As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Terça-feira, 27 de Março de 2012

Gosto de coisas feitas à mão, de artigos únicos, de coisas feitas de propósito para mim. Por isso hoje divulgo aqui dois sites giros.

 

Um é o projecto da minha amiga Aurora, que (por enquanto) tem emprego, mas com salários em atraso há vários meses. O Baú da Aurora existe desde 2007 para dar asas à sua imaginação e exprimir a veia artística que eu sempre lhe disse que tinha.

 

O outro é o blog da Manuela, que conheci através da série de reportagens do Público "Um Ano na Crise". A Manuela está activamente à procura de emprego, e começou há pouco tempo o projecto Mimos de Crochet.

 

Visitem, divulguem, e se gostarem comprem! :)

 

Baú da Aurora

 

- no facebook: http://www.facebook.com/pages/Ba%C3%BA-da-Aurora/102398109842623

 

- no sapo: http://bau_da_aurora.blogs.sapo.pt/

 

- e-mail para encomendas: bau_da_aurora@sapo.pt

 

- no Baú da Aurora está também a decorrer um PASSATEMPO até dia 31 de Março! Mais informações clicar aqui.

 

 

 

Mimos de crochet

Foto de Fernando Veludo/nFactos

 

 

- blog: http://mimosdecrochet.blogspot.com/

 

- e-mail para encomendas: mimosdecrochet@gmail.com

publicado por Silvina às 15:06


 

Hoje precisava de me lembrar disto.

publicado por Silvina às 15:03

Segunda-feira, 26 de Março de 2012

Tomo banho a ouvir música e de vez em quando canto ao mesmo tempo que a Etta James. Enquanto me enxugo na toalha lavo as mãos sujas de óleo corporal para pôr as lentes de contacto, aproveito e meto também o desodorizante, para ir secando antes de me vestir. Visto-me à pressa. Lembro-me que preciso de café, ponho o café a fazer enquanto ligo rapidamente o PC, e mexo na toalha que tenho na cabeça como que a esfregar o cabelo em modo pré-secagem. Para além do café, preciso de torradas. Mas já estou a pentear o cabelo e a pôr óleo para hidratar e cheirar bem, e torradas com óleo não combinam, de modo que lavo novamente as mãos e vou cortar umas fatias de pão com avelãs (ideia esquisita, mas estava em promoção leve 2 pegue 1 na loja bio e aproveitei). O café está quase pronto, o cabelo está quase seco, ponho creme na cicatriz, enfio um top por cima do soutien, ponho as torradas a fazer, estão prontas, lavo de novo as mãos que estão cheias de creme, ponho manteiga nas torradas, o leite de soja a aquecer no micro-ondas para fazer um galão sem lactose, sento-me finalmente à secretária com café, torradas e o cabelo compostinho. Tenho a mania de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Gasto mais tempo (provavelmente), corro de um lado para o outro, lavo demasiadas vezes as mãos, é ligeiramente esquizofrénico, mas faz parte de mim, tenho ritmos esquisitos e uma tendência doentia para o multitasking levado ao extremo com coisas parvas do dia-a-dia.


Domingo, 25 de Março de 2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há uns tempos comecei a ler Tristano Morre, do Antonio Tabucchi. Li umas 10 páginas e tive que parar. é um daqueles livros intensos, em que cada página me fazia pensar durante 1h em temas difíceis desta vida. Encontrei citações assim desta categoria em cada parágrafo.

 

Lembro-me de na altura ter pensado: "como é possível que um escritor consiga falar assim da morte sem estar ele próprio a passar por isso?"

 

Não era possível. Antonio Tabucchi morreu hoje de cancro.

 

Foda-se para o cancro.

 

"A propósito de elefantes, de todos os rituais fúnebres que as criaturas deste mundo excogitaram, sempre admirei o dos elefantes, que têm uma estranha forma de morrer, sabias? Quando um elefante sente que chegou a sua hora afasta-se da manada, mas não o faz sozinho, escolhe um companheiro que vá com ele, e abalam. Avançam pela savana, muitas vezes a trote, depende da urgência do moribundo... e caminham, caminham, podem fazer quilómetros e quilómetros, até o moribundo decidir que é ali que ele quer morrer, então dá umas quantas voltas e traça um círculo, porque sabe que chegou a hora de morrer, leva a morte dentro de si mas tem de colocá-la no espaço, como se se tratasse de um encontro, como se quisesse olhar a morte de frente, fora dele, e lhe dissesse bom dia senhora morte, cheguei... (...) e só ele pode entrar naquele círculo, porque a morte é um assunto privado, muito privado, e ninguém lá pode entrar senão quem está a morrer... e aí chegado pede ao companheiro que o deixe, adeus e muito obrigado, e o outro regressa à manada...

 

(...)

 

Só eu conheço o meu círculo, sei quando há-de chegar o momento, é certo que quem nos escolhe é a hora, mas também é certo que se tem de concordar que ela nos escolha, a decisão é dela mas no fundo também tem de ser nossa, como se fosse nossa a escolha e nos limitássemos a capitular frente a ela... Por enquanto vamos trotando juntos, aparentemente seguimos em frente, embora na realidade estejamos a recuar para chegar ao meu círculo, que fica à minha frente. Tu entretanto ouve e escreve, quando chegar a hora da despedida eu digo." (Tristano Morre, p.10-11)

 

Foi hoje. Adeus Tabucchi.

publicado por Silvina às 15:14

Sexta-feira, 23 de Março de 2012

Estou doente há três anos. Já passei por muito. Ainda me sinto confusa com a minha situação, com o corpo que me restou, com a identidade enquanto doente oncológica, com as mazelas psicológicas, com o crescimento (interior) forçado.

 

Ainda esta semana a minha psicóloga me disse que tinha de aprender a viver com uma doença crónica e eu fiquei a olhar para ela com ar ofendido, como se ela me estivesse a subestimar, ou pior, a condenar-me a viver doente o resto da vida. Mas é obvio que ela tem razão.

 

Faz-me espécie a frase "tu vais vencer" ou a variante "tu vais vencer esse bicho". Porque eu não vou vencer nem vou perder. O que eu faço é viver. Ainda melhor no gerúndio: o que eu vou fazendo é ir vivendo...

 

O desafio não é saber se o cancro ainda está cá, ou se já não está cá; Ele pode voltar a qualquer instante, e se por momentos nos sabe bem esquecê-lo, quando lemos noticias destas, rapidamente nos lembramos.

 

A tentação de viver saudável é demasiado grande, demasiado boa, para nos levar a ignorar sinais (como fiz no Verão passado) porque queremos à força continuar a viver na ilusão de ter saúde. Se em Maio entrar em "remissão" não significa que "venci", nem que estou a ganhar. Significa que continua a luta contra um gigante adormecido.

 

O desafio é, então, aceitar. Viver com ele. Domá-lo, e não deixar que ele nos leve a melhor. Que nos tire o sorriso de viver mais um dia que passa. Viver com uma doença crónica é aprender a aceitar as circunstâncias sem estar forçosamente a desistir; é receber o novo corpo como uma dádiva, porque este corpo ainda mexe, ainda respira, ainda me permite fazer coisas que eu gosto -apesar de acordar todos os dias com dor. é reapropriar-me de quem sou e para onde vou. é não deixar de ter sonhos apesar de eles nos poderem ser roubados a qualquer momento. é aceitar a perda de controlo, e viver a vida ao sabor da corrente, como uma pena, leve, levezinha que é levada pelo vento.

 

[frase na minha parede, em francês e não em checo:

"Avoir l'espoir, ce n'est pas croire que les choses vont se produire bien, c'est penser que les choses auront un sens." Vaclav Havel

Que traduzido à bruta para português dá mais ou menos isto: "Ter esperança não é acreditar que as coisas vão necessariamente correr bem, mas sim pensar que as coisas farão sentido"]

 

 

Se é a vida que eu queria viver? Não. Se preferia mil vezes não ter cancro? Claro. Se gostava que os meus êxitos profissionais dependessem só do meu esforço, capacidade de trabalho  e de eu dar o meu melhor? Sem dúvida.

 

O (meu) contexto mudou para sempre. Daqui a uns 3 meses faço 30 anos mas o tempo já não se mede em meses nem anos. Já tenho 30 (e tal) anos há muito tempo. A data vai ser só motivo de festa pela festa. E quando chegar aos 60 faço outra.


Sábado, 17 de Março de 2012

Noutro dia tive que responder a um questionário em que perguntavam a minha situação:

 

1. Doente de cancro, em tratamento

2. Doente de cancro, em remissão

3. Doente de cancro, curado

 

Fiquei com cara de caso. Logicamente já não estou em tratamento, a radioterapia acabou no dia 9 de Março; Também não estou em remissão, porque só volto a fazer exames de controlo em Maio, e só se esses exames não acusarem nada é que serei considerada como estando em remissão; Logo, curada também não estou, embora na minha cabeça ecoe a frase que ouvi no documentário Au Coeur du Combat ("J'ai décidé de guérir et puis voilà." - tradução às três pancadas: "Decidi que me vou curar e pronto.").

 

Não sei onde me encaixo, não sei se posso ousar a arrogância de dedidir que estou curada, antes das provas cientificas, antes do OK médico, antes dessas palavras saírem da boca do Lambard. O que é que eu sou? Como é que eu estou afinal?

 

[O ser humano precisa de ser poder situar. De saber onde está, o que o rodeia. Esta situação de confusão quanto ao meu estado provoca-me insónias. Não me apetece nada continuar a ter insónias até Maio. Xaxa...]

publicado por Silvina às 16:36


imagem DAQUI.

 

 

Antes da minha 2a recidiva tinha um comportamento muito zen em relação ao tabaco. Tolerava, não me importava que fumassem ao pé de mim desde que não me fumassem para cima, e até tinha vontade de dar uns bafinhos num cigarro de enrolar de vez em quando.

Depois comecei lentamente a desgostar do cheiro, do objecto, da atitude.

Agora acho que quem fuma é parvo.

 

Tenho um amigo que fuma. Muito (1 a 2 maços por dia). Tem 28 anos. Eu ontem perdi as boas maneiras e toda a tolerância e disse-lhe: "sabes que vais ter cancro não sabes? Tens ideia do que dói ter cancro? Vais-te arrepender de cada um dos cigarros que meteste à boca."

Não sei o que é que me deu. Não costumo ser assim tão moralista, muito menos meter-me desta maneira na vida e nas opções de cada um. Mas acho que fiquei enojada pela inconsciência dele, pela atitude de preferir fechar os olhos e fingir que o cancro não existe e que não é com ele (quando eu estava sentada à sua frente, eu, com um cancro ORL em que 90% dos casos são causados pelo tabaco e álcool).

 

Ele respondeu que sim, que sabe que provavelmente terá um cancro por causa do tabaco, mas que se for lá para os 60 anos ele não se importa. Eu respondi: "não vais ter aos 60, vais ter antes." E que tendo cancro aos 20, aos 40 ou aos 60, a verdade é que é uma experiência que CUSTA MUITO, que DÓI, que MATA, que ninguém nunca deveria encolher os ombros e pensar "ékkk, não é comigo."

 

Estou farta de atitudes passivas em relação ao tabaco. Eu sei que é bonito respeitar a liberdade individual de cada um, mas porra, não sou obrigada a gostar de ver um amigo a matar-se com bafos à minha frente e ficar de boca calada.

 

Pedi-lhe desculpa por estar com um discurso assim tão agressivo, mas foi mais forte do que eu.


Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Estou louca para me enfiar numa sala e experimentar isto:

 

 

Descobri a escalada quando era pequena, entretanto ganhei medo das alturas e os kilos a mais dissuadiram-me de ideias malucas que envolvessem cordas a apertar-me as coxas à vista de todos. Agora que já não tenho esse problema, tenho outros: a perda de massa muscular e sobretudo, sobretudo, os braços, ombros e pescoço completamente atravancados impedem-me de ir experimentar isto (por ex., tenho dores horríveis só para me pentear e secar o cabelo). Mas a sério, que me sinto seriamente tentada, lá isso sinto...

 

 

[nota mental: nunca mais na vida adiar planos e vontades que estejam ao meu alcance, mesmo que pareçam um bocado doidos, porque depois pode ser tarde demais.]


Terça-feira, 13 de Março de 2012

Tenho andado com moleza, sem pachorra para pensar, sentir ou escrever. Tenho andado anestesiada com o ritmo das radios, as insónias, a comida e as idas à fisioterapia. Agora a radio acabou, correu tudo bem, estou com a pele vermelha e com um certo cansaço, mas nada de dramático. Alterno noites de 9h e 10h com outras de 4h ou 5h e não sei porquê. O Dr Lambard deu-me 30 embalagens de amostras de um creme La Roche Posay para ajudar a pele a voltar ao normal. Ainda me disse para trazer de volta as embalagens que não usasse e eu pensei "deves!" -um creme tão bom, vou usar tudo!

 

Também não tive cabeça para responder a alguns mails que me enviaram nestes últimos tempos. Mas respondo agora, aqui neste post, assim meio indirectamente, só para dizer que os mails que me enviam me tocaram profundamente. Ana, saber que o Help me Live te ajudou a ajudar a tua amiga foi mesmo fantástico e inacreditável; nunca pensei dizer isto, porque não sou do tipo de "ajudar" ou pensei que não era, mas fiquei mesmo contente por poder ter "prestado serviço". Graças aos mails e comentários que me têm enviado ou deixado aqui no blog apercebi-me que tenho uma voz, que tenho algo a dizer e que há pessoas que, ao contrário do que eu pensava, querem ouvir, querem saber. Pessoas a quem o meu cancro mete respeito mas não mete medo, pessoas que não se deixam contaminar pela saída mais fácil que é a distância, e que se interessam por MIM pela pessoa que eu SOU, e não somente pela doença que trago comigo. Isso foi revelador. Falei muito de vocês e deste blog com a minha psicóloga. Foram uma grande ajuda para eu olhar para dentro, perceber que tenho valor, que há pessoas que vêem isso e que o mostram.

 

Esse reconhecimento ajudou-me a (re)criar a minha nova identidade enquanto pessoa que sofre com um cabrão de um carcinoma muco-epidermáide mas que pode ser mais do que simples paciente, mais do que um corpo em sofrimento. Ainda aqui há uma pessoa por inteiro. Que é interessante, antes do cancro, mas também porque tem cancro. Não vou mais aceitar sentir-me diminuída quando não conseguir falar de mais nada que não cancro, quando invejar (e tenho esse direito) pessoas que têm mandíbulas e que acordam todos os dias sem dor, quando às vezes suspirar e desejar poder ter uma vida como os outros, conseguir trabalhar, ter um homem que me ame e que fique comigo e com o cancro. Apesar de ser uma chata que fala de cancro, radioterapia e medo de morrer como quem conta que embirrou com a senhora da caixa do supermercado, é assim que eu sou e é este o meu valor. As pessoas que não conseguem compreender isto têm um sério trabalho psicológico pela frente para entender as suas falhas e os seus limites. E dito isto, o próximo passo é deixar de me preocupar tanto com o que os outros pensam! E preocupar-me sim com o que demonstram, com o que dizem de positivo e que me traga boas energias! O resto não interessa.

 



"J'ai decidé de guérir. Et puis voilà."
In: Au coeur du combat

 

 

Ontem fui ver este documentário. Sai de lá quase em choque, e caminhei sem rumo pelas ruas de um 15ème arrondissement que não me é de todo familiar. Não sabia o que pensar, não sabia o que sentir. Tudo tão familiar. Eu sou cada uma daquelas 6 historias de cancro. Eu soube imediatamente desde o inicio do filme qual o doente que não se ia safar. Pelos seus olhos tristes, pelo medo (terror?) nos seus olhos e nos olhos da sua esposa. As vezes preferia ser mais insensível, mais obtusa, mas não sou e ando a aprender a viver com isso.

 

Não consigo mais ver pessoas doentes e ficar indiferente. Não consigo mais fechar os olhos ao sofrimento e pensar: "eu de qualquer maneira não posso fazer nada por eles, hão-de ter pessoas da família que os ajudem". Não é verdade. Muitos não têm. Eu posso fazer mais. Eu devia fazer mais. Qual o sentido de passar eu por tanta coisa, por tanto sofrimento e não o poder partilhar? Não o poder usar para ajudar alguém? As vezes sinto que tenho esse dever. Que devia mudar a minha vida toda e não deixar passar esta oportunidade de me abrir aos outros, de partilhar, de tentar trazer algum conforto aos que sofrem, porque vale sempre a pena.

 

Qualquer esforço vale a pena, olhar para o lado e fingir que o sofrimento não existe é que já não dá; já não consigo ficar indiferente, já não consigo pensar que não é comigo. Que a miséria do mundo não é comigo, que a fome, a sede, a provação, as cicatrizes, a dor, a angustia, o medo e o desespero não são comigo. Por ter passado tudo isso sei que é comigo. Não sei se vou ter a coragem de fazer alguma coisa a sério quanto a isso, de agir. é complicado imaginar-me o resto da vida rodeada de pessoas doentes e com o sofrimento a entrar-me pelos olhos adentro diariamente. é demasiado intimo, demasiado pessoal. Dentro desde Robocop há um coração que bate, e que às vezes se desfaz em pequenos cacos emocionais. Não sei se terei a coragem de olhar o sofrimento de face, de o desafiar todos os dias da minha vida. à suivre...

 

__________________________________________________

 

 

Artigo no Le Monde sobre este documentário:

"Au cœur du combat" : plongée en eaux calmes dans le quotidien du cancer

 

 

 

Trailer:


publicado por Silvina às 14:22


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