As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Sexta-feira, 15 de Junho de 2012

Pergunta-me porque razão volto sempre em baixo, mais angustiada, num baixo momento de forma. Relembra-me que isto se repete cada vez que vou, e cada vez que volto. Digo-lhe que talvez seja por causa de mim, que sou fria e gosto de distâncias, ou por causa dos outros que não sabem como falar comigo e que não me respeitam. Mas no fundo não sei o que se passa.

Só sei que nunca encontro o que fui buscar, não sinto o alivio que deveria tornar os meus dias mais ligeiros, pelo contrário : sinto o peso, a incompreensão, o nunca estar à altura. Sinto que para eles nunca faço nada bem, ou o que faço nunca é bom que chegue. E isso fere como quando tinha 7 ou 8 anos, mas nessa altura corria para os braços da minha avó e ficava tudo bem. Hoje sou adulta e a minha avó já morreu. E por já não ter braços para onde correr fico assim, mais angustiada, mais frágil, mais em baixo.

Sossega-me e diz-me o que eu preciso de ouvir, a saber, que estou lúcida, que estou viva, que consegui compreender a minha doença e mesmo assim viver com ela com energia, bom humor e com coragem.

Mas continua a fazer-lhe confusão porque é que eu vou e volto assim. A mim também. Faz-me uma confusão dos diabos, e desespero por não saber o que fazer para ir e voltar diferentemente.

publicado por Silvina às 15:47
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Quinta-feira, 14 de Junho de 2012

Sim, que eu também oiço porcarias assim e admito sem pudor que até gosto porque me dá vontade de abanar o corpinho, o que de manhã quando acordo e parece que tenho 100 anos em cima, é sempre uma coisa positiva ter vontade de abanar a carcaça mesmo que seja ao som de um RnB xunga.

 

 

 

 

Et quant à toi ma jolie,
Les femmes sont fortes aujourd’hui
Si tu tombes tu te relèves again
Tu ressayes again, again and again and again

 

Faut pas oublier,
Resté positif dans nos têtes
Faut pas oublier, my brother my sister
Même si c’est pas easy
Resté positif dans nos têtes (...)

publicado por Silvina às 13:42


*versão e-mail*

 

Mando mail ao Lambard a dizer que continuo angustiada. Que o efeito calmante que as consultas com ele normalmente me trazem desta vez não resultou. Responde-me "Quanto ao efeito calmante, podemos marcar consulta para a semana"...

 

(quando o li tive de imediato um efeito coranço).



 

 

 

publicado por Silvina às 12:30

Quarta-feira, 13 de Junho de 2012

Era capaz de correr contigo por esses bosques afora, entrançar e destrançar-te esse cabelo todo, enfrentar outros índios contigo, e penhascos e falésias, e toda a Natureza selvagem que nos rodeasse;

 

(Ou contigo ou com o teu irmão índio, que também é giraço)

 

 

 

 

Tenho uma grande panca com este filme. Tenho o DVD, a banda sonora, adoro o realizador Michael Mann, chorei baba e ranho e até já li o livro.

 

 

publicado por Silvina às 23:15

Domingo, 10 de Junho de 2012

"La rencontre ne s'annonce pas plus qu'elle ne se prepare. (...) On n'arrive jamais à une rencontre, une rencontre, toujours, vous arrive."

 

 

LAPLANTINE, F. - NOUSS, A., Le métissage

 

 

 

A propósito dos encontros que tive recentemente, lembrei-me desta frase que li acho que no ano passado. Tive a sorte de me terem acontecido encontros valiosos nestes últimos tempos. Daqueles cheios de sentido, cheios tout court, que animam a alma. Daqueles que fazem pensar e andar para a frente. Daqueles que me ensinam coisas, que me despertam, que me chamam à vida. Tenho tido, apesar do contexto (de saúde) de merda, umas semanas fantásticas. E sinto-me imensamente contente por poder admitir isto a mim própria, e poder dizer em voz alta para os outros ouvirem que tive uns dias felizes, enfim.

publicado por Silvina às 20:28

Sábado, 09 de Junho de 2012

O titulo deste post parece o nome de um novo partido politico. Mas não é. Ontem recebi um telefonemazinho do Dr Lambard (sim, que nós não conseguimos ficar mais de uma semana sem falar um com o outro...) a dar-me parte de uma solução de tratamento que me agradou muito. Apesar de não me querer entusiasmar ainda muito, porque eu sou uma pessoa muito contida até ter a certeza absoluta das coisas, acho que pude finalmente relaxar. Hoje já dormi melhor. Com cancros raros não há tratamentos milagres. Mas o que me foi proposto não anda muito longe disso. é de longe a melhor hipótese de sobrevivência que eu poderia ter. Foi a melhor prenda que poderia ter recebido.

 

(As coisas andam-me a correr tão bem que já estou à espera do revés. Sou um cão maltratado e espancado, que quando lhe estendem uma mão amiga para fazer festinhas se encolhe todo. Porque ser um cão maltratado e espancado deixa sempre marcas.)

publicado por Silvina às 13:36

Sexta-feira, 08 de Junho de 2012

Uma das coisas que mais me custa no cancro é a imprevisibilidade.

 

Tudo pode acontecer. E rápido.

 

Um dia está tudo bem, no dia seguinte está tudo mal.

 

é um viver na corda bamba levado ao extremo. Como é que se faz isto? Não sei muito bem, mas faz-se. é possível. Engole-se a injustiça, abraça-se a coragem, intensificam-se os momentos. Aceita-se a felicidade quando ela vem. Cria-se espaço para o riso, para o convívio, para a música, para os encontros.

 

Mas quando surgem noticias destas, como uma recidiva completamente do nada, parece que tudo isso deixa de fazer sentido. E de todas as palavras que poderia dizer, só me saem estas: que grande merda.

 



 

 

je danse, donc je suis.
tu danses et je te suis.
mais si je te suis,
ce n'est pas pour ce que tu penses,
c'est pour la danse,
pas pour la vie.

 

 

[Em repeat mode. Ainda não danço como a mocinha do vídeo, mas lá chegarei...]

publicado por Silvina às 12:08


às vezes fico surpreendida com a falta que me fazes. Como se todas as ausências na minha vida se condensassem na tua pessoa. Ocupas-me mesmo em momentos onde era suposto relaxar e deixar a mente vaguear até que chegue aquela sensação de relaxamento profundo; que não chegou, porque eu pensei em ti e começou a faltar-me o ar. é uma falsa sensação de dependência, uma fingida sensação de deslumbre. Como se se confundissem os sintomas, parece uma coisa e afinal é outra totalmente distinta. Sei mais ou menos o que é; sei exactamente o que não é. Acho que, no fundo, sinto simplesmente a tua falta.

publicado por Silvina às 11:55
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