As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Domingo, 15 de Julho de 2012

Estas últimas duas semanas têm sido um bocado chatas. As dores continuam, a minha saga com a morfina também, sinto que estou sempre a tentar acertar a dose; nos dias em que tenho sorte a coisa vai, nos outros acordo invariavelmente às 5h da manhã com dores. Estou constantemente cansada. A radio começou 2a e acabou 6a. Radio-fulminante. Foram só 5 sessões, mas porra, estou cansada. E com as mesmas dores de antes.

 

Esta semana andei a correr hospitais de novo, pela primeira vez levei o almocinho numa lunchbox e comi no hospital. A lunchbox tinha sido comprada há uns tempos para levar a merenda para a biblioteca. Afinal estreei-a no hospital. No dia anterior o N. apareceu cá em casa com uma quiche, salada, pão, entradas, tout ce qu'il faut para um belo jantarinho. Fiquei com comida de sobra, e soube mesmo bem abrir o frigorifico e já ter tudo preparado. Foi só meter dentro da caixa e juntar uma maçã. Nestes dias em que está na moda a poupança, ando mesmo poupadinha: nada de saldos porque a perna não deixa; compras, só mesmo o essencial do essencial, o que faz com que ande a gastar metade do que gastava semanalmente no supermercado; não vou a restaurantes nem cafezar com os amigos, o que também é uma santa economia; não saio à noite e ainda não fui ao cinema. A vida contada assim até parece triste.

 

E até tenho andado triste. São as férias, em Paris chove e troveja, e quase toda a gente se foi. O Dr Lambard incluído. Vou estranhar a ausência de 3 semanas, vai-me custar e vou ter saudades (e disse-lhe). Vou também mudar de hospital, se o tal ensaio clínico se concretizar, por isso, e pela ausência dele, sinto-me lançada na natureza, clinicamente por minha conta.

 

Por minha conta, em modo de repouso absoluto, eremita assumida, tirando quando o N. me traz quiche.

 

Nestas alturas é difícil controlar a inveja e os ciúmes. Das pessoas que partem de férias, que podem meter a vida em pause por uns dias, que podem recarregar energias, vencer o cansaço, ver novas paisagens, deixarem-se ir, inspirarem-se, reencontrarem-se. Comparando isso tudo comigo, que tenho que cá ficar, lidar com exames, médicos, hospitais, metástases. Invejo tanto os outros nestas alturas. As vezes fico tão desesperada de inveja que até choro, porque é injusto, porque também queria ir de férias, descontrair, passar bons momentos, rir sem rede de segurança. O meu lado negro de invejosa em todo o seu esplendor.

publicado por Silvina às 12:17

Obrigada querida Me. é a mensagem que mais gosto de ler no teu blog. Como viver feliz com o que se tem, como viver em pleno.
Também me faz uma certa confusão as pessoas que se queixam a torto e a direito. Mas as pessoas não conseguem perceber. Até perderem eles próprios a saúde, ou alguém bastante próximo, não conseguem dar valor ao que já têm. Eu própria não entendia quando a minha avo me dizia "Filha, o bem mais precioso que temos é a saúde.", pensava que era conversa de velha. E que, mesmo sendo verdade, aos 20 e tal anos não me tinha que preocupar com isso.
Ainda hoje tento valorizar os dias "com saúde" (melhorzinhos, vá) que tenho, penso que há pessoas que estão hospitalizadas ou que nem sequer podem sair de casa. Eu ainda posso (mesmo coxa)... :)
Um beijinho* e segura esse café da esquina, que quando eu voltar a Portugal combinamos!
Silvina a 17 de Julho de 2012 às 22:34

Cafézinho mais do que "segurado"!

Até lá, paletes de energia para ti! E o melhor!

Um grande beijinho
Me a 18 de Julho de 2012 às 13:13



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