As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Quinta-feira, 01 de Setembro de 2011

As minhas estatísticas não são boas. Já há muito que o sei. Desde o inicio que o Lambard se recusou a dar-me previsões da tal probabilidade de sobrevivência a 5 anos. E eu também nunca insisti muito no tópico; Primeiro porque nunca gostei de estatísticas, sempre achei uma forma matemática forçada de organizar tudo dentro do mesmo saco, de estabelecer uma normalidade e uma "média" que sempre me irritaram, porque não gosto de ver o mundo assim. Gosto de pensar que não me encaixo nas estatísticas, que sou uma anomalia, que de qualquer maneira com cancros raros as estatísticas não servem de muito porque não existem toneladas de dados e de estudos clínicos para poder extrapolar conclusões válidas. Segundo, porque as estatísticas de certo modo toldam-me a esperança. Ouvir dizer que temos 20% de hipótese de sobreviver, e que esse número diminui em caso de recidiva e ainda mais em caso de metástase, não alegra ninguém.

 

Portanto, eu e os meus médicos não falamos de números. Falamos sim, da incerteza. "Se me perguntar se estará cá daqui a 6 meses, eu não sei. Se me perguntar se estará cá no Natal, eu também não sei." Foi isto que ele me disse quinta-feira. Não me pôs uma data de validade, género, "dou-lhe um ano de vida", disse simplesmente que a medicina convencional não me pode garantir nada, que não há forma de saber. O que tem a sua lógica, afinal, não conheço ninguém imortal e vamos todos morrer mais cedo ou mais tarde, e nunca ninguém sabe a data exacta. O meu problema é que perdi as ilusões que qualquer pessoa de 29 anos tem, ou seja, que vai chegar a velha e que nessa altura pensa na eventualidade da morte.

 

Eu tenho que pensar na morte agora. E na vida. Porque uma não existe sem a outra. Conheço algumas pessoas que acham que vivem mas no fundo estão já meias apagadas, porque as suas vidas não têm sumo, nem prazer, nem alegrias, nem grandes conexões humanas. Penso na morte, e em como prepará-la como deve de ser, mas também penso na vida. Eu, Silvina, gaja sem marido nem filhos, o que é que me estimula? O que é que me dá alento? Como é que justifico continuar a lutar mesmo com tanto sofrimento? O que me resta da vida, desta minha vida de agora? Pergunto isto de um ponto de vista existencialista (egocentrista, vá). Óbvio que posso lutar pela minha avó, pela minha irmã, pelos meus pais, pelos meus amigos. Mas o que é que me faz mesmo lutar por mim? São os meus valores? As minhas prioridades na vida? Os meus sonhos e objectivos? As coisas que ainda quero fazer? O contributo que ainda tenho para dar ao mundo? A esperança que um dia ainda vou viver uma história de amor verdadeira?

 

Intimamente sei que o caminho a seguir nestes próximos tempos passa pela auto-descoberta e pela aceitação. E, se calhar, é isso que me vai dar alento.

publicado por Silvina às 11:06

Não posso, de forma alguma, saber o que te vai na alma, saber do que falas, imaginar o sofrimento ou o grau de incerteza, ou o cansaço, não posso, mas posso dizer-te que, mesmo sem te conhecer, tenho muita vontade que venças as estatísticas, que não sejas um número, que faças a diferença e que encontres um ou vários motivos para o fazeres por ti. Porque a vida tem que te dar mais!
Sabemos que a vida não é justa, e que estas coisas acontecem aleatoriamente, mas vamos acreditar que há esperança, que há milagres, e que tudo se vai resolver. E porque não acreditar em tudo o que escreveste? Filhos, marido, um contributo para o mundo? É possível. Não sabemos o que te espera, e que se lixem os números, ainda não acabou, pois não? Então tudo pode acontecer! Força! Beijinhos
margarida a 1 de Setembro de 2011 às 11:56

Olá Margarida, obrigada pelo teu comentário. Acho que para vencer as estatísticas tenho mesmo que fazer uma grande viagem de auto-descoberta . Para poder acreditar, e saber mesmo no fundo, que tudo pode acontecer. Obrigada pela força, um grande beijinho*
Silvina a 8 de Setembro de 2011 às 11:41

Olha Silvina, um dia nasceste e ganhaste o direito a viver, ganhaste o direito à Vida.Uma vida com ou sem filhos, com muitos ou poucos feitos. É teu, é nosso, o direito à alegria, ao prazer, ao amor incondicional, às gargalhadas (sarcásticas), às esplanadas com vistas para o Tejo, às viagens, à musica, aos livros, às noites bem dormidas e tudo mais...............Por isso, tens de lutar pela tua vida pois é ela o significado e o teu objectivo em si mesma. Porque é um direito que te assiste.Por isso, tens de lutar contra tudo o que não contribui para o teu Caminho. Fora com as dores, com a mágoa, fora com as lágrimas e medos. Fazer o que estiver ao teu alcance para acabares com o cancro, é o que deves fazer para viveres uma vida a que tens direito.
Patrícia Aurora a 1 de Setembro de 2011 às 18:13

Sabes que gosto muito dessas esplanadas com vista para o Tejo... la dolce vita ... Temos que repetir!
Gostei desse despojamento de "fora com tudo", que é mesmo por ai: tenho que desbravar as emoções, parar de ter medo, sentir tudo em profundidade e reivindicar esse direito essencial de que falas... Um grande beijinho com saudades*
Silvina a 8 de Setembro de 2011 às 11:44

Não sei o que dizer, mas fica sabendo que és uma pessoa exemplar e deveriamos todos ter os olhos postos em ti! Penso várias vezes em ti, mesmo não te conhecendo (pessoalmente), mas deves ser daquelas pessoas que todos gostariamos de ter como amiga!
Não percas a esperança que ainda terás muitos momentos de felicidade e continua a lutar! Não desistas, pelo que percebi à 5 anos que andas nessa vida... e aí estás tu, a lutar! Ninguém está livre da morte, ela vem... mas enquanto cá estamos, tentemos ser felizes e dar felicidade!
Tudo de bom e muita força! SÊ TU PRÓPIA! Não mudes!
Monóloga a 1 de Setembro de 2011 às 23:09

Olá Monóloga, obrigada por mesmo não sabendo o que dizer, teres comentado e me teres escrito estas palavras de coragem! Obrigada pela força, pelo apoio, pelos pensamentos positivos. Um beijinho*
Silvina a 8 de Setembro de 2011 às 11:46

:) Foi de coração.
Um beijinho!
Monóloga a 8 de Setembro de 2011 às 19:01

Não sei bem o que dizer, nem sei se queres que digamos algo. Acho que o comentário da Aurora resume bem porque é que tens e deves lutar. Acho também que o sabes, pois lutado é que tens feito, e muito, desde que adoeceste.

Mais uma coisinha, tenho a certeza que vais superar isto. És uma força da natureza, cheia de determinação. Continua a acreditar.

Vai dando notícias. Gostava muito de te conhecer pessoalmente.

Beijinhos
susana neves a 2 de Setembro de 2011 às 11:03

Olá Susanita, eu gosto sempre que me digam algo! ;) Continuo com força, e agora a tentar direccionar esta coragem para outros voos... Depois explico melhor. Estou outra vez "na" França para mais uma ronda de tratamentos, mas quando puder voltar a Portugal vamos marcar esse encontro! E também te posso trazer "sucre en poudre, sucre en morceaux, langues de chat, Nescafe decafeine" comme la voisine ! ;)
Um grande beijinho*
Silvina a 8 de Setembro de 2011 às 11:51



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