As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Sexta-feira, 09 de Dezembro de 2011

Não sei se é a minha força que os desconcentra, que os destabiliza. E o aconteceria se eu precisasse mais? Se eu fosse mais carente, mais duvidosa de espírito, menos aguerrida e mais adocicada? Seria mais fácil para os outros me ajudarem, sentido-se úteis e menos impotentes (apesar de não poderem resolver o problema, metiam a mão na massa).


Mas o que me aconteceria, a mim, que sustento a minha luta no movimento constante, que centralizo a minha força para controlar o que ainda é controlável, que me construo enquanto guerreira contra a adversidade, seja ela cancro ou outra qualquer? O que me aconteceria, se me enchesse de sentimentos de culpa, mentisse a mim própria, mascarando esta realidade que sinto, que é a minha? O que me aconteceria se não tivesse a coragem de, lutando contra um cancro, dizer o que penso, o que sinto, o que preciso?


(Farta deste mundo que julga à distância, que enfia sapatos imaginários que nem sequer são o seu numero, que cala e foge como se a maldade, a doença e a morte não existissem.)


Mantenham os silêncios enterrados, porque enquanto eu tiver voz hei-de os quebrar.

publicado por Silvina às 16:57


O que se segue é um pormenor nada abonatório da minha vida de gaja ethno-chique parisiense: tenho feridas no nariz. Por dentro, mesmo junto à abertura do nariz, sobretudo do lado esquerdo, e consequentemente tenho a ponta do nariz bem vermelha a fazer lembrar a rena pirosa do pai natal, uma bicha chamada Rudolfo. Merde alors.

publicado por Silvina às 16:56


Não sei se estar na sala de espera para a consulta semanal com o Dr Lambard a ouvir o "Just want to make love to you" da Etta James é muito boa ideia...

publicado por Silvina às 14:58

Terça-feira, 06 de Dezembro de 2011

Primeiro dia de radio. Sala de espera quase deserta, excepto um velhote que me olha com ar inquiridor e uma senhora de meia idade numa cadeira de rodas e olhar vazio. Lê uma revista. Eu penso no Dr Lambard, quando deveria estar a meditar sobre a minha condição de doente radio-oncológica.


(entro na sala de radioterapia em bikini, deito-me mas não estou na praia, refilo porque tenho frio)


E quando a maquina começa a girar à minha volta, as terríveis interrogações invadem-me a cabeça, mais uma vez. "Porquê eu?" "Será que isto vai funcionar?" "E se não funcionar?" "Devia estar a sentir os raios, devia estar a visualizá-los a atravessarem o meu corpo e a queimarem as células cancerígenas..." "Devia, mas não estou." "Merda."


Saí da sala de tratamentos com vontade de chorar. Começou tudo outra vez.


(puxei o fecho do casaco até acima e fui-me embora, a pé para casa, debaixo de uma chuva miudinha)

publicado por Silvina às 00:56

Domingo, 04 de Dezembro de 2011

Noutro dia alguém me disse que não teria a minha força, que não teria nunca aguentado tudo o que eu passei (vide post "cancro: como tudo começou"). Eu própria às vezes não sei como o fiz/faço. Se me tivessem dito no principio, em Outubro de 2009, que eu iria passar por 7 cirurgias, 4 tratamentos de radioterapia, quimio, e tanto sofrimento, eu não teria acreditado. Teria mesmo mandado tudo à merda e ido dar a volta ao mundo com o tempo que me restava.

 

Então como é que eu fiz/faço? Uma coisa de cada vez. Porque sim, eu passei por isso tudo, mas não foi tudo ao mesmo tempo! Foi uma coisa de cada vez. O Dr. Lambard também me ensinou que uma coisa vem depois da outra: primeiro trata-se do mais urgente e perigoso, depois, com calma, pensa-se no resto. Faz-se um plano, elabora-se uma estratégia. E este plano tem de ser reavaliado a cada passo, a cada etapa. Exemplo com o cancro (aplicável a outras vertentes da vida): 1° opera-se o pulmão, que é mais urgente. Depois radio para o gânglio. Se a radio funcionar, muito bem. Se não funcionar, novo brainstorming, novo plano. E assim por diante...

 

Estou mesmo convencida que esta é a forma de resolver problemas na vida. Não encarar tudo ao mesmo tempo, não procurar resolver todas as coisas ao mesmo tempo. Uma coisa de cada vez. E agora ando a aprender a ter objectivos de vida mais a curto prazo, para os ir atingindo um de cada vez. Ninguém disse que era fácil. Eu demorei meses até perceber esta dinâmica aparentemente tão simples de "uma coisa de cada vez".

publicado por Silvina às 16:08
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Simplesmente A MELHOR série que já vi nos últimos tempos. Com David Morrissey, baseada nos livros de Mark Billingham.

 

 

imagens retiradas do site da Sky 1.

publicado por Silvina às 12:47


"Por quem sofremos primeiro quando abraçamos um grande amigo que acaba de perder o pai? Por ele, que enfrenta a morte e chora no nosso abraço, ou por nós, que somos chamados a enfrentá-la de novo?" 

post de Adolfo Mesquita Nunes no Delito de opinião

 

 

E entre os comentários, outras frases também lidas (e digeridas):

 

De Adolfo Mesquita Nunes a 2 de Dezembro de 2011 às 12:22
Gostaria de pensar que a enorme amizade nos tornaria menos egoístas mas a verdade é que quando velamos os mortos dos outros, estamos quase sempre a velar, mais uma vez, os nossos.

De Ana Vidal a 2 de Dezembro de 2011 às 12:31
Não é egoísmo, Adolfo. A amizade inclui o compromisso de enfrentarmos os nossos próprios fantasmas e dores por um amigo. Egoísmo seria não estares presente, por medo ou preguiça dessa confrontação íntima.
publicado por Silvina às 12:40

Quinta-feira, 01 de Dezembro de 2011

Quando temos cancro e passamos por momentos muito duros temos que nos focar em nós, no nosso tratamento, na nossa alimentação, no nosso corpo, no nosso bem estar. é suposto termos pessoas à nossa volta para nos ajudarem a fazer isso (família, amigos, equipa médica, etc.). Mas em última análise cabe-nos a nós controlar os nossos medos, digerir as emoções, encarar a possibilidade de morrer de cancro, suportar as dores físicas e psicológicas especialmente durante a fase dos tratamentos. Há doentes de cancro que, no meio disto tudo, ainda conseguem ajudar o outro, apoiar os outros, pensar primeiro nos outros e controlar os pedidos, os queixumes, fazer um sorriso quando só apetece atirar tudo contra a parede. Eu não sou um desses doentes. Eu tenho necessidade de me focar em mim, de pensar em mim primeiro, de me centrar no meu próprio sofrimento, em detrimento do bem estar dos que estão à minha volta. Eu sou uma bitch que não facilita e sofro com isso.

 

Em 2 anos e 2 meses de luta, tive 1 mês e meio de "folga" (=remissão). No resto do tempo tive que estar constantemente com as armas levantadas, queixo erguido, olhar determinado. Tive sempre que ter força, porque muitos dos que estavam à minha volta tiveram forças durante uns tempos e depois acabou. Muita gente atingiu o limite. Eu não. Não é por ser mais forte do que os outros, porque não sou. é porque no dia em que EU atingir o limite, tudo acaba. C'est fini. The end. Os outros podem-se ir revezando. Eu não. Eu sou só uma. Não posso passar o cancro a outro durante 2 semanas e ir de férias para a República Dominicana recarregar energias. é neste ponto que considero que a minha luta tem sido solitária. Não tenho ninguém que me carregue o fardo, ele é todo meu. Eu própria sei que já fui um fardo para muitos, durante demasiado tempo. Hoje recuso ser tratada como um cancro com pernas, uma pessoa-doença que "alguém" tem que se responsabilizar, tomar conta ou suportar.

 

Acho que por vezes sou extremamente egoísta, e pior!, acho que tenho o direito de o ser. Se calhar estou redondamente enganada. Ou se calhar sou só uma gaja brutalmente honesta.

publicado por Silvina às 14:35
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