As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

A recuperação é uma coisa lixada. Esgota-me a paciência, revira-me os olhos, provoca-me sensações de instabilidade mental. A recuperação em si é uma coisa boa. Significa andar para a frente, evoluir, voltar a ganhar o que se tinha antes; recuperar. Mas eu não vou ser quem antes era, pois há coisas (e partes do meu corpo) que perdi para sempre. Então luto para recuperar o quê? é um paradoxo na luta contra o cancro. A recuperação que faço agora serve para daqui a um mês dar mais dois passos atrás e voltar tudo ao mesmo durante as 33 sessões de radioterapia que ai vêm. O inchaço que está a desinchar vai voltar a inchar; a língua que se movimenta melhor vai voltar a ficar perra; a boca que dói menos vai voltar a doer e desta feita com aftas e claro, inchaço.

 

E por vezes não se vê o fim disto. Recuperar para depois voltar a estar pior, para depois, eventualmente, melhorar. Para uma pessoa como eu isto é frustrante. Não lido com falhanços nem com frustrações. Não lido (bem) com situações que exigem infinita paciência e resignação. Mas a verdade que salta à vista é esta: as coisas são assim. Com cancro é isto. Não posso mudar o ritmo das coisas. Não posso alterar estes processos. Ando a tentar fazer um esforço brutal para aceitar isto, que tudo tem um ritmo, e que tenho que resistir com relativo optimismo aos dois passos para trás e esperar, com pachorra, que dê um dia outro passo para a frente.

 

E tento todos os dias criar expectativas e trabalhar o meu zen. Tento todos os dias lembrar-me que a (minha) vida é assim, não tenho escolha. E não me ressentir das pessoas que têm escolha e que (aparentemente) têm vidas melhores do que a minha. Das pessoas que andam na rua com mandíbulas e com os seus próprios dentes, e com perónios, e com a perna intacta, sem buracos nem cicatrizes de 30cm. Trabalho o meu zen, o meu humanismo e a minha compaixão. Não posso deixar que eu própria me vitimize, quando sinto que ninguém compreende o que estou a passar, porque ninguém à minha volta passou efectivamente por isto. E parece contraditório, sentir-me vítima e não o querer ser; e passar-me quando pressinto que me tratam como tal.

 

Raio do cancro, que me deixa confusa, lerda, e mais desnorteada da cabeça do que nunca.

publicado por Silvina às 13:47


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