As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Quarta-feira, 17 de Agosto de 2011

Na semana passada foram análises ao sangue. Hoje foi a punção aspirativa por agulha fina (PAAF), a um novo nódulo que me apareceu há umas semanas na nuca. Quando reparei nele pensei: "Oh não!..." Depois enfiei a cabeça na areia e decidi não me preocupar por uns dias. Não costumo fazer isso, enfiar a cabeça na areia, não querer saber. Mas acho que o medo (terror?) que sinto justificou a reacção incaracterística.

 

Finalmente, depois de algum convencimento por parte de duas amigas, lá me decidi telefonar ao médico e fazer a panóplia de exames que me irão permitir saber. E agir em conformidade. Pode não ser nada, ou pode ser o balde de agua fria mais absoluto.

 

Tenho a cabeça a ferro e fogo. Sou incapaz de sequer conceber passar outra vez pelo que passei em Janeiro e Fevereiro. Não tenho estaleca para mais tratamentos, nem vontade, nem coragem. Por isso este alto vai ter que ser só um gânglio inflamado, que eu, sinceramente, já tive a minha conta.


Quinta-feira, 14 de Julho de 2011

De vez em quando encontro umas frases giras sobre a arte de não fazer nada:

 

"La verité est que dans la vie humaine, la plupart du temps, il n'y a rien à faire et que par conséquent l'homme sage -ou la femme- est celui qui cultive l'art de ne rien faire."

 

in Bangkok 8, by John Burdett

 

Pois é a isto que se tem resumido a minha vida -sábia- nestes últimos tempos: cultivar a arte de não fazer nada, e lidar (ainda) com os efeitos secundários.

publicado por Silvina às 19:13

Domingo, 03 de Julho de 2011

Pronto, a minha actividade física -ou o famoso ginasticar da Rua Sésamo- resumiu-se a duas idas ao ginásio até ficar doente outra vez. Nada a ver com cancro. Desta vez foi uma contractura muscular (não sei se se diz assim), que me obrigou a andar de coleira (leia-se, colar cervical) três dias, e aumentar a minha dose de medicamentos para o triplo. Bonito.

 

O objectivo do ginásio era ficar mais saudável, mais tonificada. Em vez disso fiquei de cama, com dores do caraças e de coleira enfiada.

 

Isto ilustra o que é a recuperação de um doente com cancro: longe de ser uma curva ascendente, onde cada dia estamos melhor, é mais uma montanha russa, onde num dia estamos benzinho e no dia a seguir na merda, e onde temos sempre por companhia uma data de comprimidos.

 

Começo a desesperar.

 

Queria tanto voltar a sentir que tenho o controlo da minha vida, que posso fazer as coisas que me proponho fazer, que tenho todas as condições para alcançar os meus objectivos. É que determinação não chega. Por mais determinada que esteja não posso apagar as dores e injectar saúde neste corpo. Tenho que me conformar. É isto que me põe doida; eu que NUNCA fui pessoa de se conformar com nada -aliás, o meu lado rebelde impede-me de aceitar conformismos-, sou agora obrigada a fazê-lo. O cancro dá cabo da personalidade de qualquer pessoa. É-se obrigado a mudar sem o queremos.

 

Sempre vi a mudança como uma coisa inerentemente positiva, parte do meu carácter meio nómada. E aceitei-a até aqui sem medos, porque a mudança faz parte da vida. Mas só é bonito (como o 25 de Abril) se a pudermos escolher. Quando é uma mudança imposta, que nos transfigura para pior, o desafio de a aceitar e de aprender a transformar a mudança numa coisa positiva é enorme.

 

Por isso nunca se pode voltar a ser quem se era antes do cancro. Simplesmente, não é possível. E assim tenho que me reinventar, quando estava tão bem na minha pele antes do cancro. Agora sou forçada a ser outra pessoa, parece que tive que nascer de novo. E nascer dói. Por isso é que considero esta fase (da recuperação, da remissão) a mais complicada no percurso para a cura. É quando se precisa de mais apoio, porque temos que reaprender basicamente tudo sobre nós próprios. Os nossos valores e referências mudam para sempre. De repente, já não temos chão. O que considerávamos sagrado torna-se profano. Tudo gira do avesso, e somos apanhados no meio deste turbilhão de medos, emoções e mudanças não pretendidas.

 

40% dos doentes de cancro nesta fase desenvolvem uma depressão. A sensação de incompreensão é maior do que nunca. Numa altura em que toda a gente julga que nos devemos sentir aliviados e felizes por estar em remissão é quando nos sentimos mais pressionados e tristes, onde os nossos medos emergem e o pessimismo que temos a priori se expande, incontrolável. Todas os problemas que antes do cancro já tínhamos dificuldade em ultrapassar agora aumentam exponencialmente. Auto-estima? O problema aumenta para doses inimagináveis; Desequilíbrio? Stress? Idem, idem, aspas, aspas. E não há ninguém, nem comprimido nenhum que nos salve. Temos de estar à altura, e sair da sombra deste contexto, reinventar formas de vida, reconstruir uma pessoa inteira do nada, e procurar pedacinhos do quotidiano que façam sentido, que nos tragam uma certa (ilusão da) felicidade.

publicado por Silvina às 15:13

Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

A nova é ir inscrever-me no ginásio.

 

Ando há 1 mês e 3 semanas a ameaçar. E a dizer "amanhã é que é!".

 

E com toda a convicção, volto a dizer: amanhã vou mesmo!

 

:)

publicado por Silvina às 00:46

Segunda-feira, 20 de Junho de 2011

é basicamente isto. Apanhei um verdadeiro cagaço de morte. 1 ano e tal depois do meu diagnóstico com carcinoma muco-epidermoide tomei consciência da minha mortalidade e que podia mesmo morrer disto. De cancro. Aos 28 anos.

 

O resultado de ter entrado em remissão há cerca de um mês é que tenho pressa de viver. E não é raro o dia em que pense que devia ter feito mais, e melhor, e que culpabilize, porque sinto que não estou a aproveitar o que devia.

 

Por outro lado, ainda estou em recuperação e há mesmo uma data de coisas que não posso fisicamente fazer ainda, outras que não poderei fazer nunca mais. Se por um lado é preciso ter paciência e dar tempo ao tempo, por outro sinto um fogo no rabo, uma pressa de fazer coisas que me impede por exemplo de dormir, porque sinto que é tempo perdido. Tempo inconsciente, tempo onde estou desligada, parada. E parar é morrer, logo... Pois. Logo, insónias há 4 meses. E frustração constante com os dias que nunca são suficientes, nunca são completamente satisfatórios, nunca chegam.

 

O paradoxo não fica por aqui. Se vou com calma, respeito o meu corpo e o meu novo ritmo, e não me esforço fisicamente o suficiente, acabo por me acomodar à situação e não tento evoluir mais; Se me esforço demasiado, fico ainda mais cansada e ai é que o corpinho dá de si e simplesmente não aguenta. é como na fisioterapia: se se dobra o joelho é bom, e temos que dobrar senão ele não recupera o movimento; mas se dobramos e esticamos muitas vezes e rápido podemos dar cabo das articulações. E esta espécie de equilíbrio é mesmo difícil de atingir.

 

E acaba por me condicionar os planos de trabalho, porque nunca sei se me estou a esforçar demais ou se estou a usar a cancer card para procrastinar.

 

 

Além do esforço vs. cansaço, há ainda outro duo com o qual me confronto todos os dias: o carpe diem vs. planear (ou preocupar-me com) o futuro.

 

Tenho que viver no presente e não projectar a minha vida para o futuro. Porque a verdade nua e crua é que eu só tenho o hoje. O amanhã para mim não existe, e o futuro está hipotecado, pelo menos até passar a barreira dos 5 anos.

 

Como é que se vive no agora com pressa de viver, com limitações físicas, com uma vida desgovernada, incapacitada de sonhar ou de planear o meu trabalho no futuro (trabalho na área de investigação, por isso é mesmo importante planear projectos e objectivos a médio/longo prazo)? Como é que esse agora, nesses termos, pode ser satisfatório (reparem, não ouso dizer "feliz", uma vidinha mediana já me bastaria)?

 

Lutei para viver, não foi para deixar o tempo passar à espera de melhores dias. E viver não é só o contrário de estar morto, como diz a outra, não é só respirar e existir um dia a seguir ao outro; viver tem que ser mais que isto, tem que significar algo, tem que ter um propósito.


Sábado, 11 de Junho de 2011

Meti-me num avião low-cost e fui 4 dias a Itália. As minhas primeiras férias desde Setembro, porque para mim férias é quando finalmente posso/consigo desligar do cancro, e tenho saúde suficiente para me bazar de avião. Não foi fácil ter que enfrentar o olhar dos outros quando tentava sorver massa no restaurante, nem quando demorava 1h30 para comer uma pizza com bocados a sair pela boca. Não foi fácil tentar falar italiano, sobretudo porque nem quando falo a minha língua materna me percebem bem. MAS valeu a pena. Fui, descansei, andei kilometros, vi paisagens lindas, e provei a mim própria que consigo viajar sozinha, como dantes. Vi uma menina bonita no comboio e quase que chorei porque ela tinha um pescoço que me fez lembrar o meu há uns tempos, antes de ser massacrado. Tive que me concentrar para expelir a emoção e parar de choramingar o que perdi para sempre. Tenho esse longo caminho pela frente, ter de aceitar que mudei e não me sentir fragilizada por isso. E tomei a decisão de fazer uma cirurgia plástica assim que puder. Não quero que ninguém saiba o que passei só de olhar para mim. Reivindico o privilégio de ser eu, e não o meu pescoço, a contar a minha historia.

publicado por Silvina às 23:42

Terça-feira, 31 de Maio de 2011


Noir Désir - Le Vent Nous Portera par Noirdesir-officiel
publicado por Silvina às 01:33

Sábado, 28 de Maio de 2011

 

Os exames estão todos bons. Estou oficialmente em remissão, depois de 1 ano e 8 meses de luta. Estou na primeira etapa para a cura e ainda me custa a acreditar. Agora é fazer o impossível e viver um dia de cada vez, sem pensar nos próximos exames que serão daqui a 3 meses. *Até aqui tudo bem, como diz o titulo deste post. é tempo agora de tratar de mim, de me respeitar mais, de lutar TODOS os dias para viver em pleno, presente nas minhas acções e respirando a fundo cada momento. Quero fazer o máximo desta vida.

 

Por isso é que não aceito a tendência que tenho para o pessimismo, para os estados depressivos, para os episódios de bulimia, para as preocupações extremas, a baixa auto-estima e a falta de confiança em mim própria. O cancro dá uma grande lição de vida a uma pessoa, mas não a repara; as coisas que estavam estragadas continuam a estar presentes e a ser problemáticas. Só que agora tenho mais vontade de resistir a esse lado negro da força, e digo e repito a mim própria que a luta é para toda a vida, todos os dias, e que se não baixei os braços e lutei contra o cancro, também não é agora que os vou baixar.

 

Vou lutar para que a minha vida faça sentido, para deixar de existir e começar a viver. "Il est temps de vivre la vie que tu t'es imaginée." (Henry James), pode ler-se num postal colado na parede do meu quarto. E foi preciso um cancro para me aperceber disto. Para acordar da vida de dormência existencial que tinha antes. Parece que andei adormecida, a passear pela vida, entretanto passaram uma data de anos e eu nem me lembro do que andei a fazer. Espero que o próximo despertar aconteça sem tanto drama, e que me seja mais fácil estar atenta a mim e não me deixar chegar ao ponto de inércia característico desse viver em standby.

publicado por Silvina às 22:37


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