As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

às vezes vou ler blogs de outras pessoas com cancro. Gosto de sentir a compaixão da miséria alheia. Reparo que em (quase) todos há referências a Deus, ao marido e aos filhos. Eu não tenho Deus, nem marido, nem filhos. Há referências à família, sempre presente e próxima, à casa, o cantinho onde se sentem bem e onde têm os seus hábitos instalados. Eu não estou na minha casa. Estou numa casa que fiz minha à força, enquanto achar que preciso de estar perto do hospital. A minha família está sempre presente, mas nada próxima, geograficamente falando.

 

Mas tenho os meus hábitos instalados, as minhas rotinas que me consolam. Tenho Paris. Tenho amigos. A Gaja, a M., e a Boneca, que vêm cá ter comigo, partilhar comigo este espaço mimoso onde moro, que me acompanham às sessões de radio e  que me mantêm equilibrada, eufemizam-me* as dores, desvalorizam os meus dramas. A elas, e ao resto dos amigos (família incluída!) que estão mais perto ou mais longe desta cidade, obrigada.

 

 

*não sei se existe, mas se não existir, estou-me cagando, a partir do momento em que a escrevi começou a existir :)

publicado por Silvina às 00:26

Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Este post da Cocó...

 

"Conversa com duas amigas no messenger:

Eu: Estou tão cansada. Acho que tenho um cancro. Mal consigo levantar os braços. Amanhã vou fazer análises.
A: Já te está a cair o cabelo?
Eu: Não, ainda não comecei a fazer quimioterapia...
A: lololololol. Agora ri-me mesmo.
Eu: Se tivesse vocês ficavam tristes? Choravam?
A: Era capaz.
Eu: Iam comigo aos tratamentos?
A: Se a S. me desse boleia...
Eu: Olhavam pelos meus meninos?
A: F***-se! Isso não!
S: Vocês não estão a ter esta conversa parva, pois não? Cansaço não é cancro. Começa com c mas não é a mesma coisa, pá.
A: Se tiveres cancro é onde?
Eu: Com este cansaço todo, deve ser leucemia...
A: Ah. Olha, então quando tiveres os resultados vê se não pões no blogue, está bem? Diz-nos primeiro. Vais onde, fazer as análises?
Eu: Vou à Cuf.
A: E eles dizem logo: pumba, cancro.
Eu: ahahahah
A: Pumba: podes esquecer o freelance
A: Pumba: três filhos orfãos de mãe
S: Só espero que amanhã a esta hora as lágrimas não nos estejam a escorrer pela cara abaixo.
A: Porra. Estás parva?
S: Porque eu vou ficar muito triste, sim
A: Mas alguém falou em cancro?
S: E vou chorar, sim
A: Não tens sentimentos?
S: P*** de m****
A: C******
S: F***-se

Acho que, se falarmos e gozarmos com estas coisas, elas fogem. Pelo menos nós gostamos de acreditar que sim. Não há melhor que falar do medo para ele meter menos medo.
" (excertos)

 

...gerou 28 comentários, alguns dos quais muito chocados com o teor da conversa, com o gozo descarado com o cancro (palavra, situação, doença). Tão escandalizados, que motivaram outro post de desculpas.

 

Devo dizer que me ri a bom rir, não me transtorna, não me abala, não me faz infeliz. Sempre gostei de humor negro, aliás, uma das private jokes deste inverno foi:

"Epá, ao contrário dos outros anos, este ano ainda não me constipei, nem apanhei gripe, nem nada! Só cancro."

Rir é tão bom.

 

 

 

publicado por Silvina às 23:16

Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2010

 

;))

publicado por Silvina às 03:55
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Só agora me dei conta que comecei este blog com dois posts, "Onde?" e "Quando?", mas não expliquei "O quê". Varreu-se-me.

Então cá vai, com algum palavreado médico à mistura, e com o pedido de que se encontrarem ai pelo cyberespaço alguém com o mesmo problema que eu, que me enviem o link para o mail episodiosderadio(AT)sapo(PONTO)pt, ou ai na caixinha de comentários, a gerência agradece :)

 

Nome técnico deste cancro safado:

Carcinoma muco-epidermóide da glândula salivar sub-maxilar ou carcinoma mucoepidermóide da glândula salivar submandibular.

[Traduções: mucoepidermoid carcinoma submandibular salivary gland; carcinome muco epidermoïde de la glande salivaire sous maxillaire]

Estádio II, cerca de 3cm de diâmetro, localizado, todos os gânglios linfáticos adjacentes não foram atingidos.

 

Primeiros sintomas:

 

Fevereiro ou Março 2008 (não tenho a certeza): aparecimento de um inchaço por baixo do maxilar, dores e dificuldades a engolir durante cerca de 1semana. Fui ao médico. Depois de me apalpar durante 10segundos, disse que devia ser um gânglio inflamado e que devia passar dali a 2meses, e que se não passasse que devia ir ver o que era (a consulta foi tão rápida, que nem percebi que era de facto uma consulta e sai de lá sem pagar).

Não passou. Entretanto deixou de me doer. Para mais, por motivos nada alheios à quantidade de bolos e chocolates ingeridos, engordei 8kg e deixei de ver o tal inchaço no pescoço, só o sentindo quando o procurava com a mão, para ver se ainda lá estava. Estava lá, e bem durinho. Como não sou nada alarmista, e como não me doía, deixei andar...

 

Fevereiro 2009: uma inflamação na garganta, com tosse e febre levou-me a ver o meu médico de família em Paris (sou de facto emigra, tenho um médico de família na França). Ele reparou no meu altinho, e disse que eu tinha que ir fazer umas analises ao sangue. Fui. Não acusaram nada de especial, mas o meu médico não largou o osso e mandou-me fazer uma radiografia aos pulmões e uma ecografia ao meu altinho, com a recomendação de ir ver um otorrino assim que tivesse os exames na mão.

 

Abril - Maio - Junho: Consultas com o especialista, ressonância magnética, mais analises ao sangue e um primeiro diagnostico: "olhe tem um tumor mas é benigno! 90% dos casos são benignos..." Mas mais uma vez este médico otorrino também não largou o osso e disse que me queria fazer mais um exame, quando é que eu podia voltar a Paris?... "Pois, agora só em Setembro", disse eu cheia de trabalho e vontade de ter um Verão decente no quentinho de Portugal.

 

Setembro: uma espécie de biopsia deu um resultado duvidoso. O médico liga-me (estava eu no estrangeiro por motivos de trabalho) e diz-me que tenho operação marcada dali a uma semana. Oi? Mas então onde é que esta a urgência? Não era benigno? Hmmm....

 

Novembro: Confirmação do diagnostico actual, cancrozinho, e radioterapia como tratamento / prevenção.

 

E assim acontece.



Terceira semana de radio.

 

Por enquanto tudo OK, com alguns (ligeiros) efeitos secundários: boca mais seca, as gengivas do lado afectado pela radiação um pouco doridas (é só lembrar-me de não esfregar os dentes com tanto vigor), a pele inchada e um duplo-queixo de fazer inveja a qualquer velha de 70 anos. Roam-se!

 

Truques: para além da agua termal da Avène, também beber muita agua, lavar a cara com agua mineral porque a agua del cano é muito calcaria (et ça abîme ma peau), massajar o pescocinho de vez em quando e, claro, queixar-me ao meu médico giraço (uma questão de consolo estético).

publicado por Silvina às 02:49


é que a porra do cancro passou a fazer parte da minha vida. Está lá, todos os dias. Não desaparece. Está lá quando tenho enxaquecas, antes de me vir o período, durante e depois. Está lá quando acordo e quando me deito, e antes de acordar e antes de me deitar. E se há dias em que é fácil esquecer, também outros há em que custa relembrar. E esta merda vai ser assim nos próximos cinco anos.

 

 

(Com a cereja em cima do bolo, que é o meu caso ser raro, "pas standard", e portanto ninguém conseguir prever muito bem a evolução da coisa. Raios parta.)

publicado por Silvina às 02:39

Terça-feira, 05 de Janeiro de 2010

Chegou 2010.

 

A passagem de ano foi festiva, chez quelqu'un, uns espanhóis amigos de amigos, num r/c no lado norte de Paris. Eles comem uvas em vez de passas. Havia boa bebida, boa companhia, e (mais ou menos) boa música. O que levou a abusos, próprios do Ano Novo, afinal ainda não tenho 50anos, posso brincar mais um bocadinho às bezanas. Ressaca, coisa pouca, o pior foi a enxaqueca visitante ainda às 6h da manhã de dia 1, no metro. "Não fales comigo. Para já de falar ou eu vomito!" Não muito glamorouso o meu inicio de Ano.

 

Só mais tarde li algumas recomendações sérias, num site de um conceituado hospital, de que não se deve beber nem fumar (erva conta?) durante a radioterapia. *Ups!*

 

Hoje foi a 6a sessão de radio. So far so good. Nada de efeitos, nem principais nem secundários. Noto que a pele começa a ficar sensível, mas não sei se é dos raios ou porque não me deixam pôr creme na cara. Creme faz falta, senhores, que está frio e a pele seca mais no inverno! Consequência: renovação do stock de Agua Termal, solução quase milagrosa, que fez uma técnica da radio olhar para mim com um ar desconfiado e perguntar-me: "pôs creme na cara???", não, cara senhora técnica, só pus agua termal e um pouquinho de stick com ervas nas têmporas, para me acalmar os nervos, porque esta mascara está apertada e sinto o coração aos saltos. Inspirar. Expirar.

publicado por Silvina às 18:02


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