As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Sábado, 04 de Fevereiro de 2012

 

 

Hoje saí de casa e entrei no prédio ao lado, onde fica o gabinete das enfermeiras. Tenho que lá ir todos os dias mudar o penso. A enfermeira que lá estava hoje já me conhece há mais de um ano, e falamos sempre um bocadinho. Hoje perguntou-me como é que eu ia fazer a nível profissional quando o meu contrato acabasse. Disse-lhe que ia procurar outro. E ela insistiu: "Pois, mas na sua situação, e com o seu historial, ninguém a vai contratar. As empresas não querem saber dessas fragilidades, se tiver que faltar para ir fazer exames ou consultas, rapidamente eles arranjam outra pessoa no seu lugar... Não estão para isso." E é bem verdade.

 

Também nunca poderei justificar a nível universitário o meu atraso. A não ser que apresente, para além do meu CV profissional, o meu CV de cancro, para verem bem que andei ocupada estes últimos tempos.

 

Disse à enfermeira que achava tão estranho as pessoas não quererem saber das experiências dos outros. Que para muita gente basta-lhes saber que tenho cancro sem precisarem de mais pormenores. E mesmo quando eu não me importo de contar, eles não querem ouvir. As histórias de sofrimento prolongado não têm sex appeal. Um terramoto que mata milhares é muito mais giro.

 

Cancro, que é ALEATÓRIO, não escolhe idade nem sexo nem raça, PODE ACONTECER-TE A TI. E nesse dia vais querer saber como é que se faz, como é que se vive com isto, como é que se combatem as batalhas.

 

Acho que ainda há muito a fazer para que a sociedade se interesse pelas vivências interiores de um doente oncológico. Noutro dia lembrei-me que durante muito, muito tempo também não se falava nos livros de História das vivências dos soldados na guerra. As coisas eram sempre apresentadas do ponto de vista da Nação, de um governo, de um general. Sabem quando é que isto mudou? (eu sei, porque uma vez assisti a uma conferência sobre isso) Depois da Primeira Guerra Mundial, quando o tormento que os soldados passaram nas trincheiras não conseguia deixar ninguém indiferente. E a História Militar mudou para sempre. A partir daí a sociedade passou a olhar para a guerra de outra maneira.

 

Então porque é que o tormento de ter cancro não tem o mesmo efeito???

[asseguro-vos que isto me incomoda à séria, fico possessa.]

 

 

Dias como hoje são importantes porque permitem parar para pensar. O que é que eu posso fazer para alterar esta situação? Sozinha não posso mudar o mundo (apesar de o desejar desde a adolescência), mas posso:

 

1. Continuar a escrever no blog;

2. Falar com as pessoas à minha volta e ser honesta sobre o que é ter cancro, o que sinto, sobre os dias tristes, sobre o medo, etc., etc.;

3. Alertá-las para a importância da PREVENÇÃO: comer mais legumes, menos carne vermelha e zero comidas processadas (sim, as lasanhas congeladas entram nesta categoria), fazer desporto (nem que seja o básico, andar a pé um bocadinho todos os dias). Mais importante do que isso:

 

DEIXAR DE FUMAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 

 

No Dia Mundial de Luta Contra o Cancro 2012 é este o meu apelo:

 

 

Não procrastinem. Não deixem para amanhã. A vossa saúde é importante. Vocês são importantes.

 

 

 

 

http://www.worldcancerday.org/

 


Tenho seguido o blog e esta luta em silêncio. Muitas vezes não sei o que dizer e não me apetece ser mais uma apenas a desejar força. Então fico aqui de lágrima no olho à espera de mais um texto, de mais uma vitória, de mais um deslize. Fico aqui com o coração a latejar porque me tocam sempre testemunhos como o da Silvina.

Mas hoje comento, deixo escrito aquilo que me tem ficado cá dentro desde que comecei a seguir o blog, desde que li tudo o que estava para trás: é uma de muitas heroínas que luta pela vida como muita gente não sabe o que é lutar. E embora não a conhecendo penso em si com admiração. Como tenho todas as pessoas que passam por isso. Perdi um amigo para essa doença nojenta e não desejo perder mais ninguém. Vamos continuar a rosnar ao gajo!

Um beijinho e desculpe a atrapalhação do texto...
Ana a 4 de Fevereiro de 2012 às 20:33

Ana, obrigada pela visita e pelo teu comentário. Vamos rosnar juntas e um dia fazer voluntariado! ;)
Um beijinho*
Silvina a 7 de Fevereiro de 2012 às 01:13

Muito obrigada Silvina, muito obrigada por esta preciosa partilha.
Mariah a 5 de Fevereiro de 2012 às 01:08

De nada Mariah :)
Um beijinho*
Silvina a 7 de Fevereiro de 2012 às 01:14

Continua a contar a tua experiência. Todos aqueles que te lêem voltam porque querem saber.Posso não saber o que sentes, porque nunca estive desse lado, mas acredita que quero saber -e e se não tivéssemos a capacidade de empatia, não éramos bem humanos. E os potenciais empregadores, se tiverem, além de 2 dedos de testa, qualquer coisa a bater no peito também hão-de querer saber, e perceberão que o teu currículo com o cancro te deu uma preparação para lidar com as adversidades que nenhuma universidade ensina.
Eu a 5 de Fevereiro de 2012 às 12:47

Eu, espero que tenhas razão quanto aos potenciais empregadores... E obrigada por quereres saber, e por o demonstrares sempre que deixas um comentário aqui nos Episódios.
Um beijinho* e um abraço
:)
Silvina a 7 de Fevereiro de 2012 às 01:16



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Desculpe mas percebeu mal: Tout va bien como uma e...
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Faz por estes dias um ano que recebi um postal de ...
Tens-me feito tanta falta...beijinhos, muitos muit...
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