Às vezes ainda tenho a sensação que isto tudo não me está a acontecer a mim. Que é outra pessoa que está a passar por isto tudo, que tem que viver com um cancro muito raro, agressivo e imprevisível. Depois abano a cabeça e penso: "que estupidez, claro que sou eu, é a mim que isto está a acontecer."
Já passaram dois anos desde o primeiro diagnostico de carcinoma muco-epidermóide. E às vezes ainda me custa a acreditar. Não sei se um doente de cancro algum dia aceita plenamente esta guilhotina que lhe colocam no pescoço, esta realidade que transtorna tudo, que muda tudo, passado, presente e (hipotético) futuro.
E nestes dias em que me sinto estrangeira no meu corpo, fecho-me em casa e recuso assumir esta minha vida.
Amanhã é outro dia.

