As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Sexta-feira, 16 de Março de 2012

Estou louca para me enfiar numa sala e experimentar isto:

 

 

Descobri a escalada quando era pequena, entretanto ganhei medo das alturas e os kilos a mais dissuadiram-me de ideias malucas que envolvessem cordas a apertar-me as coxas à vista de todos. Agora que já não tenho esse problema, tenho outros: a perda de massa muscular e sobretudo, sobretudo, os braços, ombros e pescoço completamente atravancados impedem-me de ir experimentar isto (por ex., tenho dores horríveis só para me pentear e secar o cabelo). Mas a sério, que me sinto seriamente tentada, lá isso sinto...

 

 

[nota mental: nunca mais na vida adiar planos e vontades que estejam ao meu alcance, mesmo que pareçam um bocado doidos, porque depois pode ser tarde demais.]


Domingo, 03 de Julho de 2011

Pronto, a minha actividade física -ou o famoso ginasticar da Rua Sésamo- resumiu-se a duas idas ao ginásio até ficar doente outra vez. Nada a ver com cancro. Desta vez foi uma contractura muscular (não sei se se diz assim), que me obrigou a andar de coleira (leia-se, colar cervical) três dias, e aumentar a minha dose de medicamentos para o triplo. Bonito.

 

O objectivo do ginásio era ficar mais saudável, mais tonificada. Em vez disso fiquei de cama, com dores do caraças e de coleira enfiada.

 

Isto ilustra o que é a recuperação de um doente com cancro: longe de ser uma curva ascendente, onde cada dia estamos melhor, é mais uma montanha russa, onde num dia estamos benzinho e no dia a seguir na merda, e onde temos sempre por companhia uma data de comprimidos.

 

Começo a desesperar.

 

Queria tanto voltar a sentir que tenho o controlo da minha vida, que posso fazer as coisas que me proponho fazer, que tenho todas as condições para alcançar os meus objectivos. É que determinação não chega. Por mais determinada que esteja não posso apagar as dores e injectar saúde neste corpo. Tenho que me conformar. É isto que me põe doida; eu que NUNCA fui pessoa de se conformar com nada -aliás, o meu lado rebelde impede-me de aceitar conformismos-, sou agora obrigada a fazê-lo. O cancro dá cabo da personalidade de qualquer pessoa. É-se obrigado a mudar sem o queremos.

 

Sempre vi a mudança como uma coisa inerentemente positiva, parte do meu carácter meio nómada. E aceitei-a até aqui sem medos, porque a mudança faz parte da vida. Mas só é bonito (como o 25 de Abril) se a pudermos escolher. Quando é uma mudança imposta, que nos transfigura para pior, o desafio de a aceitar e de aprender a transformar a mudança numa coisa positiva é enorme.

 

Por isso nunca se pode voltar a ser quem se era antes do cancro. Simplesmente, não é possível. E assim tenho que me reinventar, quando estava tão bem na minha pele antes do cancro. Agora sou forçada a ser outra pessoa, parece que tive que nascer de novo. E nascer dói. Por isso é que considero esta fase (da recuperação, da remissão) a mais complicada no percurso para a cura. É quando se precisa de mais apoio, porque temos que reaprender basicamente tudo sobre nós próprios. Os nossos valores e referências mudam para sempre. De repente, já não temos chão. O que considerávamos sagrado torna-se profano. Tudo gira do avesso, e somos apanhados no meio deste turbilhão de medos, emoções e mudanças não pretendidas.

 

40% dos doentes de cancro nesta fase desenvolvem uma depressão. A sensação de incompreensão é maior do que nunca. Numa altura em que toda a gente julga que nos devemos sentir aliviados e felizes por estar em remissão é quando nos sentimos mais pressionados e tristes, onde os nossos medos emergem e o pessimismo que temos a priori se expande, incontrolável. Todas os problemas que antes do cancro já tínhamos dificuldade em ultrapassar agora aumentam exponencialmente. Auto-estima? O problema aumenta para doses inimagináveis; Desequilíbrio? Stress? Idem, idem, aspas, aspas. E não há ninguém, nem comprimido nenhum que nos salve. Temos de estar à altura, e sair da sombra deste contexto, reinventar formas de vida, reconstruir uma pessoa inteira do nada, e procurar pedacinhos do quotidiano que façam sentido, que nos tragam uma certa (ilusão da) felicidade.

publicado por Silvina às 15:13

Domingo, 26 de Junho de 2011

Já está! Hoje foi o dia. Andava há mais de um mês para me inscrever, não sei explicar muito bem o porquê desta inércia. Talvez o motivo principal fosse o medo. Medo de falhar, de não conseguir aguentar, de me sentir mal, de acontecer como há um ano atrás, quando fiz pilates durante dois meses e depois tive uma recidiva.

 

Esta coisa de associar actos normais a acontecimentos excepcionalmente negativos é no fundo a base da formação de traumas. Só há pouco tempo é que percebi isso. O medo do desporto é um desses "traumas", exactamente porque da ultima vez estava associado a um cansaço extremo que depois se veio a revelar ser a primeira recidiva. O medo de viajar é outro desses "traumas", porque depois de uma grande viagem onde até me senti bem lá veio a segunda recidiva. O medo de coisas pelo nariz (tubos, sondas e afins) é outro, porque quando acordei da ultima operação tinha uma sonda nasal sem estar minimamente preparada (sobretudo para o momento de a tirar, quando a enfermeira corta os pontos que a ligam à narina e depois simplesmente puxa -quando sabemos que o tubo vai do nariz ao estômago é um puxar que nunca mais acaba e, mais do que a dor, faz muita confusão. bleghk). E estes são só alguns exemplos. Sei que há mais. Tenho que começar a reparar estas marcas profundas, a decifrar lentamente os sinais que o meu corpo me dá e ter menos medos, fazendo talvez menos associações "perigosas".

 

Hoje foi o primeiro passo. Eu, que antes fazia 2h de artes marciais 4x por semana, hoje fiz 15min de bicicleta. E fiquei contente.


Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

A nova é ir inscrever-me no ginásio.

 

Ando há 1 mês e 3 semanas a ameaçar. E a dizer "amanhã é que é!".

 

E com toda a convicção, volto a dizer: amanhã vou mesmo!

 

:)

publicado por Silvina às 00:46


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