As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Quinta-feira, 17 de Maio de 2012

O médico giraço que me costuma fazer os exames saiu-se com uma bonita, depois de me ter feito ecografia abdominal (e consequentemente ter-me besuntado toda com aquele gel nhanhoso que eles usam) e de me ter andado a revirar de um lado para o outro na marquesa, comigo semi-nua de leggings pretas e top preto qual catwoman.

 

Eu: "Então adeus, até à próxima!" E estendo a mão para um aperto de mão, que é como se faz sempre, e como eu sempre fiz com ele.

 

Ele estende-me a mão de volta, e diz: "Podemo-nos despedir com dois beijinhos, Silvina?" ao mesmo tempo que já está a inclinar a cara na minha direcção.

 

Até gaguejei. *coranço*

 

(não tem nada de especial, mas fui apanhada mesmo de surpresa. é sempre bom para mais tarde poder esfregar isto na cara do Lambard: "Eu ao Dr Poussin dou beijinhos..." ahahah)


Quarta-feira, 16 de Maio de 2012

O Dr Lambard sabe o meu número de telemóvel de cor.

 

 

(ainda estou em modo WTF?!)

 

 

(E não, eu ainda não saquei o dele...)

publicado por Silvina às 23:50
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Espanto-me com a sensibilidade do Ibrahim. é uma coisa impressionante.

 

 

Para quem percebe Francês (ou não percebe nada mas pode sempre ouvir a melodia):

 

PODCAST do Ibrahim na rádio France Culture (também gosto de episódios de rádio à moda antiga, não é só radio[terapia]!)

 

 

publicado por Silvina às 23:31

Terça-feira, 15 de Maio de 2012

"But I don’t know if [my mom] is proud of my cancer experience. I always let her know what is going on when there is new information, but she never instigates the “how is your head?” ask. To be honest, I think my cancer scares her, and makes her sad. I know for a while she was depressed and she wished she was (thought she should be) here for me, but I pushed her away because I wanted to handle things alone (with Brett).

 

I’m an adult–DAMMIT–and I can handle things by myself or with the people I choose to surround myself with, just like I had been doing since she left me when I was 17. Maybe this explanation of my early adulthood is unfair, but emotionally this is how I’ve always felt (...)."

 

Liz, no blog The Liz Army

 

Adoro a série House mas estes últimos episódios têm-me dado cabo da cabeça. O melhor (e único) amigo do House está doente. A ironia (ou não) é que o Wilson, o oncologista, tem cancro. Parece que tem só 5 meses de vida, porque o tratamento de quimio super potente que fez não funcionou.

 

E porque é que isto mexe comigo? Porque o Wilson tem o House, que é um egoísta miserável, mas está lá. Precisam um do outro, e apesar da situação ser trágica, não viram as costas um ao outro. Quando eu pensava que neste ano que passou tinha ultrapassado todas as questões que me faziam sofrer em relação à família e aos amigos que gostariam de cá estar mas que a) eu afastei para bem da minha saúde mental; b) não podem; c) não conseguem; d) têm as suas vidas; e) já deram o bastante para este peditório; eis que afinal não. O Wilson esfrangalhou-me isso na cara.

Continua-me a custar:

 

Que estando fora três semanas, regresso a Paris e não está ninguém à minha espera;

Que continuo a não poder ter um momento de fraqueza, porque não tenho aqui ninguém que (fisicamente) me levante nem ombro amigo para chorar;

Que os sentimentos não se pechincham, e as presenças também não. E isso não é uma questão de orgulho (meu), de incapacidade (dos outros) ou de necessidade (de todos).

 

Queria poder falar da morte, do medo, da solidão livremente.

Queria que quando eu estivesse mesmo a morrer viessem todos assistir comigo ao meu fim, com dignidade, com um sorriso nos lábios.

Queria ter direito a uma despedida como deve de ser, com música bonita e um abracinho de fugida, olhando os olhos de quem me olha e não ver culpa, nem arrependimento, nem sofrimento, nem pena. Só aquela calma trazida pelo amor de aceitar o inevitável e respeitar o curso da vida.

 

Raistepartam o Wilson e o House. Espero que os guionistas da série arranjem maneira de o(s) salvar(em)!

 



No hospital, a semana passada.

 

 

Auxiliar: Então, está cá hoje outra vez?

 

Eu: Ontem e hoje, agora venho cá todos os dias! Qualquer dia venho viver para o hospital...

 

Auxiliar: Pois, o Dr. Lambard já não pode passar sem si!

 

Eu: Errrr... *coranço!*


 

(Lambard, o nosso idílio secreto será em breve descoberto por toda a gente do serviço!...)

publicado por Silvina às 13:45


Ontem, depois do TAC, em conversa com o Dr. Poussin, radiologista:

 

 

Dr: Não parece haver nada de especial, para além deste angioma do fígado.

 

Eu: Já nosso conhecido desde 2009.

 

Dr: Já nos conhecemos desde 2009?! Gostava que nos tivéssemos conhecido noutras circunstâncias...

 

Eu: Errr, pois... *coranço!*



http://cheirinhoaeter.blogspot.com/

 

 

(é tão bom, que até perdoo à Ana C. e à Melissinha não me terem alertado mais cedo para esta pérola da blogosfera...)

publicado por Silvina às 13:30

Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

* Ou "Deixa cá roubar o titulo descaradamente à Ana C., que ela gosta"

 

 

Cada vez aprecio mais este meu corpinho mutilado. Cada vez dou mais valor a estes 1,62 e 56kg de curvas e algum músculo. Dou por mim a olhar cada vez mais ao espelho e espantar-me por ver esta barriguinha inatamente perfeita.

 

Depois de uma adolescência complicada a nivel de imagem corporal com muito acne ("tens pele de sapo!" mãe dixit), gordura, vergonhas, dietas frustradas e muita auto-confiança fingida, cá estou eu a vangloriar este corpinho e a tratá-lo cada vez melhor, com cada vez mais respeito. Começo a perceber que ele sou eu e eu sou ele. E estamos juntos nisto.

publicado por Silvina às 19:20
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"A amizade e o amor não se agradecem."

                                                               C.P.D.

 



publicado por Silvina às 18:10
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Faço investigação há uns aninhos. Depois do mestrado tirado em Paris fui servir às mesas, porque estava farta de pensar e já não podia ver livros à frente. Depois do restaurante andei a passear pela Ásia, já meia decidida que afinal trabalhar "como as pessoas normais" não era assim tão divertido e quando voltei do périplo asiático fui tirar outra licenciatura no estrangeiro, numa área muito parecida àquela em que já estava antes. Finalmente lá avancei para o Doutoramento, contente de ter uma bolsa (e ganhei-a bem ganha, fiquei em 1° lugar com a pontuação máxima possível) mas afundada em dúvidas e muitaaaaa falta de auto-estima. Não sabia o que queria da vida. Não sabia se era aquele "o caminho". Gostava (e gosto) de ler artigos, de fazer associações mentais, de escrever e de me desafiar. Não gostava da parte de falar em público, das confrontações com outros investigadores em despiques de ideias, e o meu sonho de vida não era ter carreira académica e dar aulas. Depois veio o cancro.

 

A tese ficou refém do cancro, e neste momento poderia escrever duas teses: uma na minha área e outra em oncologia.

 

O trabalho intelectual não pára com o cancro mas abranda. Consegui produzir alguma coisa, fui avançando aos poucos, mas é óbvio que fui obrigada a remodelar o projecto todo: disponibilidade para viagem, estabelecer contactos, fazer períodos de estudo no estrangeiro = nula. Disponibilidade mental para me preocupar com questões intelectuais enquanto estava a fazer radio, quimio ou a recuperar de mais uma cirurgia = nula. Disponibilidade para libertar espaço na cabeça para ir tendo ideias para a tese (tipo daquelas que costumam surgir na casa-de-banho, ou no autocarro) = nula, porque estava mais ocupada a reflectir sobre o sentido da vida, a mortalidade, as amizades, o amor, etc., etc.

 

Ando há três anos "em modo de sobrevivência", como me disse hoje uma amiga. Hipotequei o meu futuro académico. Vou acabar a puta da tese, disso não tenho dúvidas. Mas também não tenho ilusões: não tenho um CV suficiente bom para me aceitarem num pós-doc, ou para conseguir outra bolsa, porque nesses concursos só se pode apresentar um CV. E eu tenho dois: o CV académico e o CV do cancro.

 

Há uns tempos despertei para uma realidade que desconhecia por completo em mim: a vontade de ajudar os outros, não uns quaisquer outros, mas os outros que sofrem. Aqueles que não têm ninguém, e se sentem sós; aqueles que tendo alguém, se sentem sós na mesma; aqueles que têm dores; aqueles que estão hospitalizados. Comecei a pensar em mudar de vida.

 

Quero fazer algo de menos teórico e mais prático. Quero meter a mão na massa, e acho que depois do que eu passei/tenho passado, acho que tenho estofo e compaixão para isso. Quero trabalhar na área da Saúde, e o voluntariado não me chega. Ainda não formalizei uma decisão, ainda não a assumi plenamente, mas tenho um novo sonho. Mesmo com o cancro, e a colecção de notáveis recidivas, sonho tirar Enfermagem.

 

Reacção da minha amiga J.M., enfermeira, quando há uns tempos lhe falei nesta minha ideia peregrina: "és maluca. Não sabes onde te vais meter."

 

Eu ri-me, deliciada, porque ela tem toda a razão. Não sei mesmo. Mas adoro esta minha loucura, de fazer uma coisa totalmente oposta àquilo que ando a estudar desde o 10° ano, de mudar assim de vida, aos trinta anos. Isto é liberdade.

 

 

publicado por Silvina às 17:23


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