hospedeiro, que apesar de eu não entender, é bom, deixou-me algumas mazelas no aparelho digestivo.
Isso quer dizer que está tão ferido que não consegue ‘mastigar’ a comida. Tive por isso enjoos e ‘gomitos’ e noites muito mal dormidas.
Tive que começar a comer por um saquinho. Eu até nem me chateio porque a vontade de comer não é nenhuma.
Tenho estado tristinha, sem conseguir inventar brincadeiras que me possam transportar para lados diferentes onde possa sentir um pouco de alegria. Deve ser por isso que durmo muito. Para ver se nos sonhos encontro uma portinha que me possa levar até casa, nem que seja só por um bocadinho.
Agora estou a começar a comer: primeiro só água de canja de galinha, depois um bocadinho de chá. Hoje um pouquinho de pão torrado e amanhã arroz e bifinho de frango grelhado. E eu que só me lembro das bolachas Maria….!!!
Sei que já estive mais longe. Sei que aos pouquinhos vou voltar a sentir-me melhor para poder voltar a casa.
Esse é o meu objectivo.  No caminho da CURA!
Tenho sete anos, feitos faz pouquinho e desde os quatro que conheço este hospital.
Por isso, aos que dizem que ser dador de medula dói, eu digo-lhes: vamos trocar? Eu troco com vocês e nem preciso pensar um pouquinho.
Sabem o que vos digo: SEJAM DADORES DE MEDULA E DEIXEM-SE DE TRETAS.
 
Beijos Grandes de Enormes da Cázinha
P.S. Apareço na Revista Lux desta semana :)

 

 

 

publicado por Silvina às 17:03

Oh pá.............
Eu já cumpri o meu dever e, acredita, que durmo bem melhor depois de o ter feito.
Isto de podermos contribuir para o bem de alguém não tem nada de altruísta, pois não conheço sensação melhor do que o fazer. Bem melhor do que drogas leves.
Ana C a 8 de Setembro de 2012 às 18:17

Fiquei tão triste ao ler... Nem vou tentar dizer o que acho sobre as crianças poderem ter doenças destas. Mas posso dizer o que me custa não poder ser dadora, devido a uma doença auto-imune. É que nem isso posso fazer por alguém que poderia ser uma criança como esta Carmenzita...
Zu a 8 de Setembro de 2012 às 18:19

Conheci a Cá quando o nosso querido Afonso estava no IPO do Porto. O Afonso partiu e continuei a acompanhar a Cá. Doeu, doeu muito.
Maria a 9 de Setembro de 2012 às 06:27

Só passei para dar abracinho.
Cláudia S.
Cláudia S. a 19 de Setembro de 2012 às 11:55



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