As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Terça-feira, 20 de Dezembro de 2011

A sala está cada vez mais composta. Não sei se é por ser Natal, mas apercebo-me que aparece mais gente acompanhada. E isso mitiga-me a solidão que por vezes se instala, isso e a árvore de Natal colorida e foleira que montaram na sala de espera.
Todos os dias chego atrasada, mas todos os dias eles (=o serviço) estão ainda mais atrasados do que eu.
Hoje estão aqui dois rapazes da minha idade ou mais novos que partilham a espera, pois só um deles está doente. Lembram-me tempos idos, e tenho vontade de perguntar o que fazem aqui, mas mais uma vez não digo nada. Apesar da árvore, e da época natalícia a combinar, esta sala de espera não é para convívios...

publicado por Silvina às 20:48


Pacientes que têm boa relação com seus médicos cuidam mais da própria saúde

Estudo analisou como as relações entre médicos e pacientes afetam os cuidados com a saúde destes fora dos consultórios

 

Os pacientes que sentem que são tratados pelos seus médicos com respeito e justiça, que comunicam-se bem, e que se envolvem com eles fora do ambiente do consultório são mais ativos em seus próprios cuidados de saúde, aponta estudo publicado na revista Health Services Research.

 

Artigo completo no Isaude.net.

publicado por Silvina às 20:43


Detesto quando vou tomar café com uma pessoa que no final ou no dia seguinte me diz, com ar tonto como se tivesse acabado de ver um elefante cor-de-rosa: "Ah, mas estás tão bem! Fiquei agradavelmente surpreendida!"
E eu penso: "Pois é, sua vaca, não me pões a vista em cima há 2meses, não fazes ideia do que ando a passar nem queres saber porque não consegues lidar, olhas para mim como se eu fosse um cancro reencarnado, e quando eu me transvisto de pessoa normal e evito partilhar contigo as minhas angústias e medos, só ai é que pões o teu ar maravilhado..."


[Há dias que sou mesmo muito puta. E gosto.]

publicado por Silvina às 05:23
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Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2011

Voilà, já está, já estou em casa. Nunca pensei que fosse tão rápido. Levaram-me para o bloco, tirei os brincos, pulseiras e anéis, vesti a bata clássica de bloco com as pantufas e a rede no cabelo e siga para a sala de operações. Desta vez levei as lentes de contacto, o que me permitiu ver tudo ao pormenor ao contrário das outras vezes. Claro que tive que fazer um esforço enorme para não saltar da mesa de operações e desatar a correr dali para fora, mas o Dr. Greg, fofinho como sempre, lá fez umas piadas e acalmou-me os nervos. Desta vez não falou com voz de bebé, mas pouco faltou. Ainda lhe pedi para ele se esmerar e fazer uns pontinhos bonitos, tá bem que são só três, mas isto no pescoço querer-se ligeirinho. Finalmente vi um gânglio ao vivo e a cores, assim que ele o tirou eu pedi logo para ver. Parecia uma pequena pérola branca, olhei-o bem nos olhos (que é como quem diz) e pensei: "só espero que não tenhas cancro, tu também!"

 

Agora é esperar uma semana pelos resultados. E não posso lavar o cabelo durante uma semana... (olá shampoo seco da Klorane!). E esperar que não tenha dores, e realizar que acabei de ser operada (!!!) pela OITAVA vez (!!!).



Quarta-feira, 23:30. Reparo num altinho no lado direito do pescoço. Pensei logo "merda, um gânglio. Here we go again!". Envio mail ao Lambard a dar-lhe parte da descoberta.

 

Quinta-feira, 12h. Consulta com o Lambard. Muitas novidades, muita coisa para gerir (novos exames, quimio, cateter).

 

Sexta-feira, 10:30. Telefonema do Lambard, que por milagre não me acorda. "Pode estar ao meio-dia no hospital X? O cirurgião vai vê-la e em principio opera-a já hoje à tarde com anestesia local". Numa hora comi, tomei banho, arranjei uma mochila com livros, escova de dentes e um par de cuecas (porque nunca se sabe) e voei para o hospital.

 

[Penso naquele sketch dos gatos, onde o RAP imita o Marcelo Rebelo de Sousa a pronunciar-se em relação ao aborto. "Vou ao cinema, ou vou abortar?" Eu acrescentaria: "vou ao cinema, à faca, ou vou antes abortar?".]

 

14:30. Depois de um almocinho rápido na cantina do hospital, que por acaso é aquele cheio de gente gira e jovem, espero que o médico esteja pronto para me receber no bloco. Aparentemente depois da cirurgia posso ir para casa "a correr", disse ele. Há pessoas que vão ao dentista (ou ao cinema); Eu vou tirar gânglios... Depois conto como correu.


Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

Hoje. Sala de espera do Lambard.

 

De repente aparecem 2 velhotes seguramente meio loucos, um deles quase careca e o outro com a esposa. O quase careca treme muito, o Lambard vai-lhe buscar um xanax e ele toma-o logo com sofreguidão à minha frente. Continua a tremer e a mexer em muitos papéis, eu tento ajudá-lo na sua organização caótica e digo-lhe como fazer para chamar o táxi e que papéis tem que entregar ao taxista. Ele sossega mais um bocadinho, mas não muito. A psicóloga vai-lhe fazer fotocópias da papelada para o táxi e depois leva-o para o seu gabinete. Fico sempre egoisticamente aliviada quando vejo gente pior do que eu. Mas este senhor careca fez-me rir cá dentro, e espero mesmo que ele se sinta melhor em breve. O outro senhor entrou com a esposa no gabinete do Lambard. Nesse momento a psicóloga diz-lhe "Lambard, tu prends Silvina après?" Ele sorri com ar malandro e diz que sim. É que em francês, prendre quelqu'un tem um segundo sentido, de natureza erótico-sexual... Eu esboço um sorriso bem coradinho e digo "Eu espero. Até já..."

publicado por Silvina às 15:02

Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2011

Tenho mixed-feelings em relação a estes grupos de apoio, groupes de parole, como se diz aqui na França. Grupos de palavra, de discussão, que são suposto serem fóruns abertos onde doentes com cancro podem trocar experiências entre si. Em Outubro fui a uma destas sessões, organizada pela Liga contra o Cancro cá do burgo. Sai de lá com uma enxaqueca, e ainda hoje não percebi se gostei ou não. Daqui a uma hora há outra reunião e ainda não decidi se vou ou se vou antes ao cinema.

 

O meu problema é que não há dois cancros iguais. As experiências das pessoas que lá estavam, embora tocassem a minha nalguns pontos, também se afastam bastante. Se por um lado não me importo de ouvir os queixumes dos outros, às vezes também não me faz bem fazê-lo, porque interiorizo demais. Uma coisa é um queixume no momento, outra é uma profunda tristeza e um sentimento de abandono que perdura todos os dias na vida daquelas pessoas. Excepto uma mulher meio doida que aos 60 anos foi fazer trekking para o Nepal (loved it!), as outras habitavam corpos gastos pela doença, e deixaram que esse habito lhes toldasse os movimentos, lhes limitasse os dias. São mulheres quebradas, marcadas para sempre com um ferro a ferver, e ainda sentem esse sabor amargo na boca. Foi isso, acho, que me perturbou mais.

 

Não gosto de ver pessoas dadas por vencidas, pessoas vergadas pelo peso e a memoria de tanto sofrimento. Tive vontade de as pegar ao colo, uma por uma, e ao mesmo tempo sacudi-las e dar-lhes uma chapada bem dada! Tive vontade de subir para cima da mesa, pôr a musica aos berros e começar a dançar. Tive vontade de lhes mostrar que estão vivas, que por enquanto ele -o cancro- ainda não lhes ganhou! Tive vontade de lhes dar uma injecção de adrenalina e de lhes chutar para a veia a matéria de que são feitos os sonhos. Vontade tive, mas não fiz nada disso. Fiquei ali caladinha a ouvi-las, fui para casa com uma enxaqueca e sem conseguir parar de pensar naquelas vidas.

 

[Há momentos onde me sinto mesmo bem em eu ser eu, assim como sou. Porra]

publicado por Silvina às 15:40


"Diz-se que um aniversário é uma celebração da vida e, apesar disso, ninguém celebra. Ontem choravas de felicidade nessa celebração, festejavas o estares viva e pouca gente saberia isso. Ninguém percebeu que aquele momento era o firmar de uma ressurreição, aquela que, só por ser para ti, eu até acredito. Ninguém entendeu que era um renascimento, uma vitória e uma prova de resiliência."

 

 

No This is not simply a Methaphore. Clicar aqui para continuar a ler.

publicado por Silvina às 00:32
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Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2011

E porque nem tudo é mau nestes meus episódios a brincar com o cancro, cá vão algumas fotos do meu quarto de hospital (público) durante a 7a operação.

 

(P.S.- Para aqueles que querem destruir o Serviço Nacional de Saúde em Portugal e acham que seguros e clínicas privadas é que é: ponham os olhos nisto! Onde TODA A GENTE tem o direito a ser bem tratada, e em óptimas condições. P.S.2- Sabem que se tiverem cancro as seguradoras privadas já não querem saber de vocês?)

 

 

 

 

 

 



A arte da fuga para a frente é algo que a mim não me assiste.

 

 

 

[inspirada pelo Hélio]

publicado por Silvina às 17:03


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