As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

Se de inicio tinha uma enorme dificuldade em associar a palavra morte à palavra cancro, agora já me deixei disso. Fervo por dentro quando leio que alguém morreu de doença prolongada. Fico fora de mim quando se impedem doentes de falar da morte, como se falar disso a trouxesse mais depressa, como se fosse um mau olhado, um chega-essa-boca-pra-lá senão ela vem aí.

 

Há cancro e há morte. Há gente que morre de cancro, e que infelizmente vai ter que viver essa experiência -morrer de cancro. 

 

Falar do medo da morte não arranca a esperança, nem a fé num final feliz. Exprimir o medo da morte é vital, e isso deveria poder ser feito sem papas na língua e sem gente a correr para pôr a mordaça ("ai, não digas isso, não fales assim").

 

Só tem medo de morrer quem ama a vida. E se ama a vida, vai querer viver. Vai lutar, vai fazer os possíveis para viver com o cancro, almejando viver sem ele um dia. O cancro é só uma doença. E hoje acredito mesmo que falar dele, e de tudo o que ele abarca, é essencial. E isso inclui exprimir emoções mais difíceis, como por ex: o medo dos tratamentos, da queda de cabelo, da solidão, das dores, das cirurgias, do futuro em cheque, e o medo da morte.

 

é preciso falar do cancro enquanto experiência que faz parte da vida. Que a integra, que a constitui durante um determinado tempo e que vai afectar toda a gente à nossa volta. é avassalador, mas também pode ser um momento propicio a descobertas, ao intensificar das sensações, ao aproveitar melhor a vida e dar o devido valor às coisas que nos importam na vida.

 

Não há dia em que não pense na morte, no medo de morrer de cancro. Mas também não há dia em que não pense "hoje estou viva."

publicado por Silvina às 19:37

São textos como este que me deixam aqui a ler sem palavras para dizer. Porque quem nunca passou por isto também precisa de se colocar na pele de quem passa na primeira pessoa. Para saber a melhor forma de ajudar, para haver um conhecimento da outra pessoa e do momento que passa. E para nós mesmos crescermos como pessoas.

Não sei se o que disse fez algum sentido. Mas só queria que soubesses que me sinto feliz por poder ler-te. E que guardo em mim as palavras que aqui escreves, embora algumas vezes em silêncio.
ana a 22 de Junho de 2012 às 20:44

Obrigada, Silvine!**
Melissa a 22 de Junho de 2012 às 22:10

de nada Melisse! ***
Silvina a 25 de Junho de 2012 às 22:35

és sempre muito perspicaz e generosa, Ana.
Um beijinho*
Silvina a 25 de Junho de 2012 às 22:34

Silvina, este texto podia ter sido escrito por mim, pelo menos a tomada de posição sobre falar abertamente de cancro e de morte. Não sei o que é ter cancro e ter medo de morrer, mas sei o que a minha mãe teve cancro, que ela amava a vida e lutou até já não poder mais.
Eu sempre quis falar de cancro e de morte, porque o vivi em 2.ª mão, mas senti que não podia fazê-lo para não chocar as pessoas. Porque eu assumi esse assunto com uma calma e racionalidade que muitos encaram como frieza... sou capaz de falar do que testemunhei, dos tratamentos, das dores que vi a mãe suportar, das incertezas, de tudo! e finalmente da morte da minha mãe e depois a do meu pai, às mesmas mãos. Porque só restei eu para falar da morte deles.
Naná a 22 de Junho de 2012 às 23:14

Nanà, percebo perfeitamente o que dizes, e lamento profundamente o que aconteceu aos teus pais. Não poder falar para não chocar as pessoas faz parte da tal mordaça que eu estava a falar. As pessoas precisam de serem chocadas, para ver se param de assobiar para o lado. Vai levar tempo, e exigir que as mentalidades mudem, mas há-de chegar o dia em que lidar com o cancro da forma que tu lidaste será considerado pura coragem e não frieza. Aliás, de frieza não tem nada.
Um grande beijinho*
Silvina a 25 de Junho de 2012 às 22:39

Outra mordaça que também tem que ser mudada é a "piedade" e a "peninha" com que se tratam os doentes e familiares. Aquela ideia de que as pessoas que estão a combater a doença são uns "coitadinhos"... muitas vezes nem te dizem isso, mas o olhar de "piedade" com que olham os doentes e os familiares diz tudo... muitas vezes evitei falar sobre o assunto só para não ter que levar com esse olhar. Pode até não ser intencional, mas tantos os doentes como os seus familiares são "combatentes", pessoas que lutam contra uma doença que lhes mina o corpo e lhes pode encurtar o seu tempo de vida!
Naná a 26 de Junho de 2012 às 08:51

Acho que em Portugal esse olhar do "coitadinho" ainda é pior do que aqui em França. Felizmente quem olha para mim nunca adivinharia que estou doente, por isso não tenho que levar com esses olhares quando ai vou... Mas foi de certeza uma das razões para eu não andar ai a assumir publicamente aos 7 ventos que tenho cancro...
Um beijinho*
Silvina a 23 de Julho de 2012 às 15:12

Quando li há pouco o teu último post e enquanto comentava, a ideia que me passava na cabeça é mesmo essa... há sempre aquela imagem do coitadinho, do "pobrezinha", que acaba por ser substituída por essa pergunta parva do "mas está tudo bem, certo?" quando dizes que tens metástases...
Acho que fazes mesmo muito bem não apregoares o teu estado de saúde, porque sinceramente, muitos não merecem saber!
Percebo perfeitamente que mantenhas isso contigo, mesmo com todo o peso que isso implica para ti, mas sinceramente assumires publicamente que tens cancro não te iria aliviar assim tanto e creio que o benefício seria muito pouco!
Naná a 23 de Julho de 2012 às 17:10

Exactamente. Por enquanto mantenho esta decisão, não quer dizer que não venha a mudar de ideias se o contexto da doença piorar, por exemplo...

Um beijinho*
Silvina a 26 de Julho de 2012 às 12:39

Nem mais!!!
Posso assinar por baixo? :-)
Silvina, às vezes tiras-me as palavras da boca...
Beijinhos
Mammy a 23 de Junho de 2012 às 00:00

Assina à vontade! ;)
(ainda bem que os teus exames estavam todos OK, zen power até Setembro.)
Um grande beijinho*
Silvina a 25 de Junho de 2012 às 22:41

Silvina,
Estou aqui a torcer por ti, sempre!
Muitos beijinhos
Mammy a 1 de Julho de 2012 às 15:13

Mais uma a concordar totalmente contigo e a admirar a tua postura e a capacidade de pores em palavras coisas tão complicadas. Obrigada.
Zu a 23 de Junho de 2012 às 21:53

obrigada eu pelas tuas palavras sempre gentis :)
Um beijinho*
Silvina a 25 de Junho de 2012 às 22:42

É uma injustiça impedir alguém de exprimir o que sente, mesmo que seja incómodo. A vida não são só florinhas, e amar a vida não é fazer de conta que o sofrimento, a morte e a perda não existem. Acredito que os pleonasmos e os paninhos quentes consigam ser muito cansativos. Fazes-me sempre pensar tanto... obrigada.

Um beijinho.
eu a 24 de Junho de 2012 às 11:24

Os paninhos quentes exigem que esteja sempre a desmontar preconceitos e trepar barreiras. é cansativo, sim. Mas faço-o e continuarei a fazê-lo, até porque acho que muitos paninhos quentes e não-ditos são frutos do medo e do desconhecido. Uma vez esses medos controlados, há espaço para maior sinceridade nos discursos... (espero eu!)
Um grande beijinho para ti*
Silvina a 25 de Junho de 2012 às 22:45

Tu saberás tão melhor do que eu o quão constrangida fica a população em geral quando se fala de cancro de forma racional, exacta e até um pouco fria. Quando se chamam os bois pelos nomes e se diz cancro e não "a doença". Quando até se brinca naturalmente com as circunstâncias/consequências associadas às doenças oncológicas.

Além de termos de descobrir a cura para o cancro, também temos (a raça humana) de aprender a viver com o cancro. Em casa, ou na porta do lado.

Um beijo enorme
Me a 2 de Julho de 2012 às 16:15

Me, é isso, sem tirar nem pôr. Quando chamo os bois pelos nomes ou escandalizo quem me ouve ou então ficam de olhos esbugalhados a olhar para mim e a pensar "que corajosa, como é que ela lida com isto?! eu não conseguia..."
Acho que o cancro consegue congregar em si os medos todos das pessoas, e que elas acham que não seriam nunca capazes de enfrentar... Muito trabalhinho de mudança de mentalidades temos nós pela frente! ;)
Um grande beijinho*
Silvina a 23 de Julho de 2012 às 15:25



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