As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Sexta-feira, 24 de Fevereiro de 2012

 

 

Tenho andado enervada esta semana. Enervei-me na sala de espera, com os técnicos, até com o Lambard. Enervei-me com os atrasos, com o aperto da máscara, com o facto de estar ali deitada, outra vez, naquela marquesa, pela 5a vez. Ontem sai de lá sem conseguir conter as lágrimas dos nervos, e só o pedalar na bicicleta como se não houvesse amanhã me conseguiu acalmar um pouco. Cheguei a casa já arrependida de me ter enervado com o pessoal (apesar de um dos técnicos ter cometido um erro crasso comigo: interromper-me e dizer-me para eu ficar calma, em vez de me ouvir; quanto mais me ordenam para ficar calma, mais eu fico possuída).

 

Não estou a conseguir pôr-me num right frame of mind para esta radio. Nem sei bem como explicar isto a quem nunca fez radio. é um tratamento que não se vê, não se cheira, não se sente. São protões e electrões, que penetram a pele e restantes tecidos mas os raios em si são completamente invisíveis. Sentem-se, mais tarde, os efeitos secundários chatos, as sequelas que ficam e, se tudo correr bem, ficam também os resultados positivos. Acredito que o corpo, a mente, basicamente a pessoa inteira, tem de aceitar a radiação; tem que estar disposta a recebê-la, tem que de forma um bocado new-age entranhá-la. Não li nenhum artigo cientifico sobre isto, mas pela minha experiência, as coisas correm melhor quando são plenamente aceites. E não tenho conseguido aceitar. Este fim de semana vai ser dedicado a respirar fundo e parar de tentar fugir da minha condição. Travar o medo e ocupar o espírito com algo que é extremamente complicado para mim fazer: confiar. Confiar que esta radio vai funcionar, sem "E se?" Confiar na mestria do Lambard, que está a dar o seu melhor e eu sei disso (e o melhor do Lambard é extremamente bom...). Confiar que algures num dos meus futuros possíveis há aquele sem mais recidivas. E tentar ser eu própria no meio disto tudo. Não me perder nas minhas duvidas e inseguranças, confiar em mim, nos meus instintos, na minha ambição e nos meus objectivos. Tenho que acreditar que tudo é possível, vestir a armadura de Jeanne d'Arc de Lisboa, Tomb Raider ou Robocop, whatever, mas vesti-la, e não baixar os braços nunca. Mesmo quando o caminho não me faz feliz, mesmo quando a estrada me destrói aos poucos, tenho que conseguir acreditar que ainda virá algo de bom na minha vida, dê lá por onde der.

 

Não sou pessoa de crenças religiosas, não acredito em Deus nem em outros deuses. Se acreditasse esta confiança chamar-se-ia fé; Mas no fundo não interessa nada -a rose by any other name-; em alturas completamente desesperadas, onde estamos completamente à mercê do destino, se não se acreditar é o fim. Acredito nos meus princípios, nos meus valores, acredito em certos traços do meu carácter que sei apreciar, acredito na vida e no sentido das coisas, acredito no poder da Natureza e no Ying e Yang do mundo. Acredito na dor, no sofrimento, na fome e na sede, acredito na lealdade, na liberdade e em ser inteira. Acredito na sensibilidade, na beleza das coisas, na Arte, na música, no sol quando ele me aquece a cara, na poesia e no poder da palavra escrita. Acredito na potencialidade das lágrimas e gostaria de um dia acreditar sem barreiras de segurança no poder do amor e da amizade. Acredito na força interior, na bravura, na coragem. Estou a começar a acreditar que ser frágil e forte ao mesmo tempo não é disparatado nem forçosamente contraditório. E se estas crenças todas não me permitirem arcar com mais esta radioterapia, então não sei o que o que permitirá.

publicado por Silvina às 22:42

Acredito que nos momentos em que somos colocadas "a prova" é que conhecemos nossa fé!Potencializamos nossas crenças, aumentamos nossa força, nos deparamos com um medo, muitas das vezes, irracional, nos sentimos perdidas...
Emoções contraditórias, somatórias, revelando o nosso ser, em seu estado mais natural...

Em uma noite difícil, lendo seu relato, fica uma enorme vontade de te abraçar, de juntas podermos conhecer e vencer a barreira da verdadeira amizade.Fica aqui o meu desejo, força, estou sempre contigo, bjo grande.
juliana a 25 de Fevereiro de 2012 às 01:54

Gosto sempre muito de ler e sentir a sinceridade das tuas palavras Juliana.
Um grande abraço e um beijinho*
Silvina a 4 de Março de 2012 às 22:33

Eu já tinha entrado no caminho da espiritualidade antes de ter cancro. Por isso, quando fui confrontada com a doença e depois de 1 semana, em que não conseguia pensar em nada, uma noite pedi à minha alma que falasse com o meu coração durante o sono. De manhã a palavra que me veio à cabeça foi aceitar.A aceitação é que me deu forças para ir vivendo o dia a dia. E quando entrava na sala de radioterapia e a porta se fechava, ficava em modo zen porque, depois de algum treino, aprendi a desligar a actividade do cérebro e ser só alma, desligando-me do corpo. Isto tudo, a ti deve parecer-te um perfeito disparate. Mas tenho pena que não tenhas fé porque as coisas tornam-se mais fáceis.Tens tudo dentro de ti,o amor, a amizade, os bons valores, mas o medo que tens de vivenciar as coisas tolhe-te.
Deixa fluir as coisas, o que tu transmitires para fora de ti é o que terás em retorno. Eu sou uma pessoa feliz, mas nem sempre fui assim. Se me autorizares indico-te um livro para leres, para ver se para ti tem algum sentido a ideia de que somos apenas seres espirituais que estamos a vivenciar uma experiência terrena.
beijinhos.

lu a 25 de Fevereiro de 2012 às 10:53

Olá Lu, obrigada pelo teu comentário. Eu também acho que aceitar é muito importante. Não no sentido da submissão, mas no sentido de não remar contra a maré. Ando aos poucos a aceitar que a minha vida é esta; não vai voltar a ser como dantes; vou sempre ter cancro presente na minha cabeça, no meu corpo, nos meus medos. Mas isso não tem que ser forçosamente mau. Ando a aproveitar para descobrir outras coisas que gosto de fazer, para viver com mais garra do que vivia antes, e ando a tentar deixar fluir as coisas, como dizes. Isso sim, é muito importante. So que tudo leva tempo, e comigo estas realizações têm surgido muito devagarinho... ;)
Um beijinho*
Silvina a 4 de Março de 2012 às 22:38

ainda bem que disseste qualquer coisa. Sei que andas cansada, mas quando ficas uns dias sem vir ao estaminé, sinto a tua falta.Beijinhos e que tudo continue a correr bem.
lu a 5 de Março de 2012 às 19:36

Está tudo a correr bem, mas sim, tenho andado cansada...
Um grande beijinho* (e obrigada por sentires a minha falta!) :))
Silvina a 5 de Março de 2012 às 22:03

Eu também sinto muito a falta de uma crença, de uma fé qualquer que me ajude nos momentos em que a razão não chega. Mas mesmo aqueles que têm fé, vacilam em momentos tremendos, como os teus e não têm a tua capacidade de análise, de exteriorizares aquilo que sentes.
Tens um dom especial que liga a mão com que escreves, ao teu interior e isso, de alguma forma, deve ajudar-te a ordenares os teus anseios.
Tenho uma admiração estúpida por ti e adorei cada um dos posts que escreveste, desde que chegaste de Veneza.
Não consigo enviar-te um mail, pois quando carrego no link, o meu computador pré-histórico bloqueia. Achas que dá para me enviares um mail com o teu mail? :) Pedido cretino, eu sei, mas tenho o endereço lá no blog.
Ana C a 25 de Fevereiro de 2012 às 20:10

Obrigada Ana C., pelas palavras bonitas e lamechas sobre a minha pessoa ;) E também por me lembrares que mesmo aqueles cheios de certezas vacilam em momentos muito duros. Olha, ainda não respondi ao mail, é um dos meus defeitos, sou uma lerda a responder a mails e mesmo quando tenho tempo exerço a arte do procrastinanço e depois dà nisto... Sorry!
Um beijinho*
Silvina a 4 de Março de 2012 às 22:42

Venho só mandar-te um abraço apertado, ainda que assim à distância!
Eu acredito que tenhas momentos de dúvida ou desespero, mas também acredito que tens a capacidade de te "re-centrar". É este movimento que se sente ao ler o teu post e é tão forte que se sente até na tua escrita - ACREDITA!
Ana a 25 de Fevereiro de 2012 às 21:44

Obrigada pelas palavras animadoras Ana! Um grande beijinho*
Silvina a 4 de Março de 2012 às 22:43

Querida Silvina, parece-me perfeitamente normal que estejas farta, que tenhas uma sensação de "déjà vu" que, ainda por cima, é de "déjà vécu" um tratamento desagradável e com efeitos secundários. Já sabes ao que vais bem demais, já acreditaste várias vezes - é natural que uma parte de ti esteja descrente e encare tudo isto como mais uma tortura do que como o que te vai levar, finalmente, à cura. Mas vais ver que as tuas forças vão regressar e que será o teu lado mais optimista e crente (seja lá no que for - sobretudo em ti e no teu futuro SEM cancro) que vai prevalecer.Tenho a certeza disso. E deste lado de cá, estarei (como todos os outros que te lêem) a torcer por ti, e a enviar-te toda a força do mundo, toda a energia positiva. Beijo grande (cheio de inveja pelas fotos de Veneza, onde tanto gostava de voltar).
Zu a 26 de Fevereiro de 2012 às 22:25

Zu, acertaste na mouche, tenho grandes lutas interiores com a "sensação de "déjà vu" que, ainda por cima, é de "déjà vécu", como bem disseste. Com cada novo ciclo de radio há uma perda da inocência, de certo modo. Aquela inocência que me permite ter dias despreocupados, dormir bem, sem insónias. Cada novo tratamento é bom, no sentido que ainda pode ser feito, logo, pode funcionar; mas é mau, porque foi algo que eu já fiz 5 vezes no passado e que não resultou antes...
Um grande beijinho e obrigada pela força*
Silvina a 4 de Março de 2012 às 22:50

Não sei como é com as outras pessoas mas, para mim, quer se acredite em Deus (como eu), no karma, ou em nós próprios, isso da fé é uma coisa muito frágil e volúvel. Uns dias aguenta o barco e noutros escapa-se por entre os dedos. É preciso querer crer com muita força. E isso deve ser muito difícil durante um sofrimento injusto (e é sempre injusto!) e prolongado, como o teu. O que é sem dúvida espantoso é como vais crescendo ao longo deste percurso que não escolheste - e agora que já li o blogue de fio a pavio vejo isso claramente. Tens mesmo uma força fora de série.
gralha a 27 de Fevereiro de 2012 às 15:14

Gralha, leste os episódios de fio a pavio? Espero que não tenha sido demasiado deprimente! ;)
Também senti um grande crescimento interior, quando vejo os posts iniciais deste blog vejo como era ainda uma menina tão inocente...
Um grande beijinho*
Silvina a 4 de Março de 2012 às 22:52

O turbilhão de emoções faz parte, umas vezes forte outras mais fragil e isso é também o processo de resposta, de combate, de aceitar e de recarregar novas forças para continuar a acreditar. Um abraço forte e carregado da toda a minha energia
Beijo grande
SB
Anónimo a 27 de Fevereiro de 2012 às 18:07

Obrigada SB, um grande beijinho com saudades*
Silvina a 4 de Março de 2012 às 22:53

Podia desejar-te muita força, mas acho que não é preciso. Parece que as tuas palavras demonstram isso mesmo - tens imensa força dentro de ti, imensa fé em ti, e na tua capacidade de superar a doença. Continua assim!
Eu a 27 de Fevereiro de 2012 às 21:37

Obrigada querida Eu, tens sempre uma palavra de apoio, é bom saber-te ai desse lado.
Um beijinho*
Silvina a 4 de Março de 2012 às 22:54



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