As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Quinta-feira, 26 de Julho de 2012

Conheci o caso da Bia graças ao blog Quadripolaridades, e tenho seguido as actualizações do caso graças ao blog da Mammy.

 

Mais uma vez, insisto para a importância de se tornarem dadores de medula óssea!

 

Aqui fica um resumo da história, pela Pólo Norte:

 

 

"Tens um mano na tua barriga?" - entrou de rompante pelo meu quarto. A mãe, internada no quarto ao lado, tentou demove-la. " Não incomodes a senhora! Anda cá!". Mas ela continuava a olhar para mim, de pé, à beira da minha cama de hospital. Olhos azuis, cabelo louro, 4 anos de gente.
"Também tens um mano na barriga?"- insistia. Pego-a ao colo para se sentar aos pés da cama, leve que nem uma pluma. "Cuidado com o meu cateter!". A mãe, pálida e com ar gasto, grávida do mesmo tempo gestacional que eu, a contar-me da leucemia da filha, dos tratamentos de quimioterapia, da gravidez que pode ser uma esperança de vida, de mais vida ainda, o verdadeiro milagre da vida, para a filha que já vive. Das possibilidades de compatibilidade do novo bebé, que entretanto ganha pouco peso no útero, fruto do sistema nervoso da mãe que, internada, não acompanha pela primeira vez, em dois anos e meio, o ciclo de químio da filha.
"Tens um Bobi?"- fita-me, a pequena, de olhos pregados no suporte com rodas que me eleva o soro. E a mãe sorri, gasta e cansada, velha no pico dos seus 26 anos, a aguardar um milagre que são dois, agora. O bebé só tem um rim mas não lhe importa. A doença da filha ensinou-a a racionalizar a realidade. "Vive-se só com um rim, eu quero é que ele nasça bem, mesmo que não seja compatível,. Quero- os aos dois, bem! Percebe-me, não é?" Percebo tão bem.
E a menina canta- me aos pés. Elevo-a no elevador da cama, fica alta no cimo do colchão elevado. "Vou tocar no sol!"- e não parece doente, enquanto escorrega pelas minhas pernas, se ri às gargalhadas e folheia um livro que me ofereceu uma leitora deste blog.
A mãe a insistir que me deixe sossegada, sorriso exausto. Está desempregada, " ninguém dá trabalho a uma mulher que tem que faltar uma semana por mês para acompanhar a filha na quimioterapia". E, agora, internada. O marido teve que meter baixa para a substituir- "o dinheiro da baixa não vem logo no mês em que gozamos a baixa, este mês nao sei como irá ser". A filha, tagarela, dá gargalhadas e, por um momento, o sorriso abre-se, alheio aos problemas. Acaricia a barriga, como que a regar o crescimento do bebé que aí vem.
Falamos dos bebés que esperamos. Chega mámen para a visita, senta a menina ao colo, faz-lhe desenhos a pedido. A mãe elogia o jeito dele para desenhar. Mostro- lhe a fotografia da parede do quarto da Ana, pintada por ele. A menina pergunta se ele lhe pode desenhar uma Kitty na parede. Sorrimos os dois, cúmplices. Hoje toleramos a Kitty. Sim, irá pintá-lá, logo que a mãe regresse a casa. A menina salta de alegria.
Chega o jantar, a mãe e a menina recolhem ao seu quarto, não sem antes a pequena insistir: "Tens um mano na barriga?".
Lembro- me das discussões que temos tido acerca da preservação de células estaminais. Banco Público ou empresa privada? Se colocarmos no Banco Publico e aparecer alguém que precise, a nossa filha fica sem as suas células disponíveis. No Privado as células serão sempre guardadas para ela.
E a menina ali ao lado, a precisar de um transplante de medula. Não pode haver egoísmo na humanidade. Nem umbiguismo. Se a nossa filha fosse compatível, não hesitaríamos um segundo, sabemo-lo com o olhar, as palavras não são precisas.
E, finalmente, respondo "Sim, tenho uma (m)Ana na barriga!". Porque todos os bebés deveriam ser irmãos da menina.
A minha sê-lo-á.
 

E um vídeo da mãe e do pai da Bia no A Tarde é Sua da TVi.

 

 

 

 

PARA AJUDAR DIRECTAMENTE A BIA E A FAMÍLIA:

 

[Ainda nas palavras da Pólo Norte : ]

 

  • "Primeiro e, mais importante, tornando-se dadores de medula óssea. Tudo o que precisam de saber sobre este assunto está aqui. Bem sei que está calor, que é um maçada ir dar sangue até ao hospital e que há montes de motivos para ir adiando a ida. Mas eu conheço a Bia e- garanto-vos!- a Bia é uma razão suficientemente forte para levantarmos o rabo da cadeira e agirmos. 
  • Organizando no local de trabalho, no clube, no sindicato, nas reuniões de tupperware ou nas da mala vermelha, no ginásio ou na universidade uma recolha de sangue em parceria com o hospital da V. residência. É uma forma de mobilizarem colegas e amigos em torno de uma causa nobre. 
  • Se está grávida doando as células estaminais do cordão umbilical do seu bebé para o Banco Público.Isto é, optando pela criopreservação das células do sangue do cordão umbilical na LUSOCORD.
  • Ajudando monetariamente a família através de transferência bancária para o NIB  0010 0000 2623 6280 0018 3 (by the way, o nome do titular é Christian Zorzytzky, o pai da Bia é alemão. A mãe é portuguesa.). 
  • Angariando fundos para ajudar a família através de ideias giras ou mobilizando as empresas onde se trabalha ou onde se tem contactos numa perspectiva de responsabilidade social
  • Oferecendo bens. A família receberá o novo bebé em breve e sabemos as despesas que isso acarreta. Bens de farmácia, leites em pó, fraldas, soros, toalhitas, roupinhas ou o que se lembrarem que pode ser útil e fazer a família poupar dinheiro nesta fase. 

    [Envio de géneros, ou o que vocês quiserem para:]

     

    Sandra Parreiras
    Apartado 29
    EC Alcabideche
    2646-901 Alcabideche


  • Contando esta história nos V. blogs para a difundir, tal como já fizeram a Me, a Mac, a Leididi, a S* ou a Turista.
  • Divulgando esta história massivamente por e-mail ou através do facebook de forma a podermos fazê-la chegar a tanta gente quanto possível."

 

 

 

 

 

 

 

PARA DOAR MEDULA:

 

 

"Pontos de recolha:
Centro de Histocompatibilidade do Centro
Praceta Prof. Mota Pinto
Edificio S. Jerónimo (Piso 4)
Coimbra
Telefone:             239480700      
2ª a 6ª Feira das 9.00 - 12.00 e das
14.00 -17.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Centro de Histocompatibilidade do Norte
Pavilhão Maria Fernanda
Rua Roberto Frias
Porto
Telefone:             225573470      
2ª a 6ª Feira das 9.00 às 17.30
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Instituto Português de Oncologia (Piso 2),
Rua Prof. Lima Basto, Lisboa
Telefone:             217229800      
2ª a 5ª Feira das 9.00 às 16.00
6º Feira das 9.00 às 14.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital Dona Estefânia (Piso 1),
Rua Jacinto Marto, Lisboa
Telefone:             213126907      
2ª a 6ª Feira das 9.00 às 13.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital Fernando da Fonseca ( Piso 2),
Estrada IC 19, Amadora
Telefone:             214348279      
4ª Feira das 8.30 às 20.00
5ª Feira das 8.30 às 13.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital Curry Cabral (Piso 0),
Rua da Beneficência, Lisboa
Telefone:             217924260      
2ª a 6ª Feira das 08.00 às 15.30
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital de Torres Novas (Piso 0),
Av. Xanana Gusmão, Apart. 45, Torres Novas
            249810100      
3ª e 4ª Feira das 09.00 às 13.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital de Abrantes (Piso 3),
Largo Engenheiro Biocas, Abrantes
Telefone:             241360722      
3ª e 4ª Feira das 09.00 às 13.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital de Tomar (Piso 1),
Av. Maria de Lurdes Melo e Castro, Tomar
Telefone:             249320100      
3ª e 4ª Feira das 09.00 às 13.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital do Barreiro (Piso 1),
Av. Movimento das Forças Armadas, Barreiro
Telefone:             212147340      
2ª a 4ª Feira das 09.00 às 12.00
Inscrição prévia: Sim
---------------------------------------------------
Hospital de Beja ( Piso 0),
Rua Dr. António Fernando Covas Lima, Beja
Telefone:             284310200      
2ª, 3ª, 5ª Feiras das 09.30 às 12.30 e das 14.30 às 16.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital de Évora ( Piso 0),
Largo Nossa Senhora da Pobreza, Évora
Telefone:             266740132      
2ª a 4ª Feira das 09.00 às 15.00
5º Feira das 14.00 às 16.00 e das 09.00 às 12.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital de Elvas ( Piso 2),
Rua Mariana Martins, Elvas
Telefone:             268637200      
2ª e 3ª Feira das 09.00 às 16.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital do Litoral Alentejano ( Piso 1),
Monte do Gibardinho - Estrada Nacional 261, S. Cacém
Telefone:             269818100      
3ª e 5ª Feira das 09.00 às 12.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital de Portalegre (Piso 2),
Av. Santo António - Apartado 328, Portalegre
Telefone:             245301000      
2ª a 6ª Feira das 08.00 às 13.00
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital do Barlavento Algarvio (Piso 1),
Sitio do Poço Seco, Portimão
Telefone:             282450341      
2ª a 5ª Feira das 14.00 às 15.30
Inscrição prévia: Não
---------------------------------------------------
Hospital de Faro ( Piso 2),
Rua Leão Penedo, Faro
Telefone:             289891275      
2ª Feira das 08.30 às 12.00
Inscrição prévia: Sim
---------------------------------------------------
Hospital de Vila Franca de Xira ( Piso 0),
Rua Dr. Luís César Pereira, V. F. Xira
Telefone:             263285838      
3ª e 5ª Feiras das 09.00 às 16.00
Inscrição prévia: Sim
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Hospital Garcia de Orta (Piso 1)
Av. Torrado da Silva - Pragal, Almada
Telefone:             212727255      
2ª a 5ª Feiras das 09.00 às 12.00
Inscrição prévia: Sim
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Centro Hospitalar de Setubal,
Rua Camilo Castelo Branco, Setúbal
Telefone:             265549049      
2ª a 6ª das 11.00 às 12.30
Inscrição prévia: Sim
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Hospital do Funchal,
Av. Luís de Camões, Funchal
Telefone: 291705750/2
2 3ª feiras p/mês das 09.00 às 13.00
Inscrição prévia: Sim
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Hospital da Horta (Piso 1),
Estrada Principe Alberto do Mónaco, Horta
Telefone:             292201000      
2ª a 6ª Feiras das 09.00 às 12.00 e das 14.00 às 16.00
Inscrição prévia: Sim
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Hospital do Divino Espírito Santo (Piso 4),
Avª. D. Manuel I - São Sebastião, P. Delgada
Telefone:             296203560      
2ª a 5ª Feira das 08.30 às 14.30
6ª Feiras das 08.30 às 12.30
Inscrição prévia: Sim
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Centro Hospitalar Cova da Beira, Quinta do Alvito, Covilhã
Telefone:             275330000      
2ª a 6ª Feiras das 09.00 às 12.00 e das 14.00 às 16.00
Inscrição prévia: Sim
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Hospital Amato Lusitano
Av. Pedro Álvares Cabral, C. Branco
Telefone:             272000272      
2ª a 6ª Feiras das 09.00 às 12.00 e das 14.00 às 16.00
Inscrição prévia: Sim
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Hospital de São Teotónio
Av. Rei D. Duarte, Viseu
Telefone:             232420500      
2ª a 6ª Feiras das 09.00 às 12.00 e das 14.00 às 16.00
Inscrição prévia: Sim
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Hospital de Leiria, Rua das Olhalvas, Leiria
Telefone:             244817018      
2ª a 5ª Feiras (excepto feriados) das 08.00 às 15.00
Inscrição prévia: Sim
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Os Serviços que tem indicação de Inscrição Prévia, só recebem dadores já convocados pelo CEDACE
Os potenciais dadores das Regiões Autónomas da Madeira e Açores, deverão sempre enviar a sua inscrição para o CEDACE e só depois serão convocados para os serviços mais próximos da sua área de Residência.
O CEDACE não se responsabiliza por eventuais mudanças aos dias de colheita e horários pré-estabelecidos, sendo essas alterações da inteira responsabilidade dos Serviços de Sangue Hospitalares que colaboram na inscrição de dadores."
publicado por Silvina às 12:53

Domingo, 15 de Julho de 2012

Visto no Stand Up To Cancer Blog.

 

Partilhado porque esta carinha laroca merece. Como ando lamechas já verti uma lágrima. Isto é que é ter força.

 

 

 

 

About Sean Swarner 
When I was only 13 years old, I was diagnosed with Advanced Stage IV Hodgkin’s Lymphoma and given only three months to live. I went through a year of chemo, lost all the hair on my body, lost all my friends, gained 60lbs, and when I was placed in remission, I had to start my life all over again. I lived life to the fullest by joining my friends playing soccer, swimming, football, cross-country, and track. It was a wonderful life, but it was short-lived. About 18 months in remission, I was going in for a check-up for the Hodgkin’s and in less than 24 hours they found a tumor on an x-ray, did a needle biopsy, took out a lymph node, cracked open my ribs, removed the tumor, inserted a drainage tube, and started chemotherapy. I was 16 and the doctors gave me less than 14 days to live. I went through three months of intense chemo, one month of radiation, and then 10 more months of chemo. The medicine this time around was so harsh, the doctors actually put me in a medically induced coma. I literally don’t remember being 16 years old.

When I was finally placed in remission, I celebrated and am still celebrating my survivorship by trying to give people something I never had… hope. I started trying to give hope to others at a very young age, when during my first cancer experience I was approached by the Make A Wish Foundation and my wish was to give it to others else so that they could enjoy something.  To this day, I’ve been told I am still the only person who has ever given his or her wish to someone else. As an adult I wanted to help more than just one or two people. Because of my past and my goal of giving everyone affected by cancer hope, my brother and I founded The Cancer Climber Association, where we help others by sharing inspirational stories, giving survivors an opportunity to join us on a climb, providing a mobile camp for kids with cancer, and facilitating personal visits to patients by survivors.

At the end of the day it’s about enjoying each day you have with the ones you love and celebrating life. Cancer may have been the worst thing that has ever happened to me, but it’s also ended up being one of the best things to have survived. My book is dedicated, to all those affected by cancer. I couldn’t have done anything without you… including climbing the highest mountain on each continent (the 7-Summits) and completing the Hawaii Ironman… all with only one functioning lung. Thank you for being my inspiration, my hope, and the driving force behind everything I’ve done in my life.  At the end of the day, for anyone affected by cancer, it’s about cherishing the time with those you love and powering through every day. Embracing your survivorship is one of the greatest experiences you could ever imagine. It’s a new lease on life, and can be absolutely anything you ever wanted. Keep Climbing!

publicado por Silvina às 17:50

Sexta-feira, 22 de Junho de 2012

 

 

 

[é por estas e por outras que acho a Tailândia um país fantástico.]


Sexta-feira, 08 de Junho de 2012

Uma das coisas que mais me custa no cancro é a imprevisibilidade.

 

Tudo pode acontecer. E rápido.

 

Um dia está tudo bem, no dia seguinte está tudo mal.

 

é um viver na corda bamba levado ao extremo. Como é que se faz isto? Não sei muito bem, mas faz-se. é possível. Engole-se a injustiça, abraça-se a coragem, intensificam-se os momentos. Aceita-se a felicidade quando ela vem. Cria-se espaço para o riso, para o convívio, para a música, para os encontros.

 

Mas quando surgem noticias destas, como uma recidiva completamente do nada, parece que tudo isso deixa de fazer sentido. E de todas as palavras que poderia dizer, só me saem estas: que grande merda.

 

publicado por Silvina às 12:27

Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

"le cancer échappe à tout le monde, aux scientifiques, aux médecins, mais il n’échappe pas au patient. Ce qui est important, c’est que les gens prennent leur responsabilité. C’est à eux, cette maladie, ce n’est pas aux médecins. Il y a des médecins qui sont totalement inconscients, je les appelle les «médecins assis». Ils sont si loin de vous, ils sont assis sur leurs connaissances, ils ont tellement peur que l’on apporte quelque chose de nouveau qui les déstabiliserait…" (Bernard Giraudeau, sublinhados meus)

«Le cancer est arrivé, je n’étais pas étonné» - Libération

 

 

 

O cancro é meu. Não é dos meus médicos, não é do meu pai, nem da minha mãe, não é das pessoas que me rodeiam, amigos e conhecidos. O cancro é meu, instalou-se no meu corpo, e não me larga há três anos.

 

No post anterior tentei explicar o que é viver à sombra da morte, presa num instante. Não é qualquer pessoa que tem cancro que percebe isto. Eu própria vivi com cancro durante um ano e meio antes de perceber isto, antes de sentir isto. No principio não percebia. Continuei sem perceber quando tive a primeira recidiva. E a segunda. Talvez estivesse meia burra ou demasiado optimista. Não pensava que aos 28 anos se pudesse morrer de cancro da glândula salivar. Que EU pudesse morrer assim. Depois veio outra recidiva e uma metástase no pulmão.

 

Aí senti tudo, o abanão. A mão da morte em cima da minha. Estávamos em Setembro de 2011 e eu não sabia se ia chegar ao Natal. Cheguei. Tenho vivido assim, cada dia a viver um dia a mais em relação ao Natal. Cada dia a conquistar os prognósticos. Cada dia a desafiar estatísticas. Entretanto o Matt morreu, aos 26, com cancro da glândula salivar. O Adam também morreu, aos 47, com cancro da glândula salivar. Na semana passada soube que esta quinta recidiva veio com bónus: agora tenho metástases em 3 sítios: pescoço, mediastino e rim. Tenho andado com a cabeça à roda e ao mesmo tempo uma calma que às vezes me assusta. Sinceramente, não sei o que mais posso fazer. Já não tenho mais cartas na manga. Penso no Lambard, sei que vamos mais uma vez ferozmente à luta. Desta vez vai ser sistémica. Vêm ai a quimioterapia. Aquela que me disseram ser "paliativa" e não "curativa". O cancro é meu, mas nós chegámos a este ponto.

 

 

Ce cancer avait, pour vous, un sens, comme un signal ?

Il a toujours un sens. C’est mon avis. Pour un homme adulte, sur le deuxième versant de sa vie, un cancer peut être un message, un questionnement. C’est souvent ce qui se passe.

Et la rechute a un sens ?

On fait l’erreur de croire que les choses sont miraculeuses. C’est en nous, ce cancer. S’il n’a pas été, je dirais… compris à la source, rien ne change vraiment. Car ce n’est pas qu’un problème de molécules, celles-ci vont nous faire guérir un temps, vous allez survivre, mais le reste ? C’est un décalage, un terrain défavorable. D’où cela vient-il ? Cela peut être plein de choses. C’est pour cela que je dis qu’il y a une nécessité pour le patient de se prendre en charge, de faire connaissance avec lui-même. Est-ce que l’on veut être aveuglé et rester sous la tutelle des médecins ? Ou est-ce que l’on veut travailler avec eux, avec son ressenti, ses sentiments, ses peurs ? (Bernard Giraudeau, sublinhados meus)


«Le cancer est arrivé, je n’étais pas étonné» - Libération

 

 

Na véspera da reunião da equipa médica que ia decidir o meu tratamento enviei um mail ao Lambard com fotos da minha viagem e um agradecimento entre parêntesis. Disse-lhe que sabia que os outros médicos não eram como ele; que os outros tinham medo de se envolver demasiado com os pacientes, e que esse medo, não deixando de ser legitimo, é mesmo muito estúpido. Porque temos que aproveitar as oportunidades de interagir com as pessoas enquanto elas estão por cá. Agradeci-lhe por ele estar sempre comigo. O cancro é meu, mas não o combato sozinha.

 

E nesta fase, começo mesmo a encarar as coisas menos belicamente e mais no sentido de uma oportunidade para uma profunda interrogação existencial. Para aprofundar o conhecimento sobre mim própria, sobre a vida, sobre o mundo em geral e o meu em particular. Deslumbro-me com o facto de o G. ter cá vindo a casa ajudar-me a pôr cortinas nas janelas (depois de 1 ano e meio de vida exposta aos vizinhos), de termos jantado sushi, de as cortinas serem brancas e simples e darem um ar de harém com classe à casa. Delicio-me com o facto de poder ir dormir numa cama feita de lavado e poder embrenhar-me no livro da Ana C. até me dar o sono. Até me agrada o facto de chorar quando leio entrevistas como essa do Bernard Giraudeau no Libération. Eu percebo-o. Eu percebo-o até ao osso. Eu, uma miuda de 29 anos quase 30, percebo-o a ele, um conhecido actor Francês com 62 anos. Estamos tão próximos. Estamos todos tão próximos. Sinto como se ele me falasse ao ouvido. E como se eu tivesse sensores emocionais em cada poro do meu corpo. Estou desperta como já não estava há anos. E mesmo estando a ser invadida por metástases, estou estranhamente serena. E isto não é resignação, nem baixar os braços. É um aceitar que a minha situação, neste momento preciso, é esta. É acreditar que há esperança, sempre, até ao ultimo suspiro. Falta-me conhecer os meus limites.

 

 

Et accepter d’être malade ?

Oui, si vous ne l’acceptez pas, c’est emmerdant. Mais en même temps, c’est l’histoire de chacun, certains refusent et ont guéri.

 

(...)

Est-ce que vous vous attendiez à un parcours aussi dur ?

Je le savais, mais aussi dur… Le plus dur est de ne pas savoir comment arriver à stabiliser cette maladie sans que cela ne devienne invivable.

Vous avez mis des limites ?

Oui, j’en ai mis. Je ne veux plus me faire opérer. J’ai déjà été tellement opéré que cela bousille. Pour les chimios, moi, cela fait deux ans. C’est une période difficile.

 

(Bernard Giraudeau, sublinhados meus)


«Le cancer est arrivé, je n’étais pas étonné» - Libération

 

 

Bernard Giraudeau morreu no dia 17 de Julho de 2010, de um cabrão de um cancro no rim descoberto em 2000.

 


Terça-feira, 15 de Maio de 2012

"But I don’t know if [my mom] is proud of my cancer experience. I always let her know what is going on when there is new information, but she never instigates the “how is your head?” ask. To be honest, I think my cancer scares her, and makes her sad. I know for a while she was depressed and she wished she was (thought she should be) here for me, but I pushed her away because I wanted to handle things alone (with Brett).

 

I’m an adult–DAMMIT–and I can handle things by myself or with the people I choose to surround myself with, just like I had been doing since she left me when I was 17. Maybe this explanation of my early adulthood is unfair, but emotionally this is how I’ve always felt (...)."

 

Liz, no blog The Liz Army

 

Adoro a série House mas estes últimos episódios têm-me dado cabo da cabeça. O melhor (e único) amigo do House está doente. A ironia (ou não) é que o Wilson, o oncologista, tem cancro. Parece que tem só 5 meses de vida, porque o tratamento de quimio super potente que fez não funcionou.

 

E porque é que isto mexe comigo? Porque o Wilson tem o House, que é um egoísta miserável, mas está lá. Precisam um do outro, e apesar da situação ser trágica, não viram as costas um ao outro. Quando eu pensava que neste ano que passou tinha ultrapassado todas as questões que me faziam sofrer em relação à família e aos amigos que gostariam de cá estar mas que a) eu afastei para bem da minha saúde mental; b) não podem; c) não conseguem; d) têm as suas vidas; e) já deram o bastante para este peditório; eis que afinal não. O Wilson esfrangalhou-me isso na cara.

Continua-me a custar:

 

Que estando fora três semanas, regresso a Paris e não está ninguém à minha espera;

Que continuo a não poder ter um momento de fraqueza, porque não tenho aqui ninguém que (fisicamente) me levante nem ombro amigo para chorar;

Que os sentimentos não se pechincham, e as presenças também não. E isso não é uma questão de orgulho (meu), de incapacidade (dos outros) ou de necessidade (de todos).

 

Queria poder falar da morte, do medo, da solidão livremente.

Queria que quando eu estivesse mesmo a morrer viessem todos assistir comigo ao meu fim, com dignidade, com um sorriso nos lábios.

Queria ter direito a uma despedida como deve de ser, com música bonita e um abracinho de fugida, olhando os olhos de quem me olha e não ver culpa, nem arrependimento, nem sofrimento, nem pena. Só aquela calma trazida pelo amor de aceitar o inevitável e respeitar o curso da vida.

 

Raistepartam o Wilson e o House. Espero que os guionistas da série arranjem maneira de o(s) salvar(em)!

 


Quinta-feira, 10 de Maio de 2012

Só para agradecer todos os comentários de apoio que me enviaram. E os e-mails. Recebi e-mails de pessoas que me lêem mas que nunca tinham comentado, de pessoas que admitem não saber o que dizer. O que é certo é que souberam. E disseram-no. E eu li. E tenho-me emocionado muito, e todos sem excepção me têm dado muita força, porque sinto toda a sinceridade das vossas palavras. Por isso, muito obrigada.

 

 

Agora segue-se um momento lamechas:

 

 

 

Atentem na letra:

 

(...) You think you got the best of me
Think you've had the last laugh
Bet you think that everything good is gone
Think you left me broken down
Think that I'd come running back
Baby you don't know me, cause you're dead wrong



What doesn't kill you makes you stronger
Stand a little taller
Doesn't mean I'm lonely when I'm alone
What doesn't kill you makes a fighter
Footsteps even lighter
Doesn't mean I'm over cause you're gone (...)

 

 

publicado por Silvina às 20:26

Sábado, 05 de Maio de 2012

RIP Adam Yauch, com um (cabrão de um) cancro da glândula salivar. Aos 47 anos. Diagnosticado em 2009 (como eu).

 

 

Há uns anos estive neste templo. Agora parece que foi numa outra vida...

 

 

Artigo do Público sobre a morte de Adam Yauch.

 

 

O Adam publicou um vídeo no Youtube a explicar a sua doença e os tratamentos que ia fazer. Gosto que se tratem as coisas pelos nomes, e que se diga "cancro da glândula salivar" em vez de "vítima de doença prolongada". Já está na altura de dar alguma visibilidade a estes cancros raros (que afinal não são tão raros como isso), e que continuam a matar.

 

 

- saltem para o min 0:28 até ao 3:42.

 

publicado por Silvina às 13:43

Sexta-feira, 04 de Maio de 2012

Voltei e fui acolhida com chuva e temperatura de uns simpáticos 10°C. Muito diferentes dos 32°C que faziam lá onde estive.

 

Voltei e (re)comecei e a comer chocolate, em parte porque estou cansada da viagem de 18h, e doutra parte porque me preparo para fazer exames já na segunda-feira, e é com dificuldade que controlo o medo. E atento nesta dor que de vez em quando teima em surgir do lado direito do peito, e que quero pensar que é só ansiedade. E tenho saudades da minha avó, mais do que nunca. As saudades são belas e terríveis, ainda bem que as tenho mas não gosto dos momentos de tristeza, da ausência, do vazio. é como que se o espaço dela ainda aqui estivesse, mas ficaram só os contornos. O interior que antes estava preenchido agora já não está. Ela partiu.

 

E regresso para saber da morte do Miguel Portas, de um (cabrão de um) cancro do pulmão. E do novo transplante da Carmenzita. E do familiar da Susana. E da Kitty Fane. E podia continuar a enumerar um sem fim de pessoas que sofrem com isto. E sinto-me triste que o meu regresso a Paris me relembre sempre este sofrimento. Uma cidade tão bonita não merece estar assim tão interligada à experiência cancerígena. Ou talvez seja só a chuva, que não pára, e o frio que se faz sentir e que já me obrigou a ligar a "chauffage" que já tinha desligado para poupar dinheiro.


Terça-feira, 27 de Março de 2012

 

Hoje precisava de me lembrar disto.

publicado por Silvina às 15:03


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Desculpe mas percebeu mal: Tout va bien como uma e...
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Faz por estes dias um ano que recebi um postal de ...
Tens-me feito tanta falta...beijinhos, muitos muit...
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