As minhas estatísticas não são boas. Já há muito que o sei. Desde o inicio que o Lambard se recusou a dar-me previsões da tal probabilidade de sobrevivência a 5 anos. E eu também nunca insisti muito no tópico; Primeiro porque nunca gostei de estatísticas, sempre achei uma forma matemática forçada de organizar tudo dentro do mesmo saco, de estabelecer uma normalidade e uma "média" que sempre me irritaram, porque não gosto de ver o mundo assim. Gosto de pensar que não me encaixo nas estatísticas, que sou uma anomalia, que de qualquer maneira com cancros raros as estatísticas não servem de muito porque não existem toneladas de dados e de estudos clínicos para poder extrapolar conclusões válidas. Segundo, porque as estatísticas de certo modo toldam-me a esperança. Ouvir dizer que temos 20% de hipótese de sobreviver, e que esse número diminui em caso de recidiva e ainda mais em caso de metástase, não alegra ninguém.
Portanto, eu e os meus médicos não falamos de números. Falamos sim, da incerteza. "Se me perguntar se estará cá daqui a 6 meses, eu não sei. Se me perguntar se estará cá no Natal, eu também não sei." Foi isto que ele me disse quinta-feira. Não me pôs uma data de validade, género, "dou-lhe um ano de vida", disse simplesmente que a medicina convencional não me pode garantir nada, que não há forma de saber. O que tem a sua lógica, afinal, não conheço ninguém imortal e vamos todos morrer mais cedo ou mais tarde, e nunca ninguém sabe a data exacta. O meu problema é que perdi as ilusões que qualquer pessoa de 29 anos tem, ou seja, que vai chegar a velha e que nessa altura pensa na eventualidade da morte.
Eu tenho que pensar na morte agora. E na vida. Porque uma não existe sem a outra. Conheço algumas pessoas que acham que vivem mas no fundo estão já meias apagadas, porque as suas vidas não têm sumo, nem prazer, nem alegrias, nem grandes conexões humanas. Penso na morte, e em como prepará-la como deve de ser, mas também penso na vida. Eu, Silvina, gaja sem marido nem filhos, o que é que me estimula? O que é que me dá alento? Como é que justifico continuar a lutar mesmo com tanto sofrimento? O que me resta da vida, desta minha vida de agora? Pergunto isto de um ponto de vista existencialista (egocentrista, vá). Óbvio que posso lutar pela minha avó, pela minha irmã, pelos meus pais, pelos meus amigos. Mas o que é que me faz mesmo lutar por mim? São os meus valores? As minhas prioridades na vida? Os meus sonhos e objectivos? As coisas que ainda quero fazer? O contributo que ainda tenho para dar ao mundo? A esperança que um dia ainda vou viver uma história de amor verdadeira?
Intimamente sei que o caminho a seguir nestes próximos tempos passa pela auto-descoberta e pela aceitação. E, se calhar, é isso que me vai dar alento.

