As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

"le cancer échappe à tout le monde, aux scientifiques, aux médecins, mais il n’échappe pas au patient. Ce qui est important, c’est que les gens prennent leur responsabilité. C’est à eux, cette maladie, ce n’est pas aux médecins. Il y a des médecins qui sont totalement inconscients, je les appelle les «médecins assis». Ils sont si loin de vous, ils sont assis sur leurs connaissances, ils ont tellement peur que l’on apporte quelque chose de nouveau qui les déstabiliserait…" (Bernard Giraudeau, sublinhados meus)

«Le cancer est arrivé, je n’étais pas étonné» - Libération

 

 

 

O cancro é meu. Não é dos meus médicos, não é do meu pai, nem da minha mãe, não é das pessoas que me rodeiam, amigos e conhecidos. O cancro é meu, instalou-se no meu corpo, e não me larga há três anos.

 

No post anterior tentei explicar o que é viver à sombra da morte, presa num instante. Não é qualquer pessoa que tem cancro que percebe isto. Eu própria vivi com cancro durante um ano e meio antes de perceber isto, antes de sentir isto. No principio não percebia. Continuei sem perceber quando tive a primeira recidiva. E a segunda. Talvez estivesse meia burra ou demasiado optimista. Não pensava que aos 28 anos se pudesse morrer de cancro da glândula salivar. Que EU pudesse morrer assim. Depois veio outra recidiva e uma metástase no pulmão.

 

Aí senti tudo, o abanão. A mão da morte em cima da minha. Estávamos em Setembro de 2011 e eu não sabia se ia chegar ao Natal. Cheguei. Tenho vivido assim, cada dia a viver um dia a mais em relação ao Natal. Cada dia a conquistar os prognósticos. Cada dia a desafiar estatísticas. Entretanto o Matt morreu, aos 26, com cancro da glândula salivar. O Adam também morreu, aos 47, com cancro da glândula salivar. Na semana passada soube que esta quinta recidiva veio com bónus: agora tenho metástases em 3 sítios: pescoço, mediastino e rim. Tenho andado com a cabeça à roda e ao mesmo tempo uma calma que às vezes me assusta. Sinceramente, não sei o que mais posso fazer. Já não tenho mais cartas na manga. Penso no Lambard, sei que vamos mais uma vez ferozmente à luta. Desta vez vai ser sistémica. Vêm ai a quimioterapia. Aquela que me disseram ser "paliativa" e não "curativa". O cancro é meu, mas nós chegámos a este ponto.

 

 

Ce cancer avait, pour vous, un sens, comme un signal ?

Il a toujours un sens. C’est mon avis. Pour un homme adulte, sur le deuxième versant de sa vie, un cancer peut être un message, un questionnement. C’est souvent ce qui se passe.

Et la rechute a un sens ?

On fait l’erreur de croire que les choses sont miraculeuses. C’est en nous, ce cancer. S’il n’a pas été, je dirais… compris à la source, rien ne change vraiment. Car ce n’est pas qu’un problème de molécules, celles-ci vont nous faire guérir un temps, vous allez survivre, mais le reste ? C’est un décalage, un terrain défavorable. D’où cela vient-il ? Cela peut être plein de choses. C’est pour cela que je dis qu’il y a une nécessité pour le patient de se prendre en charge, de faire connaissance avec lui-même. Est-ce que l’on veut être aveuglé et rester sous la tutelle des médecins ? Ou est-ce que l’on veut travailler avec eux, avec son ressenti, ses sentiments, ses peurs ? (Bernard Giraudeau, sublinhados meus)


«Le cancer est arrivé, je n’étais pas étonné» - Libération

 

 

Na véspera da reunião da equipa médica que ia decidir o meu tratamento enviei um mail ao Lambard com fotos da minha viagem e um agradecimento entre parêntesis. Disse-lhe que sabia que os outros médicos não eram como ele; que os outros tinham medo de se envolver demasiado com os pacientes, e que esse medo, não deixando de ser legitimo, é mesmo muito estúpido. Porque temos que aproveitar as oportunidades de interagir com as pessoas enquanto elas estão por cá. Agradeci-lhe por ele estar sempre comigo. O cancro é meu, mas não o combato sozinha.

 

E nesta fase, começo mesmo a encarar as coisas menos belicamente e mais no sentido de uma oportunidade para uma profunda interrogação existencial. Para aprofundar o conhecimento sobre mim própria, sobre a vida, sobre o mundo em geral e o meu em particular. Deslumbro-me com o facto de o G. ter cá vindo a casa ajudar-me a pôr cortinas nas janelas (depois de 1 ano e meio de vida exposta aos vizinhos), de termos jantado sushi, de as cortinas serem brancas e simples e darem um ar de harém com classe à casa. Delicio-me com o facto de poder ir dormir numa cama feita de lavado e poder embrenhar-me no livro da Ana C. até me dar o sono. Até me agrada o facto de chorar quando leio entrevistas como essa do Bernard Giraudeau no Libération. Eu percebo-o. Eu percebo-o até ao osso. Eu, uma miuda de 29 anos quase 30, percebo-o a ele, um conhecido actor Francês com 62 anos. Estamos tão próximos. Estamos todos tão próximos. Sinto como se ele me falasse ao ouvido. E como se eu tivesse sensores emocionais em cada poro do meu corpo. Estou desperta como já não estava há anos. E mesmo estando a ser invadida por metástases, estou estranhamente serena. E isto não é resignação, nem baixar os braços. É um aceitar que a minha situação, neste momento preciso, é esta. É acreditar que há esperança, sempre, até ao ultimo suspiro. Falta-me conhecer os meus limites.

 

 

Et accepter d’être malade ?

Oui, si vous ne l’acceptez pas, c’est emmerdant. Mais en même temps, c’est l’histoire de chacun, certains refusent et ont guéri.

 

(...)

Est-ce que vous vous attendiez à un parcours aussi dur ?

Je le savais, mais aussi dur… Le plus dur est de ne pas savoir comment arriver à stabiliser cette maladie sans que cela ne devienne invivable.

Vous avez mis des limites ?

Oui, j’en ai mis. Je ne veux plus me faire opérer. J’ai déjà été tellement opéré que cela bousille. Pour les chimios, moi, cela fait deux ans. C’est une période difficile.

 

(Bernard Giraudeau, sublinhados meus)


«Le cancer est arrivé, je n’étais pas étonné» - Libération

 

 

Bernard Giraudeau morreu no dia 17 de Julho de 2010, de um cabrão de um cancro no rim descoberto em 2000.

 

publicado por Silvina às 01:26

Faltam palavras.Resta muita coragem. O cancer e seu e a fortaleza e voce!
A mim, vc motiva e me mostra o que realmente importa.
Bjo e estou aqui sempre, cada dia mais certa de quao grande e voce!



Desculpe os erros estou digitando no ipad, nao sei mexer nisso.
Juliana a 23 de Maio de 2012 às 03:22

Faltam-me as palavras.
Estou aqui, a quase 20000 km, mas perto, se de mim precisares.
Um beijo
Maria a 23 de Maio de 2012 às 04:31

O cancro é teu, mas não estás nunca sozinha.
Admiro-te tanto, Silvina.
Ana a 23 de Maio de 2012 às 08:48

Estou aqui a ler tudo, Silvina, já sabes. Ontem dizia à Casaca que rapidamente passei a te querer bem como a uma prima mais nova. Esse carisma também é teu, muito mais teu do que o teu invasor.

Cá estou, para absolutamente tudo. O cancro é teu, a minha amizade e disponibilidade também.
Melissa a 23 de Maio de 2012 às 09:04

Não encontro mesmo palavras, hoje. Um abraço e o desejo que, de alguma forma, recebas a ternura que eu, como muitos outros, envio em silêncio.
gralha a 23 de Maio de 2012 às 09:54

Pedindo licença à Gralha, faço minhas as suas palavras. Abraço muito apertado e todas as minhas forças concentradas a torcer por ti, Silvina.
Zu a 23 de Maio de 2012 às 11:09

Tenho acompanhado este blogue e leio estas palavras com alguma ansiedade. A verdade é que é impossível não ganhar simpatia e a partir daí, desejar-te o melhor, toda a saúde e um final feliz para estes últimos anos de angústia.Um grande beijinho!
palavrasdodia a 23 de Maio de 2012 às 14:22

Lembro-me perfeitamente da primeira notícia. De pensar: não é possível. É óbvio que é benigno. Lembro-me dos primeiros exames, da ansiedade, mas lembro-me também de brindarmos na casa dos meus pais, com vinho branco, uma fase de remissão completa. E depois fomos ouvir Carminho. Lembro-me do que foste, do que és e de todo o processo de transformação sem nunca deixares para trás a tua essência. Lembro-me dos medos, das pequenas vitórias, dos desabafos. Das cicatrizes. Lembro-me da nossa "vanidade" inicial... lembro-me de ganharmos consciência do problema e de nos agarrarmos à esperança - que me ilumina todos os dias. Lembro-me de te ver crescer à força com uma maturidade e segurança assustadoras. Lembro-me todos os dias da sorte que tenho em ter crescido contigo, Silvina. Em ser tua amiga desde que nos conhecemos, aos cinco anos. És a minha inspiração diária. És a pessoa mais corajosa que eu conheço. Sei que esta luta continua dura e eu não abdico da esperança.
Adoro-te.
Anónimo a 23 de Maio de 2012 às 19:13

Agora agradeço eu este comentário...

Silvina, um beijo enorme para ti e para quem te diz estas palavras

Que não se deixe de dizer o que temos para dizer lá porque não se está no mesmo espaço físico...

Eu deixei de dizer .... e agora resta-me agradecer a quem não o faça!
Saudosa a 24 de Maio de 2012 às 18:17

Abri esta caixa de mensagens, mais uma vez (como tantas,tantas vezes abro e fecho sem encontrar palavras) sem saber bem o que poderia dizer. Se estivesse aí contigo, limitar-me ia a ESTAR, calada, como tantas vezes é a melhor coisa a fazer. Sobretudo quando a experiência é grande, e nada do que possamos dizer a altera muito. Mas assim, online, estar não existe, a menos que falemos.
Depois vi as mensagens que tantos amigos te foram deixando, e senti - é isso, é isso mesmo. Estou aqui, quero que saibas que tens aqui um ombro, se quiseres. Mais um ombro.
Tens uma força inacreditável. Uma clareza.
Um beijinho grande.
EU a 23 de Maio de 2012 às 21:30

Bom dia Silvina:

Faço sempre a mesma coisa. Passo por cá, fico em silêncio, fico triste, fazes-me rir, fazes-me pensar. Às vezes dou por mim a pensar em ti durante o dia, tal qual como se pensa numa amiga a quem já não se telefona há muito tempo mas da qual se gosta muito. E por isso hoje é dia desse "telefonema", só mesmo para dizer que também tenho medo por ti, também fico feliz com as tuas vitórias e que acredito piamente que esta partilha te faz menos só na tua luta e mais forte para a travares.
Bjos
Cláudia S.
Cláudia S. a 24 de Maio de 2012 às 09:44



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