As rádios emitem em várias frequências. Estes episódios, contudo, situam-se numa frequência diferente, não uma de rádio, mas de radio. Como em Radioterapia. Episódios de um tratamento oncológico (à suivre)
Terça-feira, 14 de Dezembro de 2010

- Não lavo o cabelo há uma semana;

- Tenho um buço que desafia qualquer peixeira do mercado do Bulhão;

- Tenho pêlos no pescoço, na zona do enxerto de pele (porque a pele veio da perna, logo tenho pêlos da perna no pescoço);

- Nem vou referir os pêlos no sovaco;

- Não lavo a perna esquerda há mais de um mês;

- Não tomo banho desde o dia 7 de Novembro de 2010 (lavar-me à gata não conta);

- Os dentes também não estão no seu melhor (como a boca não abre quase nada e as gengivas estão hiper-sensíveis, a lavagem eficaz dos dentes fica condicionada...);

- Acho que tenho mau hálito, mas ao menos já não me babo tanto de noite;

 

E nunca ninguém no hospital nos avisa destes pequenos pormenores tão importantes na vida de uma gaja...

 



Estou a ser tratada fora do país. Em 10 dias tive de contar à minha família que estava em verdadeiro perigo de vida, que tinha que mudar de casa e ir viver para outro país até me curar, que esta solução clínica que me apresentaram era a minha ultima oportunidade para me livrar deste cancro. E assim o fiz, contei à família, a alguns amigos, arrumei os trapinhos, chorei porque estava a ir contra mim própria e a deixar uma casa onde me sentia muito bem e feliz. E tive que, numa semana, encontrar casa em Paris, fazer mudanças, exames médicos, comprar móveis, instalar a luz e a internet e mentalizar-me que ia ficar sem a parte esquerda da mandíbula, o que acarretava uma primeira operação de 7h, seguida de outra mais pequena, o que perfaz duas anestesias gerais em 9 dias. E seriam duas ou três semanas sem andar, sem falar, sem comer. Nada fácil. Mas fiz isto tudo.

 

E agora continuo fora do país. Onde só me visita quem eu quero e quando preciso. Pode parecer que estou sozinha. E às vezes estou. Mas porque quero, faço questão e preciso disso para a minha saúde mental não se deteriorar. Os meus verdadeiros amigos têm sido aqueles que efectivamente respeitam as minhas decisões, que percebem que eu sei o que preciso e o que é melhor para mim, que não se impõem nem me impõem um horário de visitas ou visitas forçadas. Os meus verdadeiros amigos são aqueles que pensam em mim, que sabem que me vou safar desta, que me escrevem sms, mails, postais ou cartas com palavras que me fazem sentir que sou uma pessoa normal. Doente, mas normal. Eles conseguem lidar comigo sem me fazer sentir o peso da doença, o estigma do cancro, o medo da morte e que aconteça o "pior". Eles conseguem perceber como me sinto sem ter que explicar tudo ao pormenor. E a distância torna-se insignificante quando tenho pessoas assim na minha vida.

publicado por Silvina às 14:03


A recuperação é uma coisa lixada. Esgota-me a paciência, revira-me os olhos, provoca-me sensações de instabilidade mental. A recuperação em si é uma coisa boa. Significa andar para a frente, evoluir, voltar a ganhar o que se tinha antes; recuperar. Mas eu não vou ser quem antes era, pois há coisas (e partes do meu corpo) que perdi para sempre. Então luto para recuperar o quê? é um paradoxo na luta contra o cancro. A recuperação que faço agora serve para daqui a um mês dar mais dois passos atrás e voltar tudo ao mesmo durante as 33 sessões de radioterapia que ai vêm. O inchaço que está a desinchar vai voltar a inchar; a língua que se movimenta melhor vai voltar a ficar perra; a boca que dói menos vai voltar a doer e desta feita com aftas e claro, inchaço.

 

E por vezes não se vê o fim disto. Recuperar para depois voltar a estar pior, para depois, eventualmente, melhorar. Para uma pessoa como eu isto é frustrante. Não lido com falhanços nem com frustrações. Não lido (bem) com situações que exigem infinita paciência e resignação. Mas a verdade que salta à vista é esta: as coisas são assim. Com cancro é isto. Não posso mudar o ritmo das coisas. Não posso alterar estes processos. Ando a tentar fazer um esforço brutal para aceitar isto, que tudo tem um ritmo, e que tenho que resistir com relativo optimismo aos dois passos para trás e esperar, com pachorra, que dê um dia outro passo para a frente.

 

E tento todos os dias criar expectativas e trabalhar o meu zen. Tento todos os dias lembrar-me que a (minha) vida é assim, não tenho escolha. E não me ressentir das pessoas que têm escolha e que (aparentemente) têm vidas melhores do que a minha. Das pessoas que andam na rua com mandíbulas e com os seus próprios dentes, e com perónios, e com a perna intacta, sem buracos nem cicatrizes de 30cm. Trabalho o meu zen, o meu humanismo e a minha compaixão. Não posso deixar que eu própria me vitimize, quando sinto que ninguém compreende o que estou a passar, porque ninguém à minha volta passou efectivamente por isto. E parece contraditório, sentir-me vítima e não o querer ser; e passar-me quando pressinto que me tratam como tal.

 

Raio do cancro, que me deixa confusa, lerda, e mais desnorteada da cabeça do que nunca.

publicado por Silvina às 13:47

Segunda-feira, 06 de Dezembro de 2010

Dei-me conta da relação ambígua que tenho com o carpe diem. No amor, sim senhor, aproveitar o dia-a-dia e tal. No resto não.

 

Sou carpe-bipolar-diem.

publicado por Silvina às 13:05

Domingo, 05 de Dezembro de 2010

Estou em casa há quase uma semana, dias que passaram sem os sentir, noites acordada por causa das dores na perna que tem que estar levantada por cima de 3 almofadas, o que me impede de dormir na minha posição preferida e mais confortável que é de lado. Estou em casa com a minha amiga M., que faz de Gorete (empregada da limpeza), cozinha, vai às compras, à farmácia (devia começar a ter lá uma conta cliente fiel), a todo o lado que é necessário. E eu cá estou, de perna no ar e quase inútil, corpo que vai emagrecendo (valha-nos isso) e tentando aguentar uma cicatrização que é pesada, muito pesada.

 

E hoje saí de casa. E andei menos de 100m. E tudo me doía, as mãos, a perna, a coxa, o ânimo. Estou farta desta situação que de transitória se tornou a minha realidade diária. Farta da dependência que obviamente se instalou porque necessária, farta da imobilidade que me é imposta, farta da lentidão dos avanços da cura. E para mais dou por mim a questionar o que não devia questionar, a deixar-me arrastar pelos cantos pelo medo e pelo desconhecido, pela ameaça de um futuro próximo que se sabe menos que risonho.

 

E o futuro a médio / longo prazo, esse, não o vejo. Nem com o horizonte mais negativo ou positivo. Não o visualizo para o melhor nem para o pior. Neste momento esse tipo de futuro não existe.

 

E é bonito o carpe diem e o caralho, mas viver o dia-a-dia sem sonhos e sem planos é uma grande merda no fim do dia. Errados estavam esse Horácio que se lembrou desta frase em latim, e os new-age que curtem o "vive no momento". Devíamos era todos fazer por viver num momento infinito, e que a esperança e a crença na saúde e na felicidade se prolongassem através dos dias, e se dissipassem lentamente ao mesmo ritmo do nosso sopro vital. Isso sim. Agora teorias estéreis do carpe diem quando não há plano onírico, quando a esperança é pouca e quando não se consegue ver mais do que um palmo à frente da cara é uma grande badamerda.

publicado por Silvina às 17:21

Domingo, 28 de Novembro de 2010

Tenho uma memória que me salva de muitos maus momentos, que se apaga a ela própria nos momentos certos, como um "CUT" no set de uma filmagem. Estou há quase 3 semanas no hospital. Escrevo neste momento de uma cama de hospital. Algumas coisas permanecem gravadas e sentidas, como o frio glacial que me paralisou as costas (e o corpo todo a bem dizer) no pós-operatório, antes de me levarem para o recobro. Lembro-me do frio, tanto frio. Lembro-me das dificuldades a respirar, da enfermeira estúpida que não percebia o que eu, meia drogada, queria dizer. Lembro-me de passarem 3 dias, e de achar desumano não me deixarem ver as minhas amigas durante 3 dias. Na verdade tinha passado uma noite. Lembro-me cada dia que passa mais vagamente da primeira semana no hospital. Lembro-me de não falar, não respirar sozinha, e de precisar de uma data de tubos para me manter em vida.

 

Hoje os tubos foram-se. Eu mantenho-me em vida sozinha. E vou-me sempre lembrar desta grande vitória. E o resto dos meus dias vão ser uma grande vitória, porque passei tudo isto mais o que já me esqueci para ter direito a vivê-los.

publicado por Silvina às 21:50

Terça-feira, 16 de Novembro de 2010

A operação correu bem.

 

Não falo, não como sozinha nem pela boca, e não ando (so de andarilho). Mas correu tudo bem. E estou viva.

 

E a dar-lhe forte e feio na recuperação, para ver se saio daqui em tempo record*.

 

 

*disseram-me entre 3 a 4 semanas. Eu quero entre 2 e 3.

publicado por Silvina às 19:48

Domingo, 07 de Novembro de 2010

Alguém me disse que amanhã começa o meu processo de libertação. é uma ideia interessante, como é que uma acção castradora e limitativa se transforma num instrumento de libertação. Tento expandir ao máximo a minha mente, para abranger todos estes significados escondidos e nada óbvios, todos estes aparentes paradoxos, como estar limitada e livre ao mesmo tempo. Será talvez uma espécie de liberdade condicional, expectante, com comité de avaliação uns tempos depois para ver se eu estou pronta para voltar a viver em sociedade. Nunca mais serei a mesma, nunca mais serei este "eu" de agora, mas sei que depois disto tudo, quando toda a poeira assentar e eu conseguir encaixar-me de novo na sociedade, o meu "eu" também se há-de expandir, e alcançará alturas que nunca imaginei alcançar.

*

Lentamente faço a mala para o hospital: T-shirts largas na gola, casacos com fecho zip, calças de pijama bonitas e confortáveis, casaco de lã que me relembra tempos antigos perto da pós-adolescência, pantufas em forma de botinhas cor-de-laranja. E ainda os produtos de higiene, o meu shampoo preferido e que cheira tão bem vê-se substituído pelo shampoo seco em spray da Klorane, gel duche o mais neutro possível e sem perfume, nada de cremes com cor, nem make-up, nem unhas pintadas. As lentes de contacto ficam na caixinha e em vez disso uso os meus óculos azuis que em certos dias e contextos me dão um ar de secretária lúbrica. Preparo as burocracias: antevejo todos os problemas que possam surgir, coisas que eu tenho que autorizar / assinar/ abençoar antes da entrada no hospital. Porque uma vez naquele mundo branco e desinfectado não há lugar para burocracias, responsabilidades, preocupações mundanas.

*

Tento conjugar o meu realismo racional com um optimismo esperançoso. Não sou gaja de crenças. Não creio porque sim. Preparo, analiso, pondero, intelectualizo mesmo. Mas não é altura para isso, é altura para ouvir o meu lado emotivo, aquele lado que não costumo privilegiar, mas no qual confio muitas vezes. Tenho muito bons instintos. Acima da média, creio. E às vezes, quando rosno ao cancro, é esse lado que me sustenta, que me transporta, que me enche de força descontrolada e avassaladora. Tenho boas hipóteses de ultrapassar isto. Tenho quase tudo alinhado para me sentir forte e invencível.

publicado por Silvina às 12:23

Sábado, 06 de Novembro de 2010

O que me sobra são pequenos nadas, decisões que parecem simples e óbvias mas que se revestem de uma importância desmedida. O poder estar sozinha, mandar naquilo que ainda me é autorizado mandar. O que me resta são pensamentos e força de vontade, egoísmo e imposições aos quais eu tenho direito. Tenho direito a muitas coisas nesta altura. A decidir quem me trata, como me tratam e quem me acompanha. Tenho direito a privilegiar a nata da nata, as pessoas que me sustentam, que me aguentam o barco, que não (me) falham se eu falhar ou fraquejar.

 

Nunca tive um período tão difícil em toda a minha vida. Tudo foi posto em questão. O porquê de respirar, as minhas limitações, as sequelas e mutilações com que posso ou não viver. Não sacralizo a vida, não vivo a qualquer custo. Isto em teoria. Porque não sei como reagiria se me tirassem o fôlego da boca, se a tal mão invisível me sufocasse. Acho que esperneava, dava uns kicks de taekwondo, e no fim lutaria pelo meu direito a decidir pelo fim que tivesse que ter. Quero acima de tudo poder escolher.

 

Dia 9 vou ser operada. Vai ser uma coisa brutal, extremamente invasiva, vou ficar (ainda) mais diferente, para sempre. Como bem me relembrou a gaja, diferente não significa mudar para pior. Posso sair disto viva, e melhor pessoa. E os novos episódios de radio que se seguem, acompanhados de 3 episódios de quimio, são basicamente a minha ultima oportunidade. é assim que, com todo o dramatismo que se impõe, declaro guerra aberta ao cancro, e a partir daqui ou vai ou racha. Eu vou ficar rachada. Mas ele vai ter que se ir embora.

publicado por Silvina às 23:16


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