As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Domingo, 29 de Maio de 2011

São 3h30 da manhã, e eu devia estar a dormir mas em vez disso estou a escrever no meu blog sobre o cancro e a ler na net artigos sobre o cancro. E a propósito de uma nova campanha publicitária em França para mudar como a sociedade vê o doente com cancro, encontrei isto (sublinhados meus):

 

"Nous, comment nous voyons nous nous-mêmes ? Plus le cancer s’est incrusté dans nos vies –récidives, traitements au long cours, effets secondaires – plus il est difficile de ne pas faire corps avec lui. Et de nous penser à travers lui. Comment faire autrement quand il est un peu comme un chewing gum collé à nos semelles. Difficile de faire un pas sans en ressentir toute la présence poisseuse. Il entache tous les actes ou presque de nos vies et devient un réflexe qui s’impose à nous. Travailler, manger, sortir, etc… De quoi suis-je capable à cet instant ? Est-ce que je ne devrais pas éviter tel ou tel aliment,  telle sortie pour ménager mes forces ? Quant à faire de nouvelles rencontres… Comment vais-je me présenter, éviter le sujet ou non ? C’est un facteur hélas tellement identitaire.

Avec le temps, si les stigmates de la maladie s’effacent, si le risque de rechute s’éloigne, ce filtre s’efface peu à peu. Nous réendossons progressivement notre vraie identité, celle d’une personne libre de toute pathologie. Mais au cœur de la maladie, de sa chronicité, comment faire pour se souvenir que l’on est « une personne, pas un cancer » ? Cela demande un effort intense. Alors s’il est vrai que nous demandons ardemment aux autres de changer leur regard sur nous, il faut aussi que nous réussissions la prouesse de changer de regard sur nous-mêmes." (Anne-Laurence Fitère, neste site)

 

De facto é isto. Eu, que trabalho em Ciências Sociais sobre temas identitários, nunca tinha pensado no cancro como um factor identitário (um bocado de shame on me, confesso). Uma pessoa até pode entrar em remissão, mas estará para sempre marcada com esse ferro em brasa que é o passado, presente e futuro com uma doença crónica que é o cancro. O seu espectro nunca desaparece, mesmo num futuro saudável. Cada vez se torna mais difícil para mim estar com um grupo de amigos e não falar do cancro. Podia falar de cinema, de política, de futebol, mas é o cancro que predomina na minha vida neste momento. E isso não muda com a entrada em remissão. Fico possessa só de pensar que o cancro invade a minha vida desta forma, que rouba e transfigura a minha identidade, a minha aisance social. E calculo que isso deva perturbar muita gente à minha volta. E eu tento engolir os queixumes de cancro, tento não falar sobre isso, precisamente para negar ao cancro essa importância (porque ele gosta de estar em relevo). Mas é difícil, é como se o cancro fosse a balança através da qual tudo é medido. E é avassalador. Este mês devo ter gasto mais de 60€ em livros sobre o cancro, entre livros de receitas, de perguntas e respostas sobre o "depois do cancro", de estudos americanos de nutrição e ensaios clínicos. Sinto que se ler o máximo possível, se perceber o melhor possível como é que se vive com isto, vou ser capaz de dominar o medo e vou conseguir ver-me de novo como uma pessoa e não como um cancro com forma humana.

 

 

(Peço desculpa, este post esta um bocado afrancesado, mas talvez o Google translator safe quem pesque menos de Francês...)

publicado por Silvina às 02:33


mais sobre mim
pesquisar
 
Translation(s)
Últ. comentários
Desculpe mas percebeu mal: Tout va bien como uma e...
ainda bem que as coisas se resolveram e ela agora ...
Ja não. Tout va bien.
Ela ainda está em tratamento?
Faz por estes dias um ano que recebi um postal de ...
Tens-me feito tanta falta...beijinhos, muitos muit...
Radio Alertas




Partilhe a sua historia
Radio friendly Pub'


Kiva - loans that change lives

Estúdio Tatuagem Blood Oath Tattoos

Todas as palavras de Amor

Bau da Aurora artesanato

Mimos de Crochet


Creative Commons Licence