As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

Fiquei tão perturbada com a consulta com o Dr Lambard no dia de S. Valentim que até me esqueci que a data assinala outro acontecimento na minha vida: o fim da quimio e da 2a radio, aquela que mais me custou até hoje e que foi o tudo ou nada. Até ver, deu-me mais um ano de vida. Parabéns a mim!

publicado por Silvina às 22:44

Domingo, 03 de Abril de 2011

Acordo várias vezes à noite para cuspir num guardanapo, que coloco na mesa de cabeceira ao meu lado para não ter que me levantar. Durmo com um resguardo na almofada e um guardanapo ao pé da boca para aparar a baba, que teima em sair, julgo eu, porque me custa a engolir e por isso, à noite, onde a consciência não é rainha, não engulo. Acordo com imensas dores de garganta e tenho logo que ir tomar morfina. Agora já consigo engolir as cápsulas, mas durante mais de um mês tinha de as abrir, deitar o conteúdo numa colherzinha de iogurte e engolir a morfina assim.

 

Continuo com o pescoço inchado, dorido e duro, e de manhã custa-me imenso a recuperar a elasticidade própria de uma gaja de (quase) 30 anos. Pareço uma velha com torcicolo que não sabe para que lado se há-de virar para que doa menos. Depois de tomar a morfina esta sensação passa. Durmo mal porque não sei como parti duas costelas do lado direito, e é para esse lado que me deito, porque do outro dói-me a cara e o pescoço. Encontrar posição para dormir é um tormento. Continuo a só comer líquidos, e a custo, porque me dói a engolir, mesmo com morfina. O jantar demora-me 3h. Respirar também custa, não só por causa das costelas partidas que me impedem de respirar fundo, mas também por causa da garganta, que impede uma respiração normal pela boca.

 

Resumindo: dormir é um tormento, comer também e respirar um tormento um pouco mais pequeno.

 

Mesmo assim faço a minha vida. Ou melhor, tento fazer a minha vida o mais normal possível. Tenho apoio psicológico uma vez por semana. Mais do que o cancro e todas as sequelas físicas dos tratamentos, também é difícil manter o equilíbrio emocional, na nossa relação connosco próprios e com os outros, sejam eles família ou amigos. Tudo mudou e tudo é extremamente difícil. Também tenho sessões semanais com uma terapeuta de sofrologia, uma técnica de relaxamento que ajuda a "desligar" o cérebro por momentos e a encontrar um equilíbrio entre o corpo e a mente. No meu caso isto serve principalmente para lidar com os problemas de insónia. Só adormeço depois das 6h da manhã. Tenho dificuldade em deixar-me ir, em desligar a cabeça e não pensar. Não é que ande conscientemente a reflectir o tempo todo, é mais uma necessidade do cérebro de se manter em controlo, de estar atento a tudo. Não acredito muito em terapias alternativas, mas resolvi experimentar. Faz parte do meu novo eu depois de tudo o que passei - um eu mais emotivo, mais atento ao lado das intuições e sensações. Acordar e deitar-me com dores todos os dias desde há 5 meses muda qualquer pessoa. A dor afecta tudo, o humor, a resistência física, a paciência, e acho que é a minha maior luta: como levar uma vida normal com dor todos os dias, sem deixar que esta dor domine os meus dias. Hoje, por exemplo, é domingo, lá fora chove, tenho uma enxaqueca há 2 dias, fora as dores na perna, pescoço e garganta habituais. Hoje não consigo arranjar força para sair de casa. Mas não faz mal, não vou culpabilizar. Vou aproveitar para arrumar a casa, lavar roupa e cozinhar um belo jantar todo passadinho com a varinha mágica. Sem ilusões, faço o possível para não me desorientar, para não baixar os braços e não me perder no meio de todas as dificuldades, no meio de todas as lutas diárias. Mas estou cansada que todos os dias sejam uma luta. Nunca mais tenho um dia em que posso parar e descansar. Só isso, parar por um dia e descansar.

publicado por Silvina às 16:32

Quinta-feira, 10 de Março de 2011

«Passados quase cinco meses, o jornalista [Jonathan Franklin] ainda mantém contacto com os mineiros e sabe que, para eles, o resgate está longe de terminar. "Não estão muito bem, muitos sentem-se perdidos e não sabem qual o seu lugar no mundo. A sua saúde mental é delicada e eles não gostam da ideia de ter aconselhamento psicológico, apesar de precisarem muito dele."

Numa entrevista recente ao programa 60 Minutes, da CBS, o mineiro Alex Veja contou que está a construir um muro em volta de casa e não consegue explicar porquê. E Victor Zamora disse que tem pesadelos, que às vezes preferia estar morto. "Não consigo ter uma relação normal com a minha família, não sou tão afectuoso com o meu filho." Ele, que "era uma pessoa feliz", ainda não foi resgatado por completo. "O outro eu ainda lá está."»

 

Extracto de um artigo no Publico (http://publico.pt/1484187)

 

 

Situações extremas provocam confusão, desorientação. Fisicamente passa-se por muitas provações, tantas, que a mente tem dificuldade em acompanhar os processos e manter o passo. O tempo psíquico está desajustado em relação ao tempo físico efectivo. O medo da morte e a consciência da sua proximidade eminente provoca a dificuldade de voltar à vida. A vida normal fica hipotecada.

 

Mais do que tudo, é um esforço imenso vencer as sequelas físicas e aguentar os desafios psicológicos com esta arma que temos, que é um corpo já cansado de muitas batalhas, magro e fragilizado.

 

E é por isto que não tenho escrito, não tenho tido tempo para pensar em mim e na minha vida, e o (pouco) tempo que tenho tido dedico-o a outras actividades. Pouco a pouco vou-me habituando a viver assim, em recuperação. No limbo. Já não sou uma pessoa doente, os tratamentos acabaram, passei essa fase, agora o contexto é outro. Mas também ainda não sou uma pessoa normal, saudável. Estou entre-mundos. E o desafio da recuperação é também o desafio da normalidade. Porque se eu conseguir ter dias normais e felizes, fazendo as actividades que sempre fiz, com as responsabilidades que sempre tive, se eu conseguir recuperar o ritmo de vida que tinha antes, então já são dias onde a doença não entra no meu vocabulário, nem na minha mente. São dias onde a doença não me assola as horas livres nem me impede o sono. Estou neste momento em recuperação e lentamente, muito lentamente, a recuperar o meu quotidiano, a reivindicar o direito que tenho em o ter, sem ser imediatamente identificada como adoentada e considerada incapaz de o fazer pelo meu círculo de amigos e família. E nesta etapa confusa, onde recuperar é ainda sinónimo de não estar bem, torna-se urgente demonstrar que recuperar também não é forçosamente estar doente. É sofrer ainda de efeitos secundários mas ultrapassá-los, não os deixando comandar os meus dias. A partir de agora sou eu que mando, sou ditadora na minha vida, dirijo os meus dias como bem entendo. O cancro já não manda aqui. Agora mando eu.

publicado por Silvina às 21:26

Segunda-feira, 07 de Fevereiro de 2011

Não me tem apetecido escrever. é preciso uma certa concentração, que não tenho sentido ultimamente.

Amanhã sou de novo internada. 3a e ULTIMA quimio. Falta uma semana para o fim das sessões de radio. Countdown: 6 tratamentos. Acabo no dia 14 de Fevereiro, dia dos namorados.

 

Nas ultimas semanas muita coisa se passou: não lidei muito bem com a 2a quimio, náuseas, muitas náuseas, perdi peso, passei uma semana no hospital a recuperar, cansaço, dores, todos os dias dores, morfina, mais dores, mais morfina, dores de garganta, dor a engolir saliva, saliva muito espessa, expectoração, noites mal dormidas a acordar de 1h30 em 1h30 para cuspir, às vezes sangue misturado na expectoração, mais cansaço, moral um pouco em baixo.

 

Esta semana sinto-me melhor. Recuperei um pouco da minha força, penso que está quase a acabar, que só falta uma semana. E depois acaba-se a rotina de ir todos os dias ao hospital, e é só aguentar mais 3 ou 4 semanas de efeitos secundários.

 

E depois quero meter-me num avião e sair daqui.

publicado por Silvina às 12:29

Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2011

56kg. Este tópico deixou de ser top-secret. Já não tinha este peso desde os meus 16 anos. Desde 2008 que tentava perder peso, tentei dietas, acupunctura, Pedro Choy, sopas, muita água, saladas, e nada funcionou. Ando há dois anos a comer para não engordar. E de repente, perco peso sem dar por ela e tenho de fazer tudo ao contrário e fazer de tudo para não emagrecer. O mundo está todo do avesso.

E a ironia é que agora posso (supostamente) comer todos os doces e porcarias que quiser, mas ainda tenho a boca à banda e desdentada, ando enjoada e já nem os gelados me sabem bem.

Ao menos, com este corpinho, posso ir gastar dinheiro em lingerie, como fiz hoje, e ficar toda boa do pescoço para baixo.

publicado por Silvina às 23:25


Nestes dias ando vacilando, sendo o sono pouco e o apetite nenhum. Forço-me a comer para não perder mais peso. Tive uma mini crise de pânico porque tenho medo dos efeitos secundários que se seguem, e esse medo paralisa-me e provoca-me um choro descontrolado. Estou a esgotar a minha força, a minha energia vital. Não como o suficiente, não durmo metade do que devia, e a minha energia vital esvai-se, aos poucos... Ânimo abalado, esperança diminuída. Espero que isto seja normal. Que outras pessoas que lutam contra o cancro também já se tenham sentido assim durante uns tempos, e que depois tenham sido capazes de se levantar e não baixar as armas. Eu admito, não é um dia mau, são vários. Estou a vacilar com o cansaço, com as dores, com a perspectiva do que ainda aí vem. Em suma, estou farta de sofrer. Estou farta de ver a minha vida fluir desta maneira, de sentir o meu corpo dorido e inchado todos os dias. Estou farta que a garganta arranhe, que me doa cada vez que engulo saliva. Estou farta de comer líquidos, e de andar coxa porque a ferida da perna ainda não sarou e tenho o tendão à mostra. Estou a falhar na renovação da energia, no roubar força aos outros, no optimismo perene e teimoso. Sinto-me a ir, a fraquejar, devagarinho...

publicado por Silvina às 23:02

Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Mac Taylor: "You're a warrior. If there was one thing I learned over the years, the spirit of a warrior can't be broken."

 

 

 

CSI NY 7x01

publicado por Silvina às 20:09


às vezes faço-me à insónia, como tu dizes. Hoje é (mais) um dia onde me recuso a dormir, não sei bem porquê. Tudo se mistura no meu cérebro lento, os neurónios não processam a info em tempo útil, e esta lerdice dá nisto: a mente que não pára de girar, entornar, cavalgar. Faço-me à insónia ou ela faz-se a mim, não sei (de quem é a culpa), como em muitas outras coisas na vida. Amanhã vou acordar e lamentar as horas que perdi -a pensar, aqui, nisto. E o dia será longo, e ao longo dele terei de me relembrar o que faço eu aqui (uma vez li um livro do Chatwin com este titulo e adorei). E isto é o que uma cabeça faz sem dormir, pensa nas merdices da vida, nas coisas que se poderiam muito bem procrastinar sem que algo de mau viesse ao mundo. "L'enfer, c'est les autres", já dizia o outro, e com isto meço a minha alteridade, viajo nas prioridades dos outros, submeto-me às escolhas dos outros, logo, devo estar no (meu) inferno existencialista. Acho que para conseguir dormir devo renegar essa alteridade, deixar a minha liberdade vagabundear por entre as outras vidas, e, por ai, (re)encontrar a minha.

publicado por Silvina às 02:00

Quinta-feira, 06 de Janeiro de 2011

Cortei o cabelo e sinto-me gira. Importa também mencionar que já não o lavava há 10 dias, desde que a minha mãe me levou ao cabeleireiro na véspera de natal para mimos de lavagem e manicure.

 

Não posso esconder os inchaços nem as cicatrizes. Não posso disfarçar que coxeio (a muleta desmascara-me em 2 segundos), nem que tenho pele falsa e amarelada na cara (e com pêlos, embora mais curtos, porque decidi finalmente perder o medo e apará-los).

 

Mas posso cuidar de mim. Nas coisas que parecem fúteis e supérfluas, como unhas e cabelo, escondo outras façanhas, como reservar tempo para estar sozinha, para pensar, para escrever, para relaxar. Tempo precioso, a partir de agora um fim-de-semana inteiro, que me permite fazer um balanço da semana que passou, dos tratamentos, dos efeitos secundários, das partidas da vida, e preparar-me para a semana seguinte. Para que nunca mais sinta a carruagem à frente dos bois, e os acontecimentos a sucederem-se numa velocidade descontrolada, e eu perdida, a tentar ir atrás de tudo mas a ser ultrapassada pelas circunstâncias avassaladoras. Uso esse tempo para relativizar as coisas, compensar a minha tristeza, renovar energias.

 

Acho que a chave para lutar contra o cancro é renovação. Porque tudo se esgota, a paciência, a coragem, a força, a resistência, a esperança, os pensamentos positivos, o optimismo, o apoio dos outros, a nossa força vital, é realmente essencial conseguir renovar todas estas coisas de tempos a tempos. Ferramentas para fazer isto? Pois, não é muito fácil. Nem eu estou bem certa de como fazer. Algumas coisas que já percebi que ajudam: encontrar forma de conseguir algum equilíbrio e balanço no dia-a-dia e na vida em geral; Rir e sorrir muito; Fazer alguma coisa de proveitoso ou agradável durante o dia (isto pode ser um monte de coisas - ouvir uma musica especial, tomar café com um amigo, ir ao cinema, fazer compras na net, escrever uma carta ou um postal aos amigos, etc, etc); Comer bem; Não pensar em cancro a toda a hora (nem falar disso a toda a hora); Arranjar maneira de minimizar o medo, para que ele não nos paralize.

 

[Amanhã é dia de consulta semanal com o Lambard. Não fiz o trabalho de casa vulgo lista de perguntas. Shame on me.]

publicado por Silvina às 01:20

Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

Entretanto já fiz as primeiras 2 sessões de radio.Correram bem. O inicio é sempre muito fácil.

Counting down:

 

33

32

31

30

29

...

publicado por Silvina às 19:08


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