As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Quinta-feira, 07 de Fevereiro de 2013

O tempo nao conta quando nos estendemos numa cama de hospital. Quando sentimos as dores, e sabemos que vieram para ficar, quando fechamos os olhos mas nao conseguimos antever quando sairemos dali. O tempo nao conta, mesmo no conta-gotas do soro e do resto dos produtos que nos injectam. Nao conta quando um cortejo de enfermeiras e médicos  passam por nos, de dia e de noite, quando finjem que nos deixam dormir, quando inventam artimanhas para nos pôr a arrastadeira em vez de nos levarem à casa-de-banho. Agora jà aprendi, digo sempre que nao vou so urinar... é a minha mentirinha diaria, porque tambem ja nao conta a todas as horas a quantidade de sinceridade que trazemos no sangue.

Terça-feira, ultimo dia de Janeiro, fui para as urgencias. Umas horas depois estavam a abrir-me a barriga e a operarem-me furiosamente a um derrame pericardio, a uma peritonite e a um ovario que teve o desplante de se transformar num quisto. Além de novos e longos drenos no peito e no abdomen, sai da mesa do bloco one-ovary-woman. Nao é que pensasse ter filhos com um cancro em estadio 4 e metastases no cerebro, mas agora sei mesmo que nao posso. Sem cinismos, o que me custa mais é o dreno espetado no peito e os 2,3l de liquido que tem la dentro. Uma vez mais nao morri. Ainda nao foi desta, mas as coisas ruins continuam a acontecer, continuam a nao dar treguas. Uma vez mais vi os meus planos a irem por agua abaixo, e a unica coisa que tinha ousado planear este mês a nao acontecer. Porque fui para o hospital, e ali nao ha planos. Ali o tempo nao conta.

(poste em directo do hospital, onde também nao tenho acesso a um teclado com acentos...)
publicado por Silvina às 04:59

Mais planos virão que poderás concretizar, que irás concretizar mal sais daí!
Um forte abraço, Silvina.
Mammy a 8 de Fevereiro de 2013 às 01:17

Coragem... um abraço.
Tatiana a 8 de Fevereiro de 2013 às 11:58

faço parte dos que não te conhecem, mas é como se conhecesse. Acompanho-te à distância com admiração por tudo o que és. Faltam-me as palavras certas, mas deixo um abraço grande de uma amiga que ainda não conheces.
zavi a 8 de Fevereiro de 2013 às 14:44

Silvina, minha querida, sou de uma terra que é também a de um escritor famoso (Fialho de Almeida) cujo lema era "miando pouco, arranhando sempre e não temendo nunca".
Não sei porquê, lembrei-me disto ao ler o teu post.
Eu sei que o medo existe, e como! Mas como tu o enfrentas, não conheço ninguém! És uma leoa, como não existe outra. Por isso te amamos e admiramos tanto! E tememos por ti! Sabes? O melhor é acreditarmos que há planos para nós, em algum lugar e Alguém está tomando conta ... Pensar assim pode nos ajudar a enfrentar o que não entendemos. Mantém a tua força. Mil beijos, minha querida, estás num dos melhores cantinhos do meu coração! Fatima P.
Fatima Padinha a 8 de Fevereiro de 2013 às 15:40

De coração apertado mas com a certeza de que este episódio passa já já...
Bjos!
Cláudia
Cláudia S. a 8 de Fevereiro de 2013 às 17:22

Um abraço de força Silvina! bjs desde Portugal
Mafalda a 9 de Fevereiro de 2013 às 01:05

porra! outra vez????
(desculpa o desabafo, mas estou contigo... em pensamento...)
beijinho Silvina... :(
Monóloga a 9 de Fevereiro de 2013 às 12:03

Acabei de chegar aqui.
Quero deixar-lhe um enorme abraço e desejar que melhore o mais rápido possível!

Beijo :)
Este blogue precisa de um nome a 10 de Fevereiro de 2013 às 12:33

um GRANDE abraço...não sei que mais escrever *
Ines N a 10 de Fevereiro de 2013 às 21:10

Um grande beijinho com muita força e coragem.
Susana a 11 de Fevereiro de 2013 às 08:25



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