As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Domingo, 20 de Maio de 2012

Já várias vezes me disseram que ter cancro e medo da morte era normal. Que ter a morte em face como eu tenho era normal; afinal, todos morremos um dia. E não sabemos quando, amanhã podemos andar na rua e ser atropelados por um autocarro. Ou cair de um penhasco no Guincho enquanto tiramos fotografias.

 

Mas imaginem:

 

- O chiar dos travões, o vosso coração acelerado, o medo, o vosso espaço vital a ser invadido por um monstro com motor, a vida a passar-vos diante dos olhos, a inevitabilidade do fim, o tomar de consciência inevitável que ocorre em centésimos de segundo, "é agora, vou morrer" e mesmo antes de morrer ficam parados nesse instante, em modo pause;

 

- O chão a fugir debaixo dos pés, o vento que bate mais forte na cara, o estender das mãos inútil porque não há nada onde nos podemos agarrar, o medo, a queda a tomar forma, a chegada do vazio e, perto do fim, a tomada de consciência inevitável que ocorre em centésimos de segundo, "é agora, vou morrer" e mesmo antes de morrer ficam parados nesse instante, em modo pause;

 

Imaginem-vos suspensos nesse momento, à beira dela, à beira da extinção. De todo o vosso ser, os vossos gostos, os vossos amores. O fim das palavras que ainda tinham para dizer, das ideias que ainda tinham para pensar, o desaparecimento da vossa ordem do mundo, da vossa singularidade, das vossas memórias. Imaginam quem fica, desamparado, perdido com a vossa perda. Imaginem-vos suspensos nesse instante. Em modo pause.

 

é assim que eu vivo, TODOS OS DIAS da minha vida. à beira desse fim. Por isso não me banalizem a morte por cancro, comparando-a com ser atropelado por um autocarro quando se atravessa a rua, comparando-a com todas essas coisas que podem acontecer (mas não estão ainda a acontecer), sejam elas acidente de carro, avião, de mota, afogamento numa lagoa ou numa praia sem vigilância, ou ingestão de cocktail acidental de drogas legais. São coisas diferentes, que exigem entendimentos e sensibilidades diferentes.

 

 

 

Cliché, but very true.

publicado por Silvina às 01:53

É isso mesmo! Não tem comparação.

Lena.

Soneca a 20 de Maio de 2012 às 03:04

sem dúvida! nada a ver...
beijinho grande*
Isabel
Monóloga a 20 de Maio de 2012 às 16:32

Há posts teus que são como murros no estômago... E este já vim relê-lo três ou quatro vezes ao longo do dia e acabo sempre a fechar a janela do mesmo modo que fecho os olhos nas piores cenas do filme, como se isso bastasse para fazer desaparecer tudo...
Pedes-nos para imaginar. E eu não consigo sequer escrever sobre isso...
É poucochinho dizer que admiro muito a tua força e a tua capacidade de continuar apesar desse sentimento permanente de vertigem. Mas é sincero, e acredita que hoje especialmente foste uma lição importante.
Obrigada!
Ana a 20 de Maio de 2012 às 20:52

E há comentários teus que são de uma sinceridade tal que também me tocam profundamente. Obrigada eu. Um beijinho*
Silvina a 23 de Maio de 2012 às 02:46

Há muito tempo que não lia nada assim! Silvina, é uma heroína!
Cláudia a 20 de Maio de 2012 às 21:53

É tão verdade o que dizes, mas só entende quem já alguma vez passou por isso. As pessoas que nunca tiveram a espada do cancro sobre a cabeça não conseguem entender, é outra dimensão da vida que ainda não perspectivaram e ainda bem para elas.
Encontram nessa comparação uma aproximação ao que sentes, pois é a única que conhecem. Não é por mal, mas uma tentativa para chegarem a ti, de te tentarem confortar ou de te fazerem sentir o mais igual a elas possível. É com boa intenção, mas compreendo perfeitamente que te magoe, pois uma coisa não tem absolutamente nada a ver com a outra, e torna-se quase uma ofensa. Ficamos assim "ah, ok, entendes perfeitamente o que eu estou a sentir, mas a probabilidade de teres um acidente e morreres é ínfima, diante da minha de morrer nos próximos meses!"
Beijinhos muitos
Mammy a 20 de Maio de 2012 às 23:48

Olá Mammy, sim, admito que no principio ficava um bocado revoltada quando ouvia comparações desse género; mas acho que ficava sobretudo revoltada comigo própria, por não me conseguir explicar melhor. Hoje, e quando escrevi este post, não é de todo revolta que sinto, antes uma vontade de comunicar melhor, de explicar melhor o que sinto e como vivo. E claro, não estou à espera que ninguém entenda, até porque eu mesma só percebi a dimensão disto tudo 1 ano e tal depois de ter sido diagnosticada... E ainda sabe melhor não estar à espera e depois afinal descobrir que até há pessoas que entendem! ;)
Um grande beijinho*
Silvina a 23 de Maio de 2012 às 02:53

Claro que são coisas completamente diferentes. E o prolongar de um estado, de um medo, de dúvidas, de esperanças (que às vezes dão em desilusões), isso obriga a reflectir e mergulhar profundamente nesse estado, não há escapatória. A única coisa a fazer é aproveitar, aproveitar, e crescer pelo caminho. E ainda ter a generosidade de partilhar essa vivência com outros, como fazes. Beijinhos, Silvina :)
gralha a 21 de Maio de 2012 às 09:49

Na mouche gralha! :)
Um beijinho*
Silvina a 23 de Maio de 2012 às 02:55

...dass... que bruta! Mas acredito que seja tão verdade! Ninguém consegue ter uma idéia... a não ser que passe por lá... mesmo quem tenha estado proximo de alguém com cancro (como foi o meu caso com a minha mãe...)! Mas acredita que é tb angustiante para nós...
Saudosa a 21 de Maio de 2012 às 12:56

Olá saudosa, nem todos os doentes de cancro têm que viver assim, graças ao senhor! Eu própria não tive que viver assim, até chegar às recidivas sucessivas e metástase no pulmão. Ai entra-se noutro campeonato... Claro que é também angustiante para as pessoas que estão próximas do doente, mas este estado de que falo, o de conviver com a sua própria morte tão de perto, é mesmo um exclusivo do doente (o "sortudo!").
Um beijinho* :)
Silvina a 23 de Maio de 2012 às 03:00

Já abri esta caixinha para comentar uma série de vezes, mas tenho andado a "ruminar" o que dizer. É claro que tens razão. Eu fiquei sobretudo a olhar para a imagem final e para a mensagem que lá vem. É que tu tens de viver com esta espada sobre a cabeça - e como se faz isso?
Só consigo comparar isso com o que senti quando soube que tinha uma doença crónica, que felizmente não põe a minha vida em risco, mas mudou-a e continua a mudá-la. Se me foi muito difícil lidar com essa nova realidade da minha vida, não a deixar tomar conta de mim nem, posso fazer uma ideia muito, muito pálida do que será ter de encaixar um cancro, as operações, as recidivas. E por isso só posso reconhecer, mais ainda, a tua coragem para tudo e em especial a de fazer planos futuros. O cancro não te vai vencer!
Zu a 21 de Maio de 2012 às 15:49

Luto todos os dias por me segurar a essa capacidade de fazer planos futuros. é que às vezes parece tudo tão em vão. Como se os sonhos se esvaziassem, e já nada fizesse sentido. Depois penso: "não é por ai; não atribuir sentido às coisas é desistir da vida" E desistir não é a minha praia...
Ajudou-me muito pensar no cancro como uma doença cronica (ao invés de uma doença terminal). é duro, muito duro, a mudança forçada, o viver sabendo-se doente. Mas é um passo necessário para andar para a frente e para, como dizes, não deixar a doença tomar conta de nós...
Um grande beijinho*
Silvina a 23 de Maio de 2012 às 03:07

E este é "apenas" o lado emocional. Depois tens toda a batalha física... É uma doença filha da puta. Uma das mais filhas da puta de todas.
Ana C a 21 de Maio de 2012 às 17:05

Ana C., só de pensar no enxerto de porrada que me espera até me encolho toda... :/
Silvina a 23 de Maio de 2012 às 03:09

Não tenho palavras. Já vivi esse momento de pause ( e afinal não foi dessa, como se vê) mas foram segundos apenas.
Dulce a 21 de Maio de 2012 às 20:20

Dulce, adorei o parêntesis! ;)
Um beijinho*
Silvina a 23 de Maio de 2012 às 03:10



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