As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Ultimamente tenho andado meia chateada e revoltada, com as sensações de incompreensão e solidão do costume. Não estou infeliz, nem deprimida, continuo a sair à rua apesar dos -3° de temperaturas máximas, e esta semana até trabalhei um bocadinho, o que fez sentir ligeiramente orgulhosa de mim própria. Escrevi postais aos amigos, fui às compras, limpei a casa, e comprei um bilhete de avião para Veneza. Até foi uma boa semana. Então porque é que continuo a ter sentimentos destes, de distâncias, de descrença, de insegurança?

 

Irrita-me cada vez que leio testemunhos de sobreviventes de cancro que só falam do apoio incondicional da família e dos amigos, do amor que sentem à sua volta, do amor que eles próprios lhes dedicam, da felicidade que é viver um dia de cada vez. Eu devo ser uma criatura rara e disfuncional, porque a mim o amor custa-me a sair, não acredito na felicidade como os outros a pintam. O clássico casar e ter filhos and live happily ever after não me atrai, e nunca pensei que me calharia na rifa. São coisas com as quais não consigo lidar. Não gosto de me chegar perto, não me dou suficientemente aos outros, sou muitas vezes um bloco de gelo que não gosta de contacto físico lamechas. Claro que a Psicologia explica bem isto, traumas de infância, mecanismo de protecção, etc., etc., eu sei isso tudo, já percebi. O que me irrita é a ditadura do positivismo e da importância dos outros no processo de luta e de sobrevivência ao cancro; Como se fosse possível pensar positivo todos os dias. Não é. Como se fosse possível não ter momentos down, de duvidas, de um medo atroz que nos serra a garganta e as tripas, e que a mim me traz insónias. Parece também que sou obrigada a aceitar os outros como eles são, a aceitar todas as manifestações de carinho, mesmo que acompanhadas de um lado negro que por vezes é muito mais prejudicial do que o suposto carinho que me dão. Eu não sou uma boneca de porcelana! Sou uma boneca de trapos, com personalidade, com pensamento próprio, com sentimentos, com uma forte dose de auto-confiança, autonomia e independência! Como se me fosse acontecer uma desgraça, como se chamasse a mim as trevas de uma morte lenta e sofrida de cancro, porque não soube aceitar o amor que me dão. Como se todo o amor fosse bom, ou melhor, como se todos os sentimentos confundidos com amor fossem bons para a alma. E como se isso, por si só, curasse o cancro...

 

Recuso-me a viver nessa ditadura do devias, podias, tens de. Merda para isso tudo! Eu sei que não posso controlar tudo na minha vida, infelizmente aprendi isso desde o momento do meu diagnostico em 2009. Mas há coisas que eu posso controlar. Que eu devo controlar. Porque é que não me deixam? Porque é que sou tão mal vista e tão mal aceite se escolho fazer as coisas à minha maneira? Porque é que ainda continuam a achar que eu não o devia fazer, que não tenho esse direito? Gostava de saber se diriam o mesmo a uma pessoa adulta saudável -se lhe diriam que ela não tem o direito de fazer escolhas que dizem respeito à sua própria vida!

 

Com uma certa dose de arrogância e auto-estima, reivindico o direito às minhas decisões! E estou certa que eu, mais do que ninguém (incluindo o meu querido Dr Lambard), sei o que é melhor para mim. Não percebo porque é que isto é tão difícil de entender... A argumentos como "estás a pôr em risco a tua vida", eu respondo: "não sou eu, o cancro é que está a pôr em risco a minha vida". E se a pessoas que me dizem estas coisas tivessem um bocadinho de noção e olhassem para as suas próprias vidas veriam como também estão a pôr as suas vidas em risco com o facto de fumarem, beberem demais, terem excesso de peso e não fazerem exercício físico.

 

Ao ter decidido não colocar a sonda naso-gástrica, não remover o gânglio do mediastino, não tentar protocolos experimentais por enquanto, eu não estou a pôr em risco a minha vida. Estou pura e simplesmente a viver. A fazer o meu melhor com a merda de contexto e de circunstâncias que me foram dadas aos 27 anos. And I'm doing a damn good job!

 

publicado por Silvina às 22:55

Fui uma das sortudas que recebeu um postal. Nem sabes o bem que me fez.

Muitos beijinhos

PS
Os blocos de gelo não mandam postais. Muito menos a quem nunca "viram mais gordo"
Susana Neves a 11 de Fevereiro de 2012 às 00:08

Senti que estavas a precisar de um mimo! (este gelo às vezes derrete um bocadinho... eheheh)
Um grande beijinho*
Silvina a 12 de Fevereiro de 2012 às 17:22

Que bom que há alguém como tu com a honestidade de pensar e dizer tudo isto! Acredito que haja quem acredite nessas tretas todas do positivismo mas muitos mais mentem a si próprios. Espero que, cada vez mais, vás estando rodeada de quem te respeita e aprecia como és :)
gralha a 11 de Fevereiro de 2012 às 08:19

Obrigada gralha, é isso mesmo.
Um beijinho*
P.S.-gosto do teu blog!
Silvina a 12 de Fevereiro de 2012 às 17:31

Olá Silvina
Acredito que as pessoas que vêm dizer que são as pessoas mais felizes do mundo, que têm o melhor marido, os melhores filhos, os melhores pais do mundo, adoram o seu emprego...e etc, aquelas tretas.... estão a exagerar, e muitas estão a mentir. Não gostam de publicitar que estão infelizes, só a felecidade fica bem na foto. As pessoas crédulas como eu era, acabam por sofrer porque nunca conseguem chegar à feliciddae que os outros dizem ter.
As tuas escolhas, relativas à doença têm em conta o parecer dos médicos que tu confias.... Foram as tuas escolhas por isso não sofras com a opinião dos outros, que não compreendem.
Falar é fácil, mas as atittudes e opiniões dos outros também me deitam abaixo muitas vezes.
Beijinhos
Heidi
http.www.ilusaodoparaiso.com



Be
Anónimo a 11 de Fevereiro de 2012 às 12:42

Olá Heidi,
Tens razão, mas eu também acho que lá no meio de tanta gente que diz que é feliz e que a sua vida é sempre cheia de momentos felizes deve haver alguns que realmente o são... Faz-me espécie é que se queira encaixar toda a gente nesse molde. Cada um devia ser feliz à sua maneira (grande cliché, eu sei...). Não há receitas universais que funcionem para todos.
Um beijinho*
Silvina a 12 de Fevereiro de 2012 às 17:36

Ai... Também queria um postal teu! Pronto, já disse. Beijos
P.S. Essa malta que venha para cá insinuar-se, que eu também arranjo verborreia para juntar à tua... LOL
Margarida Faro a 11 de Fevereiro de 2012 às 16:39

é fácil, manda-me a tua morada para o meu mail! :PP
Um beijinho*
Silvina a 12 de Fevereiro de 2012 às 17:36

Silvina como comentar um post que poderiam facilmente ser minha palavras...
Sinto como tu, também não sou dada a carinhos, também sou muito reservada e tenho minha personalidade forte...assim como vc recebo vários consolos, com seu lado negro como "vc tem o Gabriel"...sou mesmo feliz em ter meu filho, mas não diminui a perda dos outros dois..

Enfim não vim pra falar de mim, mas sim pra dizer que vá a merda com tudo isso, viva a sua maneira com o que te faz sentir melhor...e nas horas em que sentir vontade, chore grite, parece que precisamos pedir licença pra chorar...

Também me que questionei várias vezes, se era pelo meu jeito, que a vida me trouxe tanto sofrimento...a única resposta que tenho é que essa vida é mesmo injusta...

Estou contigo sempre!bjo com carinho
juliana a 11 de Fevereiro de 2012 às 17:39

Também me questionei muito se era pelo meu feitio... Ainda estou a aprender a achar que não. Mas está difícil de meter isso na cabeça de uma vez!
Um grande beijinho* e obrigada por estares ai (aqui) comigo.
Silvina a 12 de Fevereiro de 2012 às 17:38

Silvina, este teu post dava pano para mangas se o fossemos debater. Gostava mesmo de te conhecer. Pessoalmente. Eu e muito mais gente que aqui vem, certamente.
Gosto da tua frieza e tenacidade e se até meio do post , estava-me a fazer comichão certas coisas, a partir de determinada frase percebi perfeitamente o que querias dizer.
Isto do Amor é muito bonito mas como tudo na vida, o contexto é um factor determinante.
Há Amor e Amor.
E há um tipo de amor que em determinadas circunstâncias não é amor. Quem o sente pensa que é amor mas quem recebe os efeitos desse amor, não o vê como tal. É que o meu "amor" por alguém pode ser um amor que é bom e seguro mas para mim mas não para a outra pessoa. É um Amor egoísta. É um amor que sai do meu umbigo. Que parecendo querer o melhor para a outra pessoa, estou é a querer o melhor e mais seguro para mim. E sabes que não é fácil admitir esta realidade. Dificilmente vão aceitar que estão a ser egoístas.
Resumindo: para dar o Amor que a pessoa precisa posso ter de apoiar e aceitar decisões e actos que me fazem sofrer.
Se deres o teu post a ler às pessoas que estás a visar, possivelmente a maioria não vai "querer" enxergar a tua mensagem e vão dizer que tu é que estás a deturpar e não estás a ver as coisas com a devida clareza.
Somos assim.
E mulher, tu não és um bloco de gelo! Não te conheço mas reconheço-te.
:)



Soneca a 11 de Fevereiro de 2012 às 18:23

Soneca, percebeste tudo. Até meio do post apercebi-me enquanto o estava a escrever que também a mim me estavam a fazer comichão certas coisas que estava a dizer, e percebi que tinha que explicar melhor. O teu comentário poderia muito bem ser uma continuação do meu post! ;)
Um grande beijinho* e as melhoras para essa perna!
Silvina a 12 de Fevereiro de 2012 às 17:46

Obrigada Silvina!
Ah, deixei um miminho de reconhecimento do teu blogue no meu.
Continua a partilhar as tuas experiências!
Beijinho.
Soneca a 17 de Fevereiro de 2012 às 18:34

"Para dar o Amor que a pessoa precisa posso ter de apoiar e aceitar decisões e actos que me fazem sofrer", do comentário da Soneca.
Acho que está tudo aqui... Ainda que às vezes seja tão difícil estar lá e apoiar independentemente do contexto e das decisões do outro, quem Ama a sério acaba por encontrar a força necessária e o melhor modo de o fazer.
E tenho a certeza, Silvina, que no meio de toda essa gente há quem te Ame a sério. É nesses que te deves concentrar!
*ah e na viagem a Veneza, porque aposto que vais voltar com energias renovadas!
Ana a 11 de Fevereiro de 2012 às 20:09

O objectivo das mini-férias é esse mesmo! Quero apanhar ar, mesmo que esteja um frio de rachar e que me arrisque a ver os canais todos congelados! ;)
Um beijinho*
Silvina a 12 de Fevereiro de 2012 às 17:49

Por isso é que eu gostei tanto do filme 50/50. Dá-nos a perspectiva de um doente de cancro que tem que lidar com os "outros" e com o impacto que a sua própria doença e vida tem nas vidas dos que o rodeiam. Tem que lidar com os dramas e bitates alheios, quando deveria estar concentrado em aprender a gerir as coisas à sua maneira.
Eu não sei como é que é com os outros, mas tenho a certeza absoluta que não há caminhos absolutos para lidar com os obstáculos que surgem nas nossas vidas. Cada pessoa tem as suas próprias armas, o seu próprio descernimento. Eu sei que detestaria paternalismos e excesso de drama, mas provavelmente haverá quem deles precise.
TU VAIS A VENEZA? É a minha cidade de eleição e isso sim, é um caminho que tens mesmo que percorrer ;)
Ana C a 11 de Fevereiro de 2012 às 22:56

VOU! Foi um impulso de ultima hora, um dia lembrei-me que seria bom ter uns diazinhos de férias, que já merecia, passado 1h comprei a viagem... :) Adoro percorrer caminhos que envolvam pizzas e pasta! eheheh
Um beijinho*
Silvina a 12 de Fevereiro de 2012 às 17:51

Voltei, Silvina. Para te dizer que, de tempos a tempos, há alguém que escreve um texto que eu gostaria de ter escrito. Este teu texto é um desses casos. Vou levá-lo lá para o "Mamas à Lupa", ok? - com a justa identificação da sua autora, obviamente. Mas se não autorizares (olha a minha lata!) diz, que eu retiro-o!
Beijão, miudinha linda.

*___*
Margarida Faro a 12 de Fevereiro de 2012 às 00:02

Claro que autorizo, mas só porque és tu! ;)
Um grande beijinho*
Silvina a 12 de Fevereiro de 2012 às 17:52

Já te li, já quis comentar, mas não sabia bem como dizer o que queria. Deixa ver se agora consigo.
Comparo de algum modo aquilo de que te queixas (apesar de serem situações completamente diferentes) com os palpites que qualquer grávida ou recém-mãe recebe de toda a gente, com a melhor das intenções, claro está - mas dando-nos cabo da pouca paciência com que andamos, por causa das hormonas malucas, das noites mal dormidas, do choro para o qual não encontramos razões, as imensas incertezas que temos diante de um bebé que representa um mundo ainda desconhecido. Todos sabem melhor do que nós o que devemos fazer. Mas somos nós que temos de fazer, as decisões são nossas tal como as consequências delas, com que teremos de arcar. Temos o direito de escolher, de errar nas nossas escolhas, de seguir o nosso instinto - e de, como eu fiz, escolher um bom pediatra para a minha filha e seguir apenas os conselhos dele e de mais ninguém.

Tu tens exactamente esse direito, de seres tu a traçar o teu caminho, e amar-te, como já foi aqui muito bem dito, passa também por respeitar as tuas escolhas, que obviamente não são feitas de ânimo leve nem por capricho. É a tua vida. És tu, infelizmente, quem tem o cancro e tem de viver com essa espada de Dâmocles sobre a tua cabeça a cada dia. Por tudo o que contas, as tuas opções não têm sido más, acho que tens feito, de facto, "a damn good job"!

Por isso, se posso meter eu a minha colherada, toca a seguir para a frente, com inseguranças, pois claro, como não as hás-de ter, ou momentos de desânimo, se com muito menores razões todos os temos? E vai a Veneza e deslumbra-te, e mesmo com frio visita S. Marcos e o palácio dos Doges e perde-te nas ruelas dessa cidade de sonho e suspira de felicidade por haver lugares assim e tu estares lá :)
Zu a 12 de Fevereiro de 2012 às 23:41

Epa isso é que foi comentar com fôlego! :)
Sendo realidades completamente distintas, também eu já tinha dado por mim a comparar gravidez com cancro, nessa mesma perspectiva da tomada de decisões e no que os outros julgam que devemos fazer (e nos julgam se não fizermos como eles acham que fariam)... Obrigada pelas tuas palavras lúcidas. E sim, segui o teu conselho, visitei S. Marcos e o palácio dos Doges (numa visita chamada Itineraires secrets, até vi as prisões e escadarias escondidas em armários) e sobretudo, andei mesmo muito perdida pelas ruas a explorar! :))
Um grande beijinho*
Silvina a 23 de Fevereiro de 2012 às 00:06



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