As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Sexta-feira, 23 de Março de 2012

Estou doente há três anos. Já passei por muito. Ainda me sinto confusa com a minha situação, com o corpo que me restou, com a identidade enquanto doente oncológica, com as mazelas psicológicas, com o crescimento (interior) forçado.

 

Ainda esta semana a minha psicóloga me disse que tinha de aprender a viver com uma doença crónica e eu fiquei a olhar para ela com ar ofendido, como se ela me estivesse a subestimar, ou pior, a condenar-me a viver doente o resto da vida. Mas é obvio que ela tem razão.

 

Faz-me espécie a frase "tu vais vencer" ou a variante "tu vais vencer esse bicho". Porque eu não vou vencer nem vou perder. O que eu faço é viver. Ainda melhor no gerúndio: o que eu vou fazendo é ir vivendo...

 

O desafio não é saber se o cancro ainda está cá, ou se já não está cá; Ele pode voltar a qualquer instante, e se por momentos nos sabe bem esquecê-lo, quando lemos noticias destas, rapidamente nos lembramos.

 

A tentação de viver saudável é demasiado grande, demasiado boa, para nos levar a ignorar sinais (como fiz no Verão passado) porque queremos à força continuar a viver na ilusão de ter saúde. Se em Maio entrar em "remissão" não significa que "venci", nem que estou a ganhar. Significa que continua a luta contra um gigante adormecido.

 

O desafio é, então, aceitar. Viver com ele. Domá-lo, e não deixar que ele nos leve a melhor. Que nos tire o sorriso de viver mais um dia que passa. Viver com uma doença crónica é aprender a aceitar as circunstâncias sem estar forçosamente a desistir; é receber o novo corpo como uma dádiva, porque este corpo ainda mexe, ainda respira, ainda me permite fazer coisas que eu gosto -apesar de acordar todos os dias com dor. é reapropriar-me de quem sou e para onde vou. é não deixar de ter sonhos apesar de eles nos poderem ser roubados a qualquer momento. é aceitar a perda de controlo, e viver a vida ao sabor da corrente, como uma pena, leve, levezinha que é levada pelo vento.

 

[frase na minha parede, em francês e não em checo:

"Avoir l'espoir, ce n'est pas croire que les choses vont se produire bien, c'est penser que les choses auront un sens." Vaclav Havel

Que traduzido à bruta para português dá mais ou menos isto: "Ter esperança não é acreditar que as coisas vão necessariamente correr bem, mas sim pensar que as coisas farão sentido"]

 

 

Se é a vida que eu queria viver? Não. Se preferia mil vezes não ter cancro? Claro. Se gostava que os meus êxitos profissionais dependessem só do meu esforço, capacidade de trabalho  e de eu dar o meu melhor? Sem dúvida.

 

O (meu) contexto mudou para sempre. Daqui a uns 3 meses faço 30 anos mas o tempo já não se mede em meses nem anos. Já tenho 30 (e tal) anos há muito tempo. A data vai ser só motivo de festa pela festa. E quando chegar aos 60 faço outra.


Sábado, 17 de Março de 2012

imagem DAQUI.

 

 

Antes da minha 2a recidiva tinha um comportamento muito zen em relação ao tabaco. Tolerava, não me importava que fumassem ao pé de mim desde que não me fumassem para cima, e até tinha vontade de dar uns bafinhos num cigarro de enrolar de vez em quando.

Depois comecei lentamente a desgostar do cheiro, do objecto, da atitude.

Agora acho que quem fuma é parvo.

 

Tenho um amigo que fuma. Muito (1 a 2 maços por dia). Tem 28 anos. Eu ontem perdi as boas maneiras e toda a tolerância e disse-lhe: "sabes que vais ter cancro não sabes? Tens ideia do que dói ter cancro? Vais-te arrepender de cada um dos cigarros que meteste à boca."

Não sei o que é que me deu. Não costumo ser assim tão moralista, muito menos meter-me desta maneira na vida e nas opções de cada um. Mas acho que fiquei enojada pela inconsciência dele, pela atitude de preferir fechar os olhos e fingir que o cancro não existe e que não é com ele (quando eu estava sentada à sua frente, eu, com um cancro ORL em que 90% dos casos são causados pelo tabaco e álcool).

 

Ele respondeu que sim, que sabe que provavelmente terá um cancro por causa do tabaco, mas que se for lá para os 60 anos ele não se importa. Eu respondi: "não vais ter aos 60, vais ter antes." E que tendo cancro aos 20, aos 40 ou aos 60, a verdade é que é uma experiência que CUSTA MUITO, que DÓI, que MATA, que ninguém nunca deveria encolher os ombros e pensar "ékkk, não é comigo."

 

Estou farta de atitudes passivas em relação ao tabaco. Eu sei que é bonito respeitar a liberdade individual de cada um, mas porra, não sou obrigada a gostar de ver um amigo a matar-se com bafos à minha frente e ficar de boca calada.

 

Pedi-lhe desculpa por estar com um discurso assim tão agressivo, mas foi mais forte do que eu.


Terça-feira, 13 de Março de 2012

Tenho andado com moleza, sem pachorra para pensar, sentir ou escrever. Tenho andado anestesiada com o ritmo das radios, as insónias, a comida e as idas à fisioterapia. Agora a radio acabou, correu tudo bem, estou com a pele vermelha e com um certo cansaço, mas nada de dramático. Alterno noites de 9h e 10h com outras de 4h ou 5h e não sei porquê. O Dr Lambard deu-me 30 embalagens de amostras de um creme La Roche Posay para ajudar a pele a voltar ao normal. Ainda me disse para trazer de volta as embalagens que não usasse e eu pensei "deves!" -um creme tão bom, vou usar tudo!

 

Também não tive cabeça para responder a alguns mails que me enviaram nestes últimos tempos. Mas respondo agora, aqui neste post, assim meio indirectamente, só para dizer que os mails que me enviam me tocaram profundamente. Ana, saber que o Help me Live te ajudou a ajudar a tua amiga foi mesmo fantástico e inacreditável; nunca pensei dizer isto, porque não sou do tipo de "ajudar" ou pensei que não era, mas fiquei mesmo contente por poder ter "prestado serviço". Graças aos mails e comentários que me têm enviado ou deixado aqui no blog apercebi-me que tenho uma voz, que tenho algo a dizer e que há pessoas que, ao contrário do que eu pensava, querem ouvir, querem saber. Pessoas a quem o meu cancro mete respeito mas não mete medo, pessoas que não se deixam contaminar pela saída mais fácil que é a distância, e que se interessam por MIM pela pessoa que eu SOU, e não somente pela doença que trago comigo. Isso foi revelador. Falei muito de vocês e deste blog com a minha psicóloga. Foram uma grande ajuda para eu olhar para dentro, perceber que tenho valor, que há pessoas que vêem isso e que o mostram.

 

Esse reconhecimento ajudou-me a (re)criar a minha nova identidade enquanto pessoa que sofre com um cabrão de um carcinoma muco-epidermáide mas que pode ser mais do que simples paciente, mais do que um corpo em sofrimento. Ainda aqui há uma pessoa por inteiro. Que é interessante, antes do cancro, mas também porque tem cancro. Não vou mais aceitar sentir-me diminuída quando não conseguir falar de mais nada que não cancro, quando invejar (e tenho esse direito) pessoas que têm mandíbulas e que acordam todos os dias sem dor, quando às vezes suspirar e desejar poder ter uma vida como os outros, conseguir trabalhar, ter um homem que me ame e que fique comigo e com o cancro. Apesar de ser uma chata que fala de cancro, radioterapia e medo de morrer como quem conta que embirrou com a senhora da caixa do supermercado, é assim que eu sou e é este o meu valor. As pessoas que não conseguem compreender isto têm um sério trabalho psicológico pela frente para entender as suas falhas e os seus limites. E dito isto, o próximo passo é deixar de me preocupar tanto com o que os outros pensam! E preocupar-me sim com o que demonstram, com o que dizem de positivo e que me traga boas energias! O resto não interessa.

 


Sábado, 04 de Fevereiro de 2012

 

 

Hoje saí de casa e entrei no prédio ao lado, onde fica o gabinete das enfermeiras. Tenho que lá ir todos os dias mudar o penso. A enfermeira que lá estava hoje já me conhece há mais de um ano, e falamos sempre um bocadinho. Hoje perguntou-me como é que eu ia fazer a nível profissional quando o meu contrato acabasse. Disse-lhe que ia procurar outro. E ela insistiu: "Pois, mas na sua situação, e com o seu historial, ninguém a vai contratar. As empresas não querem saber dessas fragilidades, se tiver que faltar para ir fazer exames ou consultas, rapidamente eles arranjam outra pessoa no seu lugar... Não estão para isso." E é bem verdade.

 

Também nunca poderei justificar a nível universitário o meu atraso. A não ser que apresente, para além do meu CV profissional, o meu CV de cancro, para verem bem que andei ocupada estes últimos tempos.

 

Disse à enfermeira que achava tão estranho as pessoas não quererem saber das experiências dos outros. Que para muita gente basta-lhes saber que tenho cancro sem precisarem de mais pormenores. E mesmo quando eu não me importo de contar, eles não querem ouvir. As histórias de sofrimento prolongado não têm sex appeal. Um terramoto que mata milhares é muito mais giro.

 

Cancro, que é ALEATÓRIO, não escolhe idade nem sexo nem raça, PODE ACONTECER-TE A TI. E nesse dia vais querer saber como é que se faz, como é que se vive com isto, como é que se combatem as batalhas.

 

Acho que ainda há muito a fazer para que a sociedade se interesse pelas vivências interiores de um doente oncológico. Noutro dia lembrei-me que durante muito, muito tempo também não se falava nos livros de História das vivências dos soldados na guerra. As coisas eram sempre apresentadas do ponto de vista da Nação, de um governo, de um general. Sabem quando é que isto mudou? (eu sei, porque uma vez assisti a uma conferência sobre isso) Depois da Primeira Guerra Mundial, quando o tormento que os soldados passaram nas trincheiras não conseguia deixar ninguém indiferente. E a História Militar mudou para sempre. A partir daí a sociedade passou a olhar para a guerra de outra maneira.

 

Então porque é que o tormento de ter cancro não tem o mesmo efeito???

[asseguro-vos que isto me incomoda à séria, fico possessa.]

 

 

Dias como hoje são importantes porque permitem parar para pensar. O que é que eu posso fazer para alterar esta situação? Sozinha não posso mudar o mundo (apesar de o desejar desde a adolescência), mas posso:

 

1. Continuar a escrever no blog;

2. Falar com as pessoas à minha volta e ser honesta sobre o que é ter cancro, o que sinto, sobre os dias tristes, sobre o medo, etc., etc.;

3. Alertá-las para a importância da PREVENÇÃO: comer mais legumes, menos carne vermelha e zero comidas processadas (sim, as lasanhas congeladas entram nesta categoria), fazer desporto (nem que seja o básico, andar a pé um bocadinho todos os dias). Mais importante do que isso:

 

DEIXAR DE FUMAR!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

 

 

No Dia Mundial de Luta Contra o Cancro 2012 é este o meu apelo:

 

 

Não procrastinem. Não deixem para amanhã. A vossa saúde é importante. Vocês são importantes.

 

 

 

 

http://www.worldcancerday.org/

 


Sexta-feira, 03 de Fevereiro de 2012

Finalmente actualizei as informações ali do post Cancro da glândula salivar - resumo cronológico à vossa direita do écran (sou tão emigra -adoro.), cujas últimas informações datavam de meados de Novembro.

 

Podem espreitar e conferir que tenho andado a brincar activamente ao cancro desde então!

publicado por Silvina às 22:39

Sábado, 26 de Novembro de 2011

Cientistas identificam vírus causador de cancros da glândula salivar

 

O citomegalovírus (CMV) é uma causa dos tipos de cancro da glândula salivar mais comuns, segundo estudo do Laboratório de Genética do Desenvolvimento na Faculdade de Odontologia da University of Southern California, nos EUA, avança o portal ISaúde.

Estes são os últimos resultados de uma série de estudos que, juntos, demonstram o papel do CMV como um oncovírus, um vírus que pode tanto desencadear o cancro nas células saudáveis quanto explorar as fraquezas das células mutantes para aumentar a formação de tumores. O CMV é a última adição a um grupo de menos de 10 oncovírus identificados.

O professor Michael Melnick disse que a conclusão de que o CMV é um oncovírus veio após um estudo extensivo de tumores das glândulas salivares humanas e das glândulas salivares de ratos pós-natal.

O estudo mostra que o CMV nos tumores está activo e que a quantidade de proteínas criadas pelo vírus encontrada está positivamente correlacionada com a gravidade do cancro, disse Melnick.

Os trabalhos anteriores com ratos preencheram outros critérios importantes, necessários para relacionar o CMV ao cancro.

Depois de as glândulas salivares obtidas a partir de ratinhos recém-nascidos terem sido expostas ao CMV purificado, o cancro desenvolveu-se. Além disso, os esforços para parar a progressão do cancro identificaram como o vírus estava agindo sobre as células para provocar a doença.

Como resultado, a equipa descobriu a ligação entre o CMV e o carcinoma mucoepidermoide, o tipo mais comum de cancro da glândula salivar. O estudo identificou também um caminho molecular de sinalização específico explorado pelo vírus para criar tumores.

"Normalmente, esse caminho só está activo durante o crescimento embrionário e o desenvolvimento, mas quando o CMV o transforma de volta, o crescimento resultante é um tumor maligno que apoia a produção de mais e mais vírus", disse Melnick.

O estudo explica como o trabalho colectivo claramente satisfaz todos os postulados de Koch para os vírus e o cancro, e estabeleceu um conjunto de critérios causais que deve ser demonstrado antes que um vírus realmente possa ser designado um oncovírus.

A classificação do CMV como um oncovírus tem implicações para a saúde humana. O vírus, que tem uma prevalência extremamente alta nos humanos, pode causar doenças graves e morte nos pacientes com sistema imunológico comprometido e pode causar defeitos de nascimento, se a mulher for exposta ao CMV pela primeira vez durante a gravidez. Ele também pode ser conectado a outros tipos de cancro, além do cancro da glândula salivar.

"O CMV é incrivelmente comum, a maioria de nós provavelmente o possui por causa de nossa exposição a ele. Nos pacientes saudáveis, com sistema imunológico normal, ele torna-se dormente e reside inactivo nas glândulas salivares. Ninguém sabe o que o reactiva", disse Melnick.

Jaskoll disse que o cancro da glândula salivar pode ser particularmente problemático porque muitas vezes não é diagnosticado até que atinja um estágio avançado. E quando a área afectada é perto da face, o tratamento cirúrgico pode ser extenso e muito prejudicial para a qualidade de vida do paciente.

No entanto, junto às novas informações sobre a conexão do CMV com o cancro vem a esperança para os novos métodos de prevenção e de tratamento, que talvez se pareça com o processo de desenvolvimento de medidas para mitigar o papilomavírus humano que foi realizado depois que a sua ligação com o cancro do colo do útero foi estabelecida. Jaskoll acrescentou que o modelo de glândula salivar do rato criado para conectar o CMV ao cancro também pode ser usado para desenvolver tratamentos mais eficazes.

"Isso poderia nos permitir ter um projecto mais racional para os medicamentos usados no tratamento desses tumores", disse ela.

Melnick disse que em um futuro não muito distante, ele espera obter mais informações sobre os vírus e suas conexões com cancro e outros problemas de saúde aparentemente não relacionados à infecção viral para surgir.

"Esta deve ser uma área mais frutífera de pesquisa durante um longo tempo por vir. Esta é apenas a ponta do iceberg com vírus", disse.

2011-11-21 | 11:50, no POP.
Este sim, é um artigo que me interessa e muito... Apesar de não perceber nada de proteínas, vou continuar a seguir bem de perto esta pista de investigação.

Sexta-feira, 28 de Outubro de 2011

Às vezes ainda tenho a sensação que isto tudo não me está a acontecer a mim. Que é outra pessoa que está a passar por isto tudo, que tem que viver com um cancro muito raro, agressivo e imprevisível. Depois abano a cabeça e penso: "que estupidez, claro que sou eu, é a mim que isto está a acontecer."

 

Já passaram dois anos desde o primeiro diagnostico de carcinoma muco-epidermóide. E às vezes ainda me custa a acreditar. Não sei se um doente de cancro algum dia aceita plenamente esta guilhotina que lhe colocam no pescoço, esta realidade que transtorna tudo, que muda tudo, passado, presente e (hipotético) futuro.

 

E nestes dias em que me sinto estrangeira no meu corpo, fecho-me em casa e recuso assumir esta minha vida.

 

Amanhã é outro dia.


Terça-feira, 21 de Junho de 2011

(Um dia) A morte passou-me ao lado

E não me posso queixar senão é pecado

 

"Respira fundo, escapaste de boa"

Dizem-me, esperançosas palavras à toa

 

Não foi ao lado, foi por entre

Como uma lança espetada no ventre

 

Ainda hoje caminho com ela -espetada-

Passos delicados, cabeça rebaixada

 

Sem rumo desenhado, só a seguir em frente

A tentar endireitar-me, a fingir que sou gente

 

Para provar que mereço este ar que respiro

Mas ele suga-me o folgo, como um vampiro

 

   (...)

 

Mas de que serve a vida, se vivida com receio?

Distâncias à parte, não há outro meio

 

Por hoje estou cá, ganhei a batalha

Depois veremos, migalha a migalha.


Segunda-feira, 20 de Junho de 2011

é basicamente isto. Apanhei um verdadeiro cagaço de morte. 1 ano e tal depois do meu diagnóstico com carcinoma muco-epidermoide tomei consciência da minha mortalidade e que podia mesmo morrer disto. De cancro. Aos 28 anos.

 

O resultado de ter entrado em remissão há cerca de um mês é que tenho pressa de viver. E não é raro o dia em que pense que devia ter feito mais, e melhor, e que culpabilize, porque sinto que não estou a aproveitar o que devia.

 

Por outro lado, ainda estou em recuperação e há mesmo uma data de coisas que não posso fisicamente fazer ainda, outras que não poderei fazer nunca mais. Se por um lado é preciso ter paciência e dar tempo ao tempo, por outro sinto um fogo no rabo, uma pressa de fazer coisas que me impede por exemplo de dormir, porque sinto que é tempo perdido. Tempo inconsciente, tempo onde estou desligada, parada. E parar é morrer, logo... Pois. Logo, insónias há 4 meses. E frustração constante com os dias que nunca são suficientes, nunca são completamente satisfatórios, nunca chegam.

 

O paradoxo não fica por aqui. Se vou com calma, respeito o meu corpo e o meu novo ritmo, e não me esforço fisicamente o suficiente, acabo por me acomodar à situação e não tento evoluir mais; Se me esforço demasiado, fico ainda mais cansada e ai é que o corpinho dá de si e simplesmente não aguenta. é como na fisioterapia: se se dobra o joelho é bom, e temos que dobrar senão ele não recupera o movimento; mas se dobramos e esticamos muitas vezes e rápido podemos dar cabo das articulações. E esta espécie de equilíbrio é mesmo difícil de atingir.

 

E acaba por me condicionar os planos de trabalho, porque nunca sei se me estou a esforçar demais ou se estou a usar a cancer card para procrastinar.

 

 

Além do esforço vs. cansaço, há ainda outro duo com o qual me confronto todos os dias: o carpe diem vs. planear (ou preocupar-me com) o futuro.

 

Tenho que viver no presente e não projectar a minha vida para o futuro. Porque a verdade nua e crua é que eu só tenho o hoje. O amanhã para mim não existe, e o futuro está hipotecado, pelo menos até passar a barreira dos 5 anos.

 

Como é que se vive no agora com pressa de viver, com limitações físicas, com uma vida desgovernada, incapacitada de sonhar ou de planear o meu trabalho no futuro (trabalho na área de investigação, por isso é mesmo importante planear projectos e objectivos a médio/longo prazo)? Como é que esse agora, nesses termos, pode ser satisfatório (reparem, não ouso dizer "feliz", uma vidinha mediana já me bastaria)?

 

Lutei para viver, não foi para deixar o tempo passar à espera de melhores dias. E viver não é só o contrário de estar morto, como diz a outra, não é só respirar e existir um dia a seguir ao outro; viver tem que ser mais que isto, tem que significar algo, tem que ter um propósito.


Domingo, 03 de Abril de 2011

*edit Outubro 2012*

 

Março 2008: Aparecimento do primeiro (e único) sintoma, um nódulo duro no pescoço acompanhado de algumas dores a engolir que duraram uma semana;

 

Março 2009: Numa consulta com o médico de família este reparou no nódulo e decidiu mandar-me fazer exames (análises ao sangue, ecografia e raio-x aos pulmões);

 

Maio 2009: Encaminhamento para uma consulta de especialista ORL - Otorrinolaringologista;

 

Junho 2009: Ressonância magnética e primeiro diagnóstico de tumor benigno da glândula salivar;

 

Setembro 2009: Por insistência do médico ORL fiz uma punção aspirativa com agulha fina (PAAF). O resultado veio duvidoso, o que impulsionou o médico a marcar uma operação de urgência para dali a uma semana;

 

Outubro 2009: 1a operação - glândula salivar retirada, assim como vinte e tal gânglios linfáticos da região do pescoço. Um mês depois, diagnóstico definitivo, carcinoma muco-epidermóide da glândula salivar sub-maxilar ou carcinoma mucoepidermóide da glândula salivar submandibular (mas os gânglios não estavam afectados);

 

Dezembro 2009: 2a operação - para retirar gânglios linfáticos na região da clavícula. Também não estavam afectados;

 

Fim Dezembro 2009 - Fevereiro 2010: 35 sessões de radioterapia na dose máxima;

 

Junho 2010: exames de rotina (ressonância magnética, ecografia, PETscan). Recidiva, novo tumor localizado na mesma região do pescoço que o tumor inicial;

 

Julho 2010: 3a operação - este novo tumor correspondente à recidiva foi retirado, assim como vários gânglios linfáticos adjacentes e tecido muscular que se encontrava muito próximo do tumor. Devido às complicações que poderiam surgir, foi decidido pela equipa médica não efectuar uma intervenção mais invasiva nem novos tratamentos de radioterapia;

 

Outubro 2010: exames de rotina (ressonância magnética, ecografia). Segunda recidiva, novo tumor localizado na mesma região do pescoço que o tumor inicial, com possível infiltração no músculo e no osso do maxilar;

 

Novembro 2010: 4a operação, extremamente invasiva. Retirado o tumor, músculos e outros tecidos adjacentes e uma porção do maxilar (dentes incluídos). Substituição do maxilar pelo osso perónio da perna. Enxerto de pele da coxa para a barriga da perna, feito 9 dias depois da 1a intervenção com nova anestesia geral (5a operação). Internamento de 3 semanas no hospital, com direito a traqueostomia;

 

Fim Dezembro 2010 - Fevereiro 2011: Novamente 33 sessões de radioterapia na dose máxima, acompanhadas de 3 sessões de quimioterapia concomitante (cisplatina).

 

Fim de Maio 2011: Fase de exames. Ressonância magnética, ecografia e análises ao sangue. Tudo normal. Entrei em remissão completa (i.e., neste momento não há nenhum sinal que a doença esteja presente). WEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!

 

Agosto 2011: Terceira recidiva. Gânglio linfático cervical (na nuca) e nódulo de cerca de 1cm no pulmão.

 

Setembro 2011: 6a operação, para retirar o gânglio cervical com anestesia local. Seguiram-se 12 sessões de radioterapia que terminaram a meio de Outubro de 2011.

 

Outubro 2011: Novo scanner (TAC) de diagnóstico, confirmação do nódulo pulmonar com menos de 2cm e aparecimento de um novo gânglio linfático na região do mediastino.

 

Novembro 2011: 7a operação, para retirar o nódulo do pulmão. Seguem-se novos episódios de radio (e a possibilidade de quimioterapia não está fora de questão). E nos entretantos fui fazendo fisioterapia diária, para recuperar o pulmão e a mobilidade do braço e da omoplata esquerdos.

 

Dezembro 2011: Este mês foi bem preenchido. Começou com 14 sessões de radioterapia para tratar o gânglio linfático do mediastino. Lá para o meio fiz a 8a operação, para retirar um gânglio linfático pequenino no lado direito do pescoço, com anestesia local. Fui para o hospital às 11h e às 16h estava a apanhar o metro para casa... SEIS dias depois fui mais uma vez para o bloco operatório (9a operação) para instalação do cateter. O resto do mês passei-o a fazer fisioterapia todos os dias, a lidar com os efeitos secundários desta radio e a tentar enfardar os doces de Natal sem vomitar nem me engasgar.

 

Janeiro 2012: Logo no início do mês fiz um scanner (TAC) e um PETscan de diagnóstico. Aparecimento de um novo gânglio linfático no lado direito do pescoço e de uma zona inflamatória no osso (na mandíbula que ainda me resta). Diagnóstico provável para essa zona inflamatória: Ostéoradionecrose. Fun... Dez dias depois foi a minha 10a operação: esvaziamento cervical para retirar gânglios linfáticos do lado direito do pescoço e mais algumas coisinhas. Confirmação de uma quarta recidiva (hmmm... Acho que vou deixar de as contar...), 1 gânglio positivo em 9 retirados. Recomecei a fisioterapia diária no fim do mês, porque tenho o braço direito todo atravancado e uma contractura muscular pas possible...

 

Fevereiro 2012: Depois de algumas complicações relacionadas com uma infecção da cicatriz, fiz finalmente as 14 sessões de radioterapia para tratar a zona operada em Janeiro (lado direito do pescoço). Continuo com fisioterapia de 2a a 6a e com dores nas costas e no pescoço.

 

Maio 2012: Dois TACs confirmaram a quinta recidiva, um gânglio no mediastino e um nódulo no rim. Fui também operada (11a operação) a um nódulo cervical, que afinal era "só" um quisto, benigno! Primeira boa noticia no espaço de um ano.

 

Junho 2012: Primeiras abordagens à possibilidade de participar num ensaio clínico: *Fail* Possibilidade de beneficiar do tratamento por CyberKnife, o ultimo grito de radioterapia: *Fail* Dores persistentes no joelho levaram-me a pedir ao meu médico para fazer uma radiografia. Descoberta de metástases nos dois fémures. 12a operação ao fémur esquerdo, consolidação do osso com um tubo de titânio e dois parafusos (http://en.wikipedia.org/wiki/Intramedullary_rod).

 

Julho 2012: Depois da operação, descoberta de mais metástases na zona do mediastino e abdominal. Possibilidade de participar num outro ensaio clínico. Estava quase a ser aceite quando decidi fazer um TAC cerebral, e de seguida uma ressonância, que confirmou uma metástase cerebral de cerca de 1cm. Fui rejeitada do ensaio clínico.

 

Agosto 2012: Inicio da quimioterapia (carboplatina + taxol). Fiz dois ciclos durante este mês.

 

Setembro 2012: Tratamento da metástase cerebral por Radiocirurgia (GammaKnife). Dez dias depois fui internada de urgência em Cardiologia com liquido no pericárdio. Acabaram por me drenar (13a operação!) e retirar 2 litros (!) de liquido. Uns dias depois fiz mais um ciclo de quimioterapia.



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