As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Terça-feira, 31 de Maio de 2011


Noir Désir - Le Vent Nous Portera par Noirdesir-officiel
publicado por Silvina às 01:33

Domingo, 29 de Maio de 2011

Pois que para além de ficar com bocados de alimentos entalados na boca sem me dar conta, como já expliquei aqui, também tenho a versão de me assoar e sair comida pelo nariz. Depois fico com o nariz todo salgado e não tem piada nenhuma! Aconteceu há uns tempos com lasanha de atum e hoje com massa com molho de tomate. Será defeito da comida italiana?



São 3h30 da manhã, e eu devia estar a dormir mas em vez disso estou a escrever no meu blog sobre o cancro e a ler na net artigos sobre o cancro. E a propósito de uma nova campanha publicitária em França para mudar como a sociedade vê o doente com cancro, encontrei isto (sublinhados meus):

 

"Nous, comment nous voyons nous nous-mêmes ? Plus le cancer s’est incrusté dans nos vies –récidives, traitements au long cours, effets secondaires – plus il est difficile de ne pas faire corps avec lui. Et de nous penser à travers lui. Comment faire autrement quand il est un peu comme un chewing gum collé à nos semelles. Difficile de faire un pas sans en ressentir toute la présence poisseuse. Il entache tous les actes ou presque de nos vies et devient un réflexe qui s’impose à nous. Travailler, manger, sortir, etc… De quoi suis-je capable à cet instant ? Est-ce que je ne devrais pas éviter tel ou tel aliment,  telle sortie pour ménager mes forces ? Quant à faire de nouvelles rencontres… Comment vais-je me présenter, éviter le sujet ou non ? C’est un facteur hélas tellement identitaire.

Avec le temps, si les stigmates de la maladie s’effacent, si le risque de rechute s’éloigne, ce filtre s’efface peu à peu. Nous réendossons progressivement notre vraie identité, celle d’une personne libre de toute pathologie. Mais au cœur de la maladie, de sa chronicité, comment faire pour se souvenir que l’on est « une personne, pas un cancer » ? Cela demande un effort intense. Alors s’il est vrai que nous demandons ardemment aux autres de changer leur regard sur nous, il faut aussi que nous réussissions la prouesse de changer de regard sur nous-mêmes." (Anne-Laurence Fitère, neste site)

 

De facto é isto. Eu, que trabalho em Ciências Sociais sobre temas identitários, nunca tinha pensado no cancro como um factor identitário (um bocado de shame on me, confesso). Uma pessoa até pode entrar em remissão, mas estará para sempre marcada com esse ferro em brasa que é o passado, presente e futuro com uma doença crónica que é o cancro. O seu espectro nunca desaparece, mesmo num futuro saudável. Cada vez se torna mais difícil para mim estar com um grupo de amigos e não falar do cancro. Podia falar de cinema, de política, de futebol, mas é o cancro que predomina na minha vida neste momento. E isso não muda com a entrada em remissão. Fico possessa só de pensar que o cancro invade a minha vida desta forma, que rouba e transfigura a minha identidade, a minha aisance social. E calculo que isso deva perturbar muita gente à minha volta. E eu tento engolir os queixumes de cancro, tento não falar sobre isso, precisamente para negar ao cancro essa importância (porque ele gosta de estar em relevo). Mas é difícil, é como se o cancro fosse a balança através da qual tudo é medido. E é avassalador. Este mês devo ter gasto mais de 60€ em livros sobre o cancro, entre livros de receitas, de perguntas e respostas sobre o "depois do cancro", de estudos americanos de nutrição e ensaios clínicos. Sinto que se ler o máximo possível, se perceber o melhor possível como é que se vive com isto, vou ser capaz de dominar o medo e vou conseguir ver-me de novo como uma pessoa e não como um cancro com forma humana.

 

 

(Peço desculpa, este post esta um bocado afrancesado, mas talvez o Google translator safe quem pesque menos de Francês...)

publicado por Silvina às 02:33


Depois de ler este post da Me fica a pergunta: porque é que as ausências custam muito mais nos momentos excepcionais?

publicado por Silvina às 02:18


A cirurgia do Felipe teve algumas parecenças com a minha 4a cirurgia, por isso esta reportagem tocou-me de forma intensa, especialmente as primeiras fotografias na cama do hospital. Hoje parece tudo tão longínquo, quase surreal, se não fossem as sequelas até me podia esquecer completamente o que passei, porque parece que foi numa outra vida, quase como se tudo tivesse acontecido a outra pessoa que não eu.

 

Mas não me quero esquecer nunca do que é ter um tubo enfiado no pescoço para poder respirar, outro no nariz até ao estômago para poder comer, não poder falar (sobretudo como o Felipe diz, "poder expressar os seus sentimentos" ou rir, ou participar nas conversas dos outros), e não poder andar porque as pernas estão demasiado debilitadas. Não me posso esquecer nunca que tive que reaprender a comer, que houve muito engasganço pelo meio, que comi sopa e papas (nem puré passava, era demasiado espesso) durante 6 meses, e chegou ao ponto onde só conseguia beber uns suplementos energéticos de farmácia. Não me posso esquecer que demorava 3h para jantar, muitas vezes acompanhado de lágrimas porque as dores eram terríveis, mesmo com doses consideráveis de morfina. Não me posso esquecer dos efeitos secundários de altas doses de morfina, que são desvalorizados, mas afirmo por experiência própria que prisão de ventre provocada pela morfina não tem graça nenhuma: perdi a conta dos dias em que fiquei em casa a contorcer-me de dores de barriga, das horas passadas na sanita, das dores, das fezes com sangue, do rabo a arder que só com halibut tinha algum alívio. Nunca ninguém fala nisso, porque é demasiado íntimo, porque ninguém quer pensar no que é passar 15 dias sem fazer cocó, e nas dores que nos assaltam quando todo esse cocó finalmente sai. Pois, não tem graça e ninguém me avisou que ia ser assim a este ponto, que esse era o principal efeito secundário da morfina (ah, e eu tomava 3 laxantes diferentes 2x por dia e mesmo assim era este cenário wc-dantesco).

 

Tenho tendência para me esquecer das situações difíceis, para apagar da memoria episódios desagradáveis, e sempre achei que isso era uma coisa boa. Até certo ponto é. Mas por outro lado é bom relembrar, nunca perder a noção do caminho que já se percorreu -onde é que eu estava e até onde cheguei. Porque é isso que me permite poder ficar contente com as vitorias (que não são só no dia dos exames, são diárias).

publicado por Silvina às 01:51


 

Um grande exemplo de coragem e perseverança. A seguir no blog do Felipe: http://tivecancergracasdeus.blogspot.com/

 

publicado por Silvina às 01:39

Sábado, 28 de Maio de 2011

 

Os exames estão todos bons. Estou oficialmente em remissão, depois de 1 ano e 8 meses de luta. Estou na primeira etapa para a cura e ainda me custa a acreditar. Agora é fazer o impossível e viver um dia de cada vez, sem pensar nos próximos exames que serão daqui a 3 meses. *Até aqui tudo bem, como diz o titulo deste post. é tempo agora de tratar de mim, de me respeitar mais, de lutar TODOS os dias para viver em pleno, presente nas minhas acções e respirando a fundo cada momento. Quero fazer o máximo desta vida.

 

Por isso é que não aceito a tendência que tenho para o pessimismo, para os estados depressivos, para os episódios de bulimia, para as preocupações extremas, a baixa auto-estima e a falta de confiança em mim própria. O cancro dá uma grande lição de vida a uma pessoa, mas não a repara; as coisas que estavam estragadas continuam a estar presentes e a ser problemáticas. Só que agora tenho mais vontade de resistir a esse lado negro da força, e digo e repito a mim própria que a luta é para toda a vida, todos os dias, e que se não baixei os braços e lutei contra o cancro, também não é agora que os vou baixar.

 

Vou lutar para que a minha vida faça sentido, para deixar de existir e começar a viver. "Il est temps de vivre la vie que tu t'es imaginée." (Henry James), pode ler-se num postal colado na parede do meu quarto. E foi preciso um cancro para me aperceber disto. Para acordar da vida de dormência existencial que tinha antes. Parece que andei adormecida, a passear pela vida, entretanto passaram uma data de anos e eu nem me lembro do que andei a fazer. Espero que o próximo despertar aconteça sem tanto drama, e que me seja mais fácil estar atenta a mim e não me deixar chegar ao ponto de inércia característico desse viver em standby.

publicado por Silvina às 22:37

Terça-feira, 24 de Maio de 2011

publicado por Silvina às 01:21

Segunda-feira, 16 de Maio de 2011

...o que é comer a mastigar só de um lado e praticamente sem sentir o lado esquerdo da boca. Depois acontecem coisas assim fofinhas, como ficar com uma ervilha inteira 4h na boca sem dar por ela. E temos também a variante grão de milho, como aconteceu ontem.

Não consigo deixar de pensar nos paralelos óbvios entre a Silvina e um hamster... Ou um esquilo, a angariar as nozes para períodos de escassez...

*snif*


Sábado, 14 de Maio de 2011

 

Bom outra coisa muito simples, que não dá trabalho nenhum é quando fazemos um refogado juntar ao azeite (de preferência biológico) um pouco de curcuma ou açafrão-da-índia e um pouco de pimenta preta de moinho. O açafrão-da-índia é uma especiaria amarela, nada picante, que costumamos encontrar no caril e que dá cor e graça à comida. Também é, segundo o que li, um poderoso agente anti-cancro. A lógica de juntar a pimenta à mistura é que esta "desperta" e faz aumentar a eficácia anti-cancro da curcuma. Aqui na foto podem ver o meu moinho de pimenta e o frasco de curcuma, comprada directamente no martim moniz em Lisboa. Um saco de 300gr fica por 2€ ou 3€. é fácil, é barato e é uma forma de contribuir para a prevenção do cancro! Eu costumo fazer imensas misturas de legumes, e começo sempre assim o refogado. Também é bom para dar uma cor ao arroz, juntando-o à mistura até estar translúcido e depois acrescentar o dobro da quantidade de água e deixar cozer em lume brando. Experimentem!



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