As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Sexta-feira, 15 de Junho de 2012

Pergunta-me porque razão volto sempre em baixo, mais angustiada, num baixo momento de forma. Relembra-me que isto se repete cada vez que vou, e cada vez que volto. Digo-lhe que talvez seja por causa de mim, que sou fria e gosto de distâncias, ou por causa dos outros que não sabem como falar comigo e que não me respeitam. Mas no fundo não sei o que se passa.

Só sei que nunca encontro o que fui buscar, não sinto o alivio que deveria tornar os meus dias mais ligeiros, pelo contrário : sinto o peso, a incompreensão, o nunca estar à altura. Sinto que para eles nunca faço nada bem, ou o que faço nunca é bom que chegue. E isso fere como quando tinha 7 ou 8 anos, mas nessa altura corria para os braços da minha avó e ficava tudo bem. Hoje sou adulta e a minha avó já morreu. E por já não ter braços para onde correr fico assim, mais angustiada, mais frágil, mais em baixo.

Sossega-me e diz-me o que eu preciso de ouvir, a saber, que estou lúcida, que estou viva, que consegui compreender a minha doença e mesmo assim viver com ela com energia, bom humor e com coragem.

Mas continua a fazer-lhe confusão porque é que eu vou e volto assim. A mim também. Faz-me uma confusão dos diabos, e desespero por não saber o que fazer para ir e voltar diferentemente.

publicado por Silvina às 15:47
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Falamos de pais, certo? As coisas tendem a ser mais complicadas com os pais do que com o resto do mundo. É muita história. Muita bagagem. Muitos mixed feelings... Mas ainda bem que tens quem te diga que fizeste coisas boas contigo e com a tua vida. Acho mesmo que o diz com muita razão.
EU a 15 de Junho de 2012 às 16:32

Falei em geral, mas sim, é muita bagagem e ela vem sempre atrás para qualquer lado que eu vá...
Um beijinho*
Silvina a 22 de Junho de 2012 às 19:15

Eu diria (se me permites opinar) que as nossas cicatrizes podem até nem se ver, mas permanecem em nós e dão sinal de si quando voltamos a enfrentar aqueles que no-las infligiram. Mais ainda quando elas têm raízes tão fundas como a infância e magoaram bem no meio do nosso coração. Mas as cicatrizes, com o correr do tempo, incomodam cada vez menos; e quanto mais fortes estivermos, melhor aguentamos os embates. Abraço grande :-)
Zu a 15 de Junho de 2012 às 16:39

São muitas vezes cicatrizes que só para nós fazem sentido, que para os outros nem sequer são reais. Tenho dificuldade em lidar com a memoria, com os sentimentos enterrados, com essas cicatrizes do "antigamente". Mas isto devagarinho vai là... Um beijinho grande*
Silvina a 22 de Junho de 2012 às 19:17

Tanta coisa que já se inventou, para quando um cabo USB para pessoas? (Não falo do Avatar, atenção :))
Eu sou uma otimista, acho sempre que é problema de comunicação, "mau contato". É de mim, isso. A minha primeira tendência é sempre achar que quanto mais literais somos a comunicar - olha como a tua avó é literal contigo - menos se perde na viagem. Isso enquanto não se inventa o tal USB - e quando quem o tinha já partiu.

Preciso de ti. Não preciso de ti. Tenho medo. Quero colo. Quero que te cales. Fica aqui. Vai-te embora. Ama-me já.

Gosto muito de ti, Silvina, e morro de medo de parecer simplista, às vezes. Eu sei que as coisas não são assim e que, para onde quer que vamos, levamos a tal criança assustada de 7, 8 anos às costas. Sei que há relações cheias de expetativas goradas, vivi uma assim, ela terminou abruptamente cheia de pontas soltas e pago a conta até hoje. Acho que é por pagar a conta até hoje que me tornei simplista: falar, falar, falar. Choose discomfort over resentment every single time.

Mas essencialmente quero dizer-te que gosto mesmo de ti e que espero que, na próxima volta, só leves contigo saudades.
Melissa a 15 de Junho de 2012 às 17:23

Obrigada Melissa. As tuas palavras fizeram-me bem. às vezes não comunico como devia porque tento "amansar" o que digo, para não ser tão bruta. Mas na tentativa de proteger o outro do que acho que sai de mau da minha boca dão-se uns nós bem dados e é pior a emenda do que o soneto. Change is coming... ;)
Abracinho*
Silvina a 22 de Junho de 2012 às 19:21

Silvina,

Tu deves ter mudado muito estes últimos anos. Eles possivelmente não. Há coisas que sempre nos habituámos a ir buscar a um sítio...e um dia vamos lá e já não trazemos nada porque já não há lá nada para nós. Tu sabes como a doença te fez amadurecer, deves ter avançado em 2 ou 3 anos o que normalmente se amadurece em 20. É por isso que tu não os encontras.

Quando fores ter com eles, baixa as tuas expectativas, é a melhor maneira de não te desiludires tanto.

Desculpa estar a opinar sobre a tua vida...mas apeteceu-me partilhar contigo aquilo que é a minha experiência e tentar ajudar-te.

Um beijinho,
Lurdes
Anónimo a 16 de Junho de 2012 às 13:23

Tens razão Lurdes, obrigada pela partilha, generosa. Um grande beijinho*
Silvina a 22 de Junho de 2012 às 19:22

Por muito que saibamos, com o nosso lado racional, que não vale a pena virmos buscar o que precisamos àqueles que já provaram não saberem/perceberem o que queremos, o nosso coração continua a rumar para as nossas raízes, de cada vez que precisamos de conforto, e é avassalador acordarmos para a mesma realidade, uma e outra e outra vez. É avassalador percebermos que ninguém mudou, que tudo continua igual, mesmo quando nós nos sentimos tão modificados pela vida...


.
Ana C a 16 de Junho de 2012 às 17:52

E ainda por cima eu tenho raízes nómadas!...
Silvina a 22 de Junho de 2012 às 19:23

Querida Silvina,
pensei muito se deveria comentar, não sei se acrescento,
mas sabe, vivo uma situaçao muito parecida e tbm muito diferente com meu filho, tento fazer com que ele perceba o quanto é importante pra mim e o quanto é prioridade na minha vida.Mesmo assim, sei que erro e muito, só não quero cometer os mesmos erros...
Vivi sempre um enorme desamparo, hoje com as "voltas"da vida, meus pais tem tentando diminuir o que se causou, uma vez até me perguntaram "se é possível perdoar"...quer saber não é.O que me foi tirado nunca vai ser reposto.
Certa vez ouvi uma fraze:äs crianças podem tudo, se os pais não lhe tirarem".Vou além e acredito que precisamos de pais é pra uma vida inteira, sempre.
Podemos "crescer", tornar independentes, tentarmos ser racionais...mas o melhor mesmo é os termos lá, apenas um colo é mais que sufuciente...
Desculpe o longo texto, é realmente o que me vai na alma.
Saiba eu entendo perfeitamente o quanto te faz falta, e quero dizer mais uma vez estou aqui, e tenho um colo, ainda que não de mãe, de uma amiga!
bjo no seu coração!
juliana a 18 de Junho de 2012 às 00:35

Obrigada querida Juliana, o teu comentário ajudou a amparar um dia -vários, até- um bocado difíceis. Um beijinho grande*
Silvina a 22 de Junho de 2012 às 19:25

Se houvesse um comprimido que nos moderasse as expectativas e as desilusões, acredito que venderia e muito. Se é sempre assim, olha, é pensar que depois passa. Mesmo que nunca deixe de custar um bocadinho. Beijinhos :)
gralha a 18 de Junho de 2012 às 09:44

Grrrr ando em luta acesa com as minhas expectativas. Sempre tão là em cima, as desgraçadas...
;)
Silvina a 22 de Junho de 2012 às 19:26



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