As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Terça-feira, 28 de Agosto de 2012

Desta vez tive mal disposta o dia todo. Acordei virada. São raros os dias em que acordo capaz de esfolar o mundo, de cuspir para cima de quem me olha de lado e de mandar vir a torto e a direito porque não me consigo controlar. Hoje foi um desses dias. Acho que andar com privação de sono há 5 noites pode ter contribuído para a "tempestade perfeita". Até com o Dr Lambard consegui ficar chateada. Arre! 

Tirando o mau humor e o sono, a quimio em si correu bem, longa como de costume mas por enquanto não sinto nada. Espero que as náuseas fiquem longe, e façam companhia ao vomito lá atrás do sol posto.

Fiz um pé de vento porque me enfiaram um capacete frio (gelado) na cabeça, supostamente para impedir o cabelo de cair. Mas: 1) Não funciona, ele cai na mesma; 2) é desconfortável como o raio; 3) fico parecida com o ET versão química; 4) e finalmente, pode impedir os produtos da quimio de penetrarem no couro cabeludo, e como eu tenho um nódulo na cabeça (parece um galinho) isto não é nada boa ideia, parece-me...

Prova que comprova (passe a redundância) o ponto n.° 3:

 

 

 

E hoje, pedalaste, Silvina?

 

SIM, CLARO. Fui e voltei a pedalar.

publicado por Silvina às 16:45


 

 

(sugerida aqui há tempos pela Ana C. na página FB dos Episódios. Não consigo parar de ouvir.)

publicado por Silvina às 16:29

Segunda-feira, 27 de Agosto de 2012

...e lembrar de bons velhos tempos...

 

 

publicado por Silvina às 01:33

Domingo, 26 de Agosto de 2012

Fim-de-semana no campo. E ao jantar, o seguinte diálogo:

 

Amigo de uma amiga: "Mas voltas quando para Paris?"

 

Eu: "Amanhã."

 

Amigo de uma amiga: "Já? Mas não podes voltar mais tarde?"

 

Eu: "Não..."

 

Amigo de uma amiga: "Mas porquê? O que é que tens que fazer em Paris assim tão importante?"

 

Eu penso "porra que este está a pedi-las" e digo: "Tenho que voltar para Paris porque tenho cancro e tenho que fazer quimio daqui a 4 dias."

 

Amigo de uma amiga: "Ah fixe, vais a um concerto! De quê?"

 

[NOTA: cancro diz-se cancer em francês, que pode ser confundido com concert (concerto de música), especialmente se a conversa se processa entre duas pessoas estrangeiras]

 

Eu: "Não, vou fazer quimio. Quimioterapia."

 

Amigo de uma amiga: "Que grupo é esse, não conheço."

 

Eu, já morta de riso: "Não é CONCERTO, é CANCRO, sabes, cancro - a doença!!! Tenho cancro há 3 anos!!! E vou ter que ir fazer tratamentos de quimioterapia."

 

Amigo de uma amiga: "Errrr. Ahhhh. Epa..."

 

 

Pronto. Estava a pedi-las e eu fui tão brutinha! Adoro! eheheh

publicado por Silvina às 18:43

Sábado, 25 de Agosto de 2012

Sabia que o cabelo ia cair, só não sabia quando nem como. Aconteceu de um dia para o outro. Acordei hoje de manhã com a almofada cheia de cabelos e no banho foi um festival - parecia que me estavam a aspirar a cabeça.

 

Fui ao cabeleireiro, depois de ter andado semanas a pensar que ia ser um drama, porque ia sozinha, porque ia ficar triste, porque ia perder o cabelo, afinal não foi nada disso:

 

Eu: "Quero uma moicana."

 

Tony: "Estás a falar a sério?!"

 

Eu: "Ya. Quero lá saber! Sempre quis fazer uma, mais vale aproveitar agora, mesmo que dure 1 dia, ao menos vou-me divertir!"

 

 

 

 

Tony: "Põe um bocado de maquilhagem na cara... Um eyeliner, umas sombras... Para ficares mais feminina. Senão tens as sapatonas todas atrás de ti..."

 

Já disse que adoro o meu cabeleireiro? O Tony faz-me rir. O Tony é o maior.

publicado por Silvina às 16:09

Sábado, 18 de Agosto de 2012

Quando penso em razões de viver, de não desistir, de não baixar os braços, penso em Amor. Toda a gente fala de Amor. Todos os que venceram o cancro contam que o fizeram por Amor, graças ao Amor, através do Amor.


(Mas eu não. Sou, e sempre fui, uma azarada no Amor.)


E se amor existe na minha vida, é sobretudo a ambição de amor. Quero viver um amor livre de medos, de culpas, deveres ou obrigações. Quero viver um amor que valha só porque existe, só porque sim, sem necessitar de mais razões ou argumentos para perdurar. Quero um amor que me descubra, que me esculpa e me revele a pessoa que sei que sou. Que sempre fui mas andei perdida. Quero um amor que me encontre, que me reconheça, que me dê a mão e que não me largue.


É isto que quero e que, finalmente, acho que mereço.

 

É esta ambição de amor que me alimenta, porque recuso morrer aos 30 anos sem nunca ter vivido uma verdadeira história de amor.

publicado por Silvina às 12:38


Para Ti


Queria levar-te a dor embora.
Queria poder soprar um desejo de paz e que a paz acontecesse para ti, sem que tivesse nome de fim.
Queria poder arrancar-te as angústias e afirmar-te, com a certeza daqueles que tudo viveram e sabem, que tudo ficaria bem, que poderias descansar dos medos, abismos, dúvidas e solidão.
Queria descobrir-te um amor que te visse tal como és por dentro, esquecendo todas as outras camadas que, apesar de terem feito de ti quem és, impedem tantos de chegarem aí, onde tudo é bonito e profundo, com medo de se magorem, por te amarem tanto.
Queria fazer com que acreditasses que sim, que é mesmo possível, porque coisas boas são possíveis para ti.
Queria dizer-te que ficarás bem de qualquer forma, pois a tua forma é daquelas que transcendem conceitos e estéticas.
Podes ter que abrir mão de algumas coisas que te acompanharam e que compõem o que és por fora, mas a tua força, a tua beleza, está toda aí dentro. Dentro de tudo aquilo que importa. Dentro de ti.
És a minha heroína.
E sim, tudo vai ficar bem.

 

Ana C.

 

 

Vai ficar tudo bem, não vai?



publicado por Silvina às 12:31

Terça-feira, 14 de Agosto de 2012

 

"Trenchtown Rock"

 

 

One good thing about music, when it hits you, you feel no pain...

 

 

 

Bob Marley and The Wailers - Live at The Roxy Theatre, Los Angeles, CA 25.05.1976. (Rastaman Vibration Tour) 

publicado por Silvina às 09:32

Quinta-feira, 09 de Agosto de 2012

 

No fim da quimio:

 

"Precisa que lhe chame um táxi para voltar para casa?", pergunta-me a enfermeira de serviço.

 

"Não é preciso, tenho a minha bicicleta.", respondi.

 

Ficou com ar espantado a olhar para mim.

 

 

Sim, porque depois de horaaaaaas a levar na veia via cateter, peguei na bicicleta e no caminho para casa fui aviar receitas à farmácia. O resultado foram dois sacos cheios de remédios para todas as eventualidades e uma bicicleta a abarrotar...

 

 

 

São estas minhas decisões parvas que me fazem sorrir. Quem é que no seu juízo perfeito vai fazer quimio de bicicleta, sem saber em que estado é que sai de lá? Eu! Claro que passei a tarde toda a fazer planos alternativos, estratégias para lidar com os prováveis cenários: "saio daqui a vomitar, como faço para ir para casa?" ou "Estou com a cabeça às voltas, se calhar não é boa ideia pedalar..." ou ainda "Estou com náuseas e desequilíbrios, deixo aqui a bicicleta e venho buscá-la amanhã?". No fim a doidice compensou, regressei a pedalar e senti-me bem. This time...

publicado por Silvina às 17:22


O que se passa é que há duas semanas descobri que tinha uma metástase no cérebro. O que sempre foi o meu maior pânico, terror mesmo, materializou-se na realidade de umas imagens de uma TAC. Tão claras, que até eu consegui ver logo o pontinho branco no meu cérebro.

 

Depois a duvida: dado que fiz este exame fora do âmbito do ensaio clínico, será que devo abrir o jogo e ser sincera em relação ao resultado, mesmo correndo o risco (mínimo) de ser rejeitada do dito ensaio? Li a papelada toda, verifiquei na net, em lado nenhum estava marcado "metástase cerebral" como critério de exclusão. Resolvi dizer a verdade, porque é assim que eu sou. Não tenho feitio para grandes embrulhadas e mentiras a este nível. No dia em que ia começar o ensaio pedi para falar com um médico antes. Disse-lhe que tinha uma metástase de cerca de 1cm, sem sintomas. E fui imediatamente expulsa do ensaio. Sai de lá cheia de raiva. Cabrões dos investigadores, puta de metodologia, caralho mais para os laboratórios e as regras (pouco) estritas, que permitem que se jogue assim com a vida das pessoas. A velha de 70 anos com cancro do cólon e metástases no fígado deitada na cama ao meu lado foi aceite. Eu fui para casa de rabinho entre as pernas. A barafustar para dentro "porque que raio é que eu tenho que ser tão honesta?! Devia ter mentido."

 

O meu médico chéri estava de férias. Fiquei só, a ter que lidar com o meu maior medo, com uma rejeição deste tamanho, com a perspectiva de um tratamento de plano B que não me agradava nada, nadinha.

 

Estive quase a explodir. Como diz uma amiga minha, quase a dar o tilt. Fugi para Marrocos, para respirar. Resolvi esperar mais uma semana que o meu médico voltasse para poder decidir as coisas com calma. E ter tempo para aceitar.

 

Comecei ontem a quimio, mas ainda não aceitei. 

 

 

 

Estava um dia bonito, o sol aquecia-me as costas e eu caminhava pelos jardins do Hospital. "Ainda posso fugir. Ainda vou a tempo de fugir deste pesadelo...", pensei. Ao mesmo tempo ia caminhando para o café, pedi um café com leite e um donuts com chocolate (a minha ração de combate e ao mesmo tempo um ritual que forjei cada vez que estou num hospital e o momento é delicado). Cabisbaixa caminhei pelo parque outra vez, em direcção ao serviço de oncologia. Não fugi. Não sei porquê, mas não fugi.

publicado por Silvina às 16:17


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