As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Instigada pela minha amiga Aurora, finalmente fui ver o filme Intouchables. Como já estreou por cá há milénios, só está em exibição num cinema no Quartier Latin, um daqueles cinemas só com uma sala, pequena, com bancos de couro antigo e gasto de tantos rabos ali sentados. Além de mim e da minha amiga E., estavam 5 pessoas na sala. O filme começou e às tantas viam-se as letras com os nomes dos actores todas tremidas. Levantei-me, sai da sala e subi as escadas em direcção à cabine do projeccionista para avisar o senhor do que se estava a passar. As tantas oiço alguém a subir as escadas atrás de mim e a dizer-me em francês: "Onde está o funcionário? O filme está todo tremido!" E eu respondo-lhe em francês, sem realizar bem que aquele senhor que me dirigia a palavra era o Joaquim de Almeida: "Sim, sim, foi por isso que eu vim cá avisá-lo!". O senhor projeccionista lá apareceu e eu e o JOAQUIM DE ALMEIDA voltámos a correr para a sala para continuar a ver o filme.

 

E pronto. Foi assim o meu cineminha com o Joaquim. Ah, o filme? é muito giro. Eu e o Joaquim gostámos muito.


Terça-feira, 29 de Maio de 2012

Finalmente, uma boa noticia. Fiquei estarrecida e acho que ainda não baixou em mim toda a alegria desta novidade. Custa-me a digerir o facto que é real, que enfim algo de bom me aconteceu. A ultima vez que tive uma boa noticia relacionada com o cancro foi exactamente há 1 ano e 5 dias.

 

Este gânglio do pescoço, que falei aqui e aqui e que retirei na 6a feira, é afinal...

UM QUISTO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 

Fiquei a olhar para o Lambard e ele para mim, ri-me, ele riu-se, escondi a cara com os braços, ri-me mais, disse-lhe "está a gozar com a minha cara?!" E ele a esforçar-se para ficar sério: "Não! é um quisto!" E eu disse: "Oh que pena, então quer dizer que já não fazemos mais radioterapia?" E ele responde: "Pois, parece que não." E rimo-nos os dois com cumplicidade.

 

é um quisto.

 

Dentro da minha cabeça ainda ecoa "quisto... quistoooo... istoooo...." Não é cancro, não tenho que fazer mais radio no pescoço. Que brutalidade.

 

 

Para a Melissa: Obrigada por acreditares piamente no quisto. Funcionou. Continua a acreditar piamente que o resto também se vai resolver, se faz favor, a gerência agradece! :)

publicado por Silvina às 22:45


Eu sabia que mais cedo ou mais tarde o facto de o Dr Poussin se ter despedido de mim com 2 beijinhos me ia dar jeito. Foi hoje. Na consulta com o Dr Lambard, este frisou bem a importância de fazer sempre os exames com o mesmo médico radiologista, e eu pensei "é agora!", e disse-lhe: "Claro, até porque o Dr Poussin além de ser muito competente, agora comprimenta-me com beijinhos e trata-me pelo nome próprio..."

 

Lambard, abrindo muito os olhos: "O Dr Poussin despede-se de si com beijinhos?!"

 

Eu, com ar completamente natural: "Sim."

 

Lambard, abrindo mais os olhos e com um sorriso meio incrédulo: "A sério?! O Dr Poussin? Com beijinhos?"

 

Eu: "Sim!"

 

 

[E pensei, mas graças ao Senhor não o disse em voz alta porque senão seria um coranço épico: "Não esteja ciumento que não vale a pena..."]

publicado por Silvina às 22:31

Domingo, 27 de Maio de 2012

Mais lamechice da boa...

 

 

 

 

(...) Tu nunca serás uma sorte para ela. Sorte é poderes tê-la na tua vida.
Sabes?
Ela não é romântica por natureza, mas uma demonstração espontânea da tua parte vai fazê-la fraquejar. Porque ela é segura e doce ao mesmo tempo. (...)

publicado por Silvina às 03:31

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

No fim-de-semana passado fui ao Marché aux Puces, uma espécie de feira da ladra mas em grande. Estava a chuviscar e depois de cafezar com umas amigas meti-me a caminho para apanhar o metro. Às tantas passa por mim um dread e diz-me: "Fais pas la gueule !" (pode ser traduzido por "não estejas de trombas", ou "não faças essa cara de má"). De repente cai em mim e desatei-me a rir. Deve ser por isso que ninguém (leia-se, gajos) se mete comigo na rua, devo andar com cara de pau o tempo todo... O dread tem toda a razão, é preciso descontrair, sorrir mais...

 

Os dreads estão fartos de me entregar mensagens subliminares em Paris.

 

Uns dias mais tarde estava eu a andar de bicicleta, com a minha mochila e o colete reflector amarelo (sexy time!), mas de saltos altos. Lembro-me de nesse dia ter pensado que me doíam as costas e que gostava de ter um corpo desportivo, com músculos, que se mexesse bem e sem dor. Pouco depois abrando para ultrapassar um camião que estava parado à frente de um supermercado, e o rapaz (dread) que estava a descarregar os caixotes olhou para mim e disse: "T'es sportive quoi !" ("és desportista!" -o quoi é uma marca do discurso de um dread). Lá está, o Universo a responder às minhas angústias através das bocas dos dreads...

 

Acho que os dreads de Paris têm uma classe incrível. Não há cá bocas fatelas, só pérolas de boa educação dreadiana. Outro exemplo: aqui há uns anos (estou velha) estava a passear ali na zona de Les Halles a comer uma maça quando um dread sentado num banco de jardim me chama: "Eh, mademoiselle, mademoiselle !" E eu penso: "pronto, lá vem este dizer que gostava de me partir toda ou outra coisa assim poética como oiço em Portugal..." Abrando e educadamente pergunto-lhe: "Sim?" Ele ri-se e responde-me: "Bon Appétit !". Chapada de luva branca bem dada, que me fez engolir os preconceitos. Nunca mais me esqueci disto.

 

 

[imagem via blog Monologando]

publicado por Silvina às 23:58
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Para todos (os que leram e comentaram, os que leram isto e não tiveram palavras):

Não é fácil para mim escrever certas coisas. Certos posts parecem que saem a ferros de dentro de mim, muitas vezes em noites de insónias. São coisas que tenho cá dentro e que as ponho fora em forma de palavras. Nunca perco muito tempo com correcções nem com fazer frases bonitas. O que escrevo nestes posts mais difíceis é a cru e escarafuncho bem fundo o meu interior.
Depois fico emocionada até ao osso quando leio comentários como os que deixaram aqui, sem esquecer os mails que recebo relativamente a estes posts.

Muito mais do que uma lágrima ao canto do olho, as vossas palavras libertam-me tensão, fazem-me companhia que ultrapassa em muito o "simples" mundo virtual. Não sei o que fiz para ter a sorte de ter pessoas como vocês a lerem o que escrevo. Mas sinto-me uma privilegiada por vos ter comigo neste caminho, e por podermos todos aprender com isto: vocês comigo e eu com vocês.

Um beijinho* sentido

 

 

(deixado na caixa de comentários deste post)

publicado por Silvina às 18:30
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Acabei de ser operada. E o que mais me bateu hoje não foi o regresso ao hospital, nem o ritual de vestir a bata transparente, tirar as jóias, enfiar uns plásticos nos pés e uma touca na cabeça, nem sequer foi ouvir o médico dizer-me que se calhar o que tenho (tinha) no pescoço é mesmo um quisto e não um gânglio. O que mais me bateu hoje foi o facto de ter lido o teu livro antes e depois da cirurgia. Acompanhou-me nesta viagem, na mente, na pele, na maneira de me emocionar com o mundo -mesmo este meu mundo hospitalar. Transportou-me todo o dia, desde o momento em que o abri no metro até acabar de o ler na cafetaria do hospital, rodeada de batas brancas e verdes e pés com socas (acho que são Crocs), já com uma nova cicatriz e novas dores, e um sumo de laranja à frente. A satisfação de sentir algo enorme, maior do que eu, é mil vezes superior à de compreender um conceito metafísico importante ou de fazer uma fantástica descoberta racional. Raramente me tinha sentido assim tão inundada de emoções, e, sobretudo, nunca me lembro de ter gostado. 

 

E devo isso tudo ao teu livro, que escreveste com 25 anos e que pela tua amizade me chegou às mãos na altura certa. E tenho a certeza de que também o li na altura certa. Hoje. Obrigada por estes momentos de profundo sentir, e pelas viagens por Paris, Veneza e Roma. Também as conheci por esta ordem. E no fim, o regresso a Paris e a vontade de regressar a Lisboa. Sinto-me estranhamente em casa.


Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

 

 

Com um grande MERCI à Melissa!

publicado por Silvina às 22:10


Mail às 22h50 do Dr Lambard, para me pedir que leve um exame para a consulta que tenho marcada com ele para a semana. E a dizer-me que pensa em mim amanhã e sexta-feira (vão ser dias complicados, depois explico.)

 

Resposta minha, sem tardar: "11h da noite e ainda está a pensar em mim?"

 

 

A sério, às vezes quem cora com a minha lata sou eu... :)

publicado por Silvina às 21:55


 

 

 

 

 

 

Gosto de todas as fotos. Espero que estas pessoas estejam todas bem e em remissão.

 

(Mas para a próxima faço-me de convidada para dar a cara pelos JOVENS ADULTOS também vitimas deste tipo de cancro.)

publicado por Silvina às 04:14


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