As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Domingo, 25 de Março de 2012

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Há uns tempos comecei a ler Tristano Morre, do Antonio Tabucchi. Li umas 10 páginas e tive que parar. é um daqueles livros intensos, em que cada página me fazia pensar durante 1h em temas difíceis desta vida. Encontrei citações assim desta categoria em cada parágrafo.

 

Lembro-me de na altura ter pensado: "como é possível que um escritor consiga falar assim da morte sem estar ele próprio a passar por isso?"

 

Não era possível. Antonio Tabucchi morreu hoje de cancro.

 

Foda-se para o cancro.

 

"A propósito de elefantes, de todos os rituais fúnebres que as criaturas deste mundo excogitaram, sempre admirei o dos elefantes, que têm uma estranha forma de morrer, sabias? Quando um elefante sente que chegou a sua hora afasta-se da manada, mas não o faz sozinho, escolhe um companheiro que vá com ele, e abalam. Avançam pela savana, muitas vezes a trote, depende da urgência do moribundo... e caminham, caminham, podem fazer quilómetros e quilómetros, até o moribundo decidir que é ali que ele quer morrer, então dá umas quantas voltas e traça um círculo, porque sabe que chegou a hora de morrer, leva a morte dentro de si mas tem de colocá-la no espaço, como se se tratasse de um encontro, como se quisesse olhar a morte de frente, fora dele, e lhe dissesse bom dia senhora morte, cheguei... (...) e só ele pode entrar naquele círculo, porque a morte é um assunto privado, muito privado, e ninguém lá pode entrar senão quem está a morrer... e aí chegado pede ao companheiro que o deixe, adeus e muito obrigado, e o outro regressa à manada...

 

(...)

 

Só eu conheço o meu círculo, sei quando há-de chegar o momento, é certo que quem nos escolhe é a hora, mas também é certo que se tem de concordar que ela nos escolha, a decisão é dela mas no fundo também tem de ser nossa, como se fosse nossa a escolha e nos limitássemos a capitular frente a ela... Por enquanto vamos trotando juntos, aparentemente seguimos em frente, embora na realidade estejamos a recuar para chegar ao meu círculo, que fica à minha frente. Tu entretanto ouve e escreve, quando chegar a hora da despedida eu digo." (Tristano Morre, p.10-11)

 

Foi hoje. Adeus Tabucchi.

publicado por Silvina às 15:14

Eu sei que isto é completamente egoísta e até um bocadinho parvo, mas penso muitas vezes que, se não fossem os profundos confrontos com a nossa própria mortalidade, não teriamos textos tão tremendos.
Reciclar o sofrimento (seja ele de que origem for) e transformá-lo em letras, faz com que muitas pessoas não se sintam tão sós. Falo dos que escrevem e dos que lêem.
Ana C a 25 de Março de 2012 às 18:02

Concordo. Também já me tinha apercebido dessa relação sofrimento-escrita quando com 16 anos só conseguia escrever poemas durante as fases de desgosto amoroso, o que fazia com que, viciada em pseudo-poemas, procurasse sempre andar melancólica e triste nos amores...
Mas estes textos do Tabucchi são tão verdadeiros que até dói. Não sei como é que ele faz para transportar a dor para as páginas...
Um beijinho*
Silvina a 26 de Março de 2012 às 15:02



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