As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2010

Segunda-feira.

 

Último dia de radio. Apesar de não sentir um alivio tresloucado, estou, sim, aliviada. E sinto-me mais livre. A semana agora é toda minha, não tenho que a partilhar com a equipa do hospital, nem com médicos nem com outros doentes na sala de espera.

 

O meu corpo reage lentamente a 35 sessões de radio. Está cansado, mas ciente que é para andar pra frente. A cara pede muito creme, Biafine para a zona irradiada, maquilhagem bonita nos olhos e creme com ligeiro reflexo de pêssego, o buço já foi à vida, está quase tudo bem.

 

A paciência exercita-se, porque agora tem que esperar pelo Verão para averiguar os resultados da radio. Se funcionou ou não. Eu acho que sim. Mas agora é esperar. Lá mais para o Verão...

publicado por Silvina às 18:23

Domingo, 14 de Fevereiro de 2010

Estou doidinha para que assim que acabar a radioterapia:

 

- ir depilar este buço;

- encharcar a cara em cremes (que ja fui comprar para peles sensiveis);

- dormir até tarde e não me preocupar com as horas a que tenho que estar no hospital;

- usar maquilhagem como se não houvesse amanhã, principalmente fond de teint, muitoooo fond de teint, e rimel;

- poder responder a um "o que é que vais fazer hoje?" com um "não sei, não tenho nada planeado!"

 

publicado por Silvina às 02:26

Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010

5a feira

 

Acordo de manhã e tenho algo enfiado na garganta. Não desce, não sobe, imóvel. Tenho vontade de pegar num piaçá, enfiá-lo pela boca e esfregar, até que a garganta desentupa. E ter recorrido a uma imagem destas, de WC, só me verifica o desespero. Levanto-me e precipito-me em direcção à casa de banho. Tusso, cuspo, arranha, insiste, aguenta. Lavo os dentes com a minha escova pós-operatória, cuspo mais um bocadinho. Bochecho com um produto frio e vermelho, que ao gargarejar parece que tenho bolas de sabão dentro da boca. Cuspo-me toda, o espelho da casa de banho fica salpicado de manchas vermelhas. Alívio.

 

Saio de casa, contente e nervosa porque hoje é a consulta semanal com o Lambard. A última consulta semanal. Ele está contente, olha para mim, para os meus olhos com risco preto khol e melancólico, pergunta-me de imediato porque estou triste. "Porque tenho dores", respondo. Hoje é a minha vez de estar mais triste do que tu, Lambard. Faz um esforço para me animar, faz-me rir, observa-me, diz-me que está tudo bem, que o aspecto da minha pele do pescoço está "nickel" (=impecável). E deu-me codeina. Monteeeesss de codeína efervescente.O Lambard é amigo.

 

6a feira

 

Penúltimo dia de radio. Dia de enxaqueca. Dia passa rápido, rápido, passa rápido...

Estou mais contente porque é sexta-feira e está a chegar ao fim a rotina, mas ao mesmo tempo intrigada com o simbolismo do "está quase a acabar". Não, não está. A radio sim, as idas e voltas diárias ao hospital, a máscara, eventualmente as dores. Segunda-feira é o ultimo dia. Segunda-feira acaba a radio e eu vou sentir que entrei no limbo. Que agora volto a ter que ter paciência, a ter que esperar, a ter que achar que acabou quando sei que só se vai acabar em 2014. Quero ouvir o Lambard dizer, em 2014, agora é que acabou. Acabou-se o cancro.

 

publicado por Silvina às 19:35

Segunda-feira, 08 de Fevereiro de 2010

Apercebi-me que para além de leões ainda não tinha postado mais imagens. Faltava aqui um pouco de iconografia...

Tirei esta foto ontem [timezone: fim da 6a semana de radio]. Mostra a zona afectada pela radiação e a minha primeira cicatriz, mais longa, que serpenteia por ali abaixo para cumprir o seu destino e se enfiar numa dobra do pescoço.

Vê-se a vermelhidão típica da pele, como se fosse um escaldão, e o inchaço da zona ali do duplo queixo. Não tenho posto nada na pele para disfarçar o aspecto (nem cremes, nem bases, nem correctores, nadinha), mas saio sempre de casa com um lenço para tapar e também para proteger do frio (boa desculpa para comprar uns 5 lenços novos nos saldos). Na 5a semana senti a pele da cara muito seca e irritada e tinha muita comichão. Agora já está mais sossegadita. é suposto o vermelho desaparecer completamente dois meses após o final dos tratamentos. Vamos ver. Nunca fui muito de andar de vermelho...

 

 


reine clandestine*

 

 

 

*apanhei esta expressão no livro que ando a ler e emocionei-me.


Domingo, 07 de Fevereiro de 2010

Um dos palcos da WWII é dentro da minha garganta.

 

Um dos efeitos secundários da radioterapia é um inchaço na zona do pescoço, inconfortável e doloroso. Para além do que se vê do exterior, o inchaço está também no interior da garganta, o que provoca dores constantes ao engolir e a sensação de que os alimentos ficam sempre a meio caminho, entalados. Por mais que engula e beba litros de água, eles não descem. A sensação não passa. é chato. Nos dias em que estou mais irritada (=dorida) chamo a minha amiga codeina, que me alegra os dias e me acalma as dores. é uma rica amiga. Estou um pouco viciada na nossa amizade...


Sexta-feira, 05 de Fevereiro de 2010

"En ce qui concerne le stress, tout malade ressent le cancer comme une terrible injustice. On a envie d'avoir une cause, un coupable." Françoise May-Levin (cancérologue et bénévole à La Ligue contre le cancer), tirado de um artigo do L'Express.

 

 

Tenho um cancro ORL onde mais de 90% dos doentes são (ou foram) fumadores e/ou alcoólicos. Eu nunca fumei (os cigarros surf que fumei com 9 anos escondida atrás do muro da escola não contam), bebida claro que já bebi, como toda a gente. Sou exactamente como toda a gente. Como muitos legumes, porque faço uma alimentação pseudo-vegetariana -não como carne há 9 anos- mas peixe sim, e ovos, e queijo (hmmm tão bom queijinho de cabra). Porquê eu? Porquê eu, gaja saudável, com 27 anos, com estilo de vida saudável? é a pergunta que não tem resposta nestas histórias de cancro. é um daqueles azares da vida. Há uns bons outros maus. Para contrabalançar, também acho que o amor é um daqueles azares da vida. Senti-me tantas vezes com o rei na barriga, capaz de fazer tudo na minha vida, com total poder de decisão e escolha. Recentemente aprendi que não. Que há mesmo coisas incontroláveis, que se passam malgré nous, que nos invadem a existência e nos acordam de noite, e nos recheiam de stress e mal à l'aise.

Como acredito numa espécie de karma, género what goes around comes around (ja dizia o Bob), também acho que vai haver contrapartida. Ok, agora é o cancro. Sr. karma, o próximo azar que seja uma coisinha mais positiva sim? Para tirar esta barriga de misérias.

 


Quinta-feira, 04 de Fevereiro de 2010

Hoje sinto-me bem. A máscara apertou-me mais do que o normal, mas entrei em zen, pus os dedos das mãos em posição Vitarka Mudra, imaginei ar branco e limpo a entrar-me nos pulmões e ar sujo e negro a sair-me pela boca. Relaxei e o tempo passou mais depressa. Gosto de controlar assim o tempo, eu, que não acredito em nada, que não rezo nem creio em seres divinos. Mas controlo o tempo porque faço gestos com as mãos, respiro concentrada, e o meu cérebro descansa.

 

A seguir foi a consulta. O Dr. Lambard hoje estava diferente. Vestia roupas mais escuras, mais sérias e direitas. Os sapatos também correctos, em tom que combina com as calças. Corte de cabelo diferente, dá-lhe um ar um pouco mais másculo. Vem ter comigo à sala de espera, cumprimenta-me com o olhar e pede um café à voluntária simpática que serve miminhos aos doentes -café, chá, chocolate quente, bolachinhas e conversa amigável. Manda-me entrar no gabinete onde sempre me atende. Salle 1. Sai logo a seguir para ir buscar o meu dossier. Eu também saio logo a seguir porque também quero café, apesar de saber que ele me vai observar a boca com uma lanterna e um pauzinho de madeira, e bafo de café não é lá muito agradável, mas quero lá saber, está quentinho e sabe bem.

 

"ça va?" pergunta-me ele. "ça va, et vous?". Está com um ar triste. Parece que carrega o peso do mundo, e isso combinado com roupa que traz e os ombros curvados faz-me ficar comovida.

"Vous avez l'air un peu triste aujourd'hui", digo-lhe eu, e ele confirma. Diz-me que são os efeitos da profissão. Penso logo que deve ter morrido alguém. Um daqueles velhos com tubos no nariz que vejo nas salas de espera todos os dias. Penso quão corajoso é o Lambard. Fazer daquilo profissão, ver doença humana todos os dias, esfriar quando é preciso, mas manter-se humano e triste outros dias. A tristeza fica-lhe bem assim. Tenho muita vontade de lhe dizer que nem tudo é triste, por exemplo, eu estou aqui, sinto-me bem, ele está a pôr-me boa. Mas isso se calhar é entrar um pouco demais na sua intimidade, não me posso esquecer que ele é francês, não está habituado a este calor humano latino.

 

E pronto. Diz-me que eu estou bem e que para a semana falamos mais um bocadinho. Para ele me pôr a par do que se faz a seguir à radioterapia. E eu para a semana ofereço-lhe chocolates ou outra coisa assim lamechas, para lhe amparar a tristeza e o provocar com uma ameaça de intimidade latina.

publicado por Silvina às 13:01

Quarta-feira, 03 de Fevereiro de 2010

A Carmen já encontrou um dador!

 

E eu vou amanhã à consulta semanal com o Lambard e esta semana tenho um rol de queixumes bastante curtinho!


Terça-feira, 02 de Fevereiro de 2010

A meio da 5a semana, lá estavam eles, à espreita. Preparados para me atacarem como se impulsionados por lobos selvagens, esfomeados e babados. Aguentei-me firme, com paracetamol, leite quentinho e dose extra de paciência. "Il faut être paciente maintenant", disse-me o Lambard. "Je sais", respondi, "mas a paciência não é o meu forte".

 

Mais uma característica que surge com o cancro, que cresce com ele e que tem de ficar depois de ele se ir. A paciência é mesmo uma virtude.

 

A minha pele está seca e cansada. Como um tronco de madeira seco ao sol, pronto a estalar, pronto a pegar fogo por dá cá aquela palha. às vezes faz comichão, às vezes coço, outras arde, e eu sei que não lhe posso tocar. Só mandar água para cima. Daquela que eu gosto, Agua Termal.

 

A minha boca está seca como um lobo saciado. Há uma semana perdi (quase) a voz, porque uma inflamação me assaltou a garganta, acho que foi do frio, com efeito, tem estado aqui bastante frio. Frio é o que não falta. Mas eu já estava seca, agora estou dorida e calada... Not good.

 

Comecei ontem a 6a semana. Pedi a um interno drogas para a garganta, estou farta de cuspir expectoração amarela de manhã e, tirando a pele que arde e a boca que teima em secar, o cansaço mental e a falta de pachorra, olha que porra, eu até estou bem, já merecia umas mezinhas para bochechar e para me desinflamar este corpinho.

 

Concentração. Já só faltam duas semanas e mais um cochicho. Vamos lá!

 


Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010

às vezes vou ler blogs de outras pessoas com cancro. Gosto de sentir a compaixão da miséria alheia. Reparo que em (quase) todos há referências a Deus, ao marido e aos filhos. Eu não tenho Deus, nem marido, nem filhos. Há referências à família, sempre presente e próxima, à casa, o cantinho onde se sentem bem e onde têm os seus hábitos instalados. Eu não estou na minha casa. Estou numa casa que fiz minha à força, enquanto achar que preciso de estar perto do hospital. A minha família está sempre presente, mas nada próxima, geograficamente falando.

 

Mas tenho os meus hábitos instalados, as minhas rotinas que me consolam. Tenho Paris. Tenho amigos. A Gaja, a M., e a Boneca, que vêm cá ter comigo, partilhar comigo este espaço mimoso onde moro, que me acompanham às sessões de radio e  que me mantêm equilibrada, eufemizam-me* as dores, desvalorizam os meus dramas. A elas, e ao resto dos amigos (família incluída!) que estão mais perto ou mais longe desta cidade, obrigada.

 

 

*não sei se existe, mas se não existir, estou-me cagando, a partir do momento em que a escrevi começou a existir :)

publicado por Silvina às 00:26


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